Com prédio de arquitetura exuberante, Fiocruz faz 120 anos enfrentando o maior desafio do século 21

Criada com o objetivo de combater epidemias como a peste bubônica, febre amarela e varíola, que ameaçavam a então capital da República, o Rio de Janeiro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) completou 120 anos de existência nesta segunda-feira (25/05). A data é celebrada diante do maior desafio sanitário, econômico, social e humanitário do século 21: a pandemia da Covid-19. A instituição tem motivos, no entanto, para celebrar a data, pois ostenta até hoje a linha de frente no enfrentamento a doenças. Além disso, desenvolve projetos na área de vacinas; lançou livro sobre modernidade na arquitetura hospitalar; e acaba de inaugurar o Centro Hospitalar para a Pandemia Covid-19, com 195 leitos.

A Fiocruz é parceira do Rio Capital Mundial da Arquitetura com a elaboração do projeto ‘Ação Cidade Acessível’ que tem o objetivo de estimular a reflexão do público sobre os desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência no município e ressaltar a importância do desenvolvimento de ações para a construção de cidades mais acolhedoras para que os espaços urbanos se tornem mais dinâmicos e dignos para todos. O evento, que inclui exposição, seminário, palestra, atividade educativa, filmes, oficinas, visita guiada, estava programado para julho, mas foi adiado para novembro devido à pandemia. O tema é alinhado com o lema do 27º Congresso Mundial de Arquitetos UIA 2020 Rio, adiado para 2021 devido à pandemia: “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21”. 


A presidente da fundação, Nísia Trindade Lima, resume, no site da instituição, a luta na busca de soluções para os desafios cada vez maiores no setor de saúde.

– A Fiocruz se dedica diuturnamente a apresentar propostas e soluções, a elaborar pesquisas que respondam a perguntas ainda sem respostas, a formular e implementar ações estratégicas de atenção e promoção da saúde, como a construção do Centro Hospitalar para a Pandemia Covid-19, uma ação de referência com o Ministério da Saúde, entre muitas outras iniciativas.

Diante da pandemia, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) desenvolve 106 estudos de vacinas, inclusive contra o novo coronavírus. A presidente ressalta que todas as ações dos dias de hoje se conectam com o legado de Oswaldo Cruz, que resultou numa instituição que alia ciência, tecnologia, educação, saúde e projetos nacionais.

Imagem do Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz

O ícone Castelo do Mourisco 

É impossível passar pela Avenida Brasil, uma das principais do Estado de Rio de Janeiro, sem que o castelo cor-de-abóbora (foto do alto) chame atenção. Exatamente como vislumbrou Oswaldo Cruz em 1905, quando foi iniciada a construção. A obra da principal edificação do Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos, o Castelo Mourisco da Fiocruz, foi concluída em 1918. Foi erguido em uma colina na antiga fazenda de Manguinhos, então, de frente para a Baía de Guanabara. Substituiu as antigas e improvisadas instalações do Instituto Soroterápico Federal, criado em 25 de maio de 1900.

Conhecido como o Palácio das Ciências, representa a união da ciência e da arquitetura. Foi projetado pelo arquiteto português Luiz Moraes Júnior e imaginado por Oswaldo Cruz. Inspirado no Instituto Pasteur, de Paris, e com influência de obras de outros países, foi projetado para a produção de vacinas e remédios, pesquisa científica e outras atividades ligadas à saúde pública. Atualmente, o edifício abriga áreas administrativas da Presidência da Fiocruz e do Instituto Oswaldo Cruz, mas está aberto à visitação, fazendo parte do circuito oferecido pelo Museu da Vida da Casa de Oswaldo Cruz. O serviço interrompido atualmente devido à recomendação de afastamento social imposto pelo novo coronavírus.

Modelo de arquitetura para a ciência 
O castelo, em estilo neomourisco (ou neoárabe) apresenta uma arquitetura singular. Constituindo o chamado Pavilhão Mourisco, o local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1981. A Casa de Oswaldo Cruz cuida de sua preservação e restauração, assim como de todo o patrimônio arquitetônico, arqueológico e urbanístico da fundação. Atualmente, o Castelo de Manguinhos é reconhecido por seu valor científico e cultural.

Para o arquiteto e pesquisador da Fiocruz Renato Gama-Rosa, que trabalha há 33 anos na instituição, o castelo sempre foi um forte símbolo da instituição, abrigando hoje também o centro de entomologia, biblioteca, museu, salas expositivas. Adaptações são feitas para adequá-lo às transformações do mundo, como a instalação de rede de internet, ar condicionado. Além disso, está em constante processo de preservação, com impermeabilizações, revestimento, entre outros cuidados.

Ele acrescenta que o castelo representa um modelo de arquitetura para a ciência. Foi projetado e construído com o que havia de mais moderno à época para abrigar área de laboratórios, acervos, apoio e biblioteca, sem esquecer os elementos decorativos que encantavam e ainda encantam quem trabalha ou visita o local.

– Com o avanço da ciência, não há necessidade de a Fiocruz estar em uma área isolada, mas o prédio já é um marco muito grande naquela região. Há toda uma relação com as comunidades do entorno em termos de assistência social, atendimento médico -, diz o arquiteto e pesquisador da Fiocruz.

Renato Gama-Rosa, junto com Ana M. G. Albano Amora, da UFRJ, organizou o livro ‘A Modernidade na arquitetura hospitalar: contribuições para a historiografia’, resultado de uma parceria da Universidade Federal do Rio de Janeiro com a Casa de Oswaldo Cruz, e apoio do CNPq. A obra foi lançada em 2019 pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. Aborda temas higienistas, filantrópicas, passando pelo urbanismo e arquitetura, sem deixar de lado a ciência envolvendo a arquitetura dos hospitais em países como Canadá e Chile, Colômbia, México e Brasil.

–  Esta publicação contribui para ampliar as discussões e conhecimentos acerca da história dos espaços de saúde nas Américas, em especial, os hospitais, locais aos quais recorremos em algum momento de nossas vidas, e que, atualmente, têm sido objetos de maior atenção por conta dos efeitos dramáticos da nova pandemia – afirma Gama-Rosa.

Imagem do arquivo da Casa de Oswaldo Cruz

Contra a Covid-19
A instituição está desempenhando mais um importante papel no combate ao novo coronavírus. Na semana passada, foi inaugurado o Centro Hospitalar para a Pandemia de Covid-19 – Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, para atendimento de quase 200 casos graves da doença no Rio de Janeiro, conjugando assistência e estudos clínicos. A unidade é permanente e foi construída em dois meses.

O espaço serve também para a realização de ações do ensaio clínico Solidariedade (iniciativa que tem o objetivo de investigar a eficácia de quatro tratamentos para a Covid-19), promovido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) internacionalmente e liderado no Brasil pela Fiocruz. A medida auxiliará o estado e município do Rio de Janeiro no desafio de garantir assistência aos cidadãos que tenham desenvolvido o quadro grave da Covid-19.

Características específicas diferem o hospital das demais unidades de campanha do país, que têm funcionamento temporário. Os leitos contam com um sistema de isolamento com pressão negativa do ar, específico para infecções por aerossóis. Nos quartos, que são individuais, uma tubulação é responsável por sugar o ar contaminado que passa por um sistema de filtragem antes de ser eliminado por chaminés instaladas na parte externa da construção. Há, ainda, uma central de tratamento de esgoto própria para tratar resíduos com o novo coronavírus e garantir destino seguro do efluente gerado.

Rio Capital Mundial da Arquitetura
O Rio de Janeiro é a primeira Capital Mundial da Arquitetura, título inédito conquistado pela Prefeitura do Rio e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e pela União Internacional de Arquitetos (UIA). Ao longo de todo o ano de 2020, a cidade sediará uma série de eventos, entre eles o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, exposições e concursos públicos, adiado para 18 a 22 de julho de 2021, devido ao surto de coronavírus no mundo. Além de mostrar para o mundo a riqueza arquitetônica do Rio, esta titulação é também uma oportunidade de reflexão sobre o futuro, de planejar o que se quer para as cidades de todo o mundo.

UIA 2021 Rio
Com o tema “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21” e expectativa de público de 20 mil profissionais da área, o 27º Congresso Mundial de Arquitetos vai transformar o Rio no epicentro do debate sobre o futuro das cidades do mundo. Promovido pela União Internacional de Arquitetos (UIA) e com a organização do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o evento convida especialistas e entusiastas de cidades mais dinâmicas, justas e sustentáveis a debater soluções inicialmente entre os dias 19 e 23 de julho de 2020 (devido à pandemia de Coronavírus no mundo, a data foi adiada para 18 a 22 de julho de 2021). O Congresso conta ainda com eventos preparatórios e paralelos, como exposições, seminários e workshops, que acontecem por todo o país.

Notícias Recentes

Paulo Knauss

Uma constante contemplação e admiração pelo Rio de Janeiro, que se estruturou para ser vivido na rua, onde o sonho de seu povo toma formas

Andrea Queiroz Rego

Carioquíssima, como ela mesmo se define, a arquiteta, urbanista e professora, Andrea Queiroz Rego, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin