Universitários de Arquitetura e Urbanismo produziram até proteção para médicos

Estudantes e professor da UFMG desenvolveram design de novos protetores faciais, mais baratos e adaptáveis

Os problemas, as soluções e a luta contra o novo coronavírus ganharam contornos diferentes, porém, fundamentais nas universidades de Arquitetura e Urbanismo de outras cidades brasileiras. No segundo capítulo sobre as atividades, o Rio Capital Mundial da Arquitetura mostra que alunos e professores se dedicaram muito para avançar com estudos e pesquisa, além de produzir material que serve de escudo contra o vírus.

Quinze dias depois do começo de isolamento social em algumas cidades brasileiras para tentar conter o avanço da Covid-19, a Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se destacou pelos trabalhos voltados ao combate da pandemia. Um dos projetos marcantes foi a criação do design de novos protetores faciais, mais baratos e adaptáveis, desenvolvido pelo professor Marcelo Silva Pinto, do Departamento de Tecnologia do Design, e pelo estudante Humberto Cardoso. O primeiro lote foi entregue para médicos e profissionais de saúde do Hospital de Pronto-socorro João XXIII.

A cartilha com novos protocolos de comportamento e estratégias de adequação aos espaços e edifícios da universidade também sobressaíram. O manual foi elaborado pelo grupo de trabalho sobre espaço físico, que assessora o comitê da universidade para o enfrentamento da Covid-19.

Paralelamente, os colegiados de graduação e pós trabalharam nas transformações acadêmicas necessárias para a retomada das atividades. Os grupos e projetos de pesquisa e de extensão se dedicaram desde então  a novas ações como o suporte a comunidades frágeis e ameaçadas pela crise sanitária.

Maurício Campomori: “Os trabalhos demonstram que as universidades não pararam”

– Os trabalhos vão do conceitual ao desenvolvimento de produtos, o que demonstra que as universidades não pararam. Estamos trabalhando tão ou mais intensamente que antes -, diz orgulhoso Maurício Campomori, diretor da Escola de Arquitetura da UFMG, que  também é presidente da Associação de Escolas e Faculdades públicas de Arquitetura da América do Sul  (Arquisur).

Para minimizar impactos da pandemia, outros três pesquisadores publicaram nota técnica com propostas para o enfrentamento da Covid-19 nas periferias urbanas. 

UFMG: Cartilha com novos protocolos de comportamento e estratégias de adequação aos espaços, uma estratégia contra a Covid-19

Maurício Campomori encara como certo que haverá mudanças no setor educacional: atividades, como as visitas técnicas de grupos a obras e a locais referenciais de arquitetura, serão inviabilizadas,.

– A vivência prática de determinadas experiências terá que ser substituída por métodos e mídias não-presenciais. Preferencialmente síncronas, ou seja, professores e estudantes conectados em tempo real, utilizando ferramentas de interação para videoconferências, por exemplo. Estamos chamando  isso de “ensino remoto emergencial”. É importante frisar que não se trata de adotar o modelo de “ensino à distância”, que envolve uma outra lógica de preparação e ministração de conteúdos.

Campomori lembra que as universidades públicas fizeram esforço de inclusão social nos últimos anos. Hoje, 50% do alunado da UFMG pertence a famílias com renda inferior a cinco salários mínimos. Então, segundo ele, há necessidade de garantir a acessibilidade de todos às novas práticas.

– Estou certo de que não sairemos desse momento do mesmo modo como entramos. A arquitetura e o urbanismo terão papel fundamental no que está sendo chamado de novo normal. Nossa tarefa passa por criar melhores condições para espacializar práticas sociais e culturais transformadoras após essa catástrofe humanitária que estamos vivenciando.

Veja vídeo da produção dos protetores no final da reportagem.


Projeto de mobilidade urbana para São Paulo
Para integrar 200 professores e 2.600 alunos entre graduação e pós, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana  Mackenzie de São Paulo optou por continuar o ensino de Arquitetura e Urbanismo e de Design por meio de ferramentas tecnológicas.

Em março, logo no início da pandemia, a instituição  parou por uma semana para montar estratégias especiais de ensino remoto para o período de pandemia. E, através das ferramentas virtuais, esforço e trabalho colaborativo entre todos os envolvidos, os conteúdos foram ministrados, os trabalhos foram desenvolvidos e apresentados com bons resultados, segundo a arquiteta Angélica Benatti Alvim, diretora da FAU – Mackenzie.

A FAU-Mackenzie, porém, suspendeu as  disciplinas essencialmente práticas, especialmente as que necessitam de aulas em laboratórios.

Angélica Benatti Alvim: “com ferramentas virtuais, esforço e trabalho colaborativo, os conteúdos foram ministrados, os trabalhos foram desenvolvidos com bons resultado

– O conteúdo que depende de programas em laboratórios, como por exemplo, canteiro experimental, modelos virtuais e topografia serão repostos posteriormente. Foi tudo acordado entre alunos e professores. Algumas dinâmicas são, no entanto, insubstituíveis, como por exemplo, as pesquisas e visitas de  campo e o contato entre equipes de alunos e professores, aponta Angélica.

A arquiteta destaca que, durante este semestre, houve um processo de aproximação e muito aprendizado entre professores, alunos e  funcionários da faculdade em relação ao mundo virtual. Defende que o ensino de arquitetura não pode ser à distância, mas aprimorar o processo de ensino-aprendizagem com o uso de ferramentas tecnológicas é fundamental para a formação de arquitetos e urbanistas no século XXI.

O momento da pandemia é também apropriado para repensar a relação das pessoas com o espaço e a cidade, afirma a diretora. Na disciplina de Mobilidade Urbana, optativa que leciona, após a comparação entre cidades de diferentes países, os estudantes elaboraram propostas para redução do uso de veículos particulares e criação de áreas mais sustentáveis em São Paulo, priorizando a mobilidade ativa.

Tudo planejado para facilitar o deslocamento das pessoas com a inclusão de ciclovias, priorização do pedestre, ampliação da oferta de espaços públicos e qualificação dos existentes para dar melhores condições circulação e de lazer.

Alunos estudaram experiências internacionais, como Nova Iorque, para criar projeto em São Paulo com redução de veículos e mais áreas sustentáveis

No projeto de uma das equipes, as estudantes Ana Clara Rodrigues, Ana Paula Mayer e Mariana Kisse constatam que a arquitetura tem novos rumos pela frente:

– A maneira como nos relacionamos entre si e com o espaço nunca mais será a mesma. A arquitetura está sendo e será modificada de diversas formas e em diferentes escalas, seja através de instalações temporárias, dentro ou fora de nossas casas, ou do planejamento de novas infraestruturas urbanas.

Projeto de alunas para rua de São Paulo: mais espaço para pedestres, menos para automóveis

A proposta da equipe indica a criação de uma faixa de acesso nas calçadas, localizada perto do comércio, para que as pessoas possam parar para ver as vitrines e aguardar em filas com distanciamento social seguro e adequado. Está previsto ainda uma faixa livre para ampliar a circulação das pessoas.

Além disso, o Programa FAU+D_Mackenzie_Acolhe, um conjunto de ações no âmbito da extensão acadêmica para atender a população moradora de assentamentos precários, é objeto de projetos de pesquisa e atividades de ensino desenvolvidos por docentes e discentes dos cursos de graduação de Arquitetura e Urbanismo e de Design e pelo programa de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da faculdade.

O conjunto de ações que integram o programa, estão organizadas em cinco eixos de atuação, realizados individual ou conjuntamente: mapeamento, doações voluntárias, comunicação, economia solidária e pensar e desenvolver projetos arquitetônicos ligados às necessidades da população de baixa renda, sejam equipamentos, mobiliário e /ou de espaços para redução dos riscos de contágio da doença.

O programa é feito em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil – São Paulo (IAB SP). No eixo ‘projeto’ estão sendo desenvolvidos protótipos de lavatórios com a Secretaria de Habitação, Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo (Sabesp) e ONG Habitat.

– Estamos desenvolvendo, também, um projeto de pesquisa-ação intitulado ‘Distanciamento Físico’ no Jardim Lapenna, Zona Leste de São Paulo. O projeto é liderado pelo professor Fernando Mello Franco e envolve alunos professores e atuantes no local, como a Fundação Tide Setubal e a CPTM. A ideia é pensar em um protótipo de isolamento físico na comunidade em situações de pandemia que considere as relações sociais e de saúde -, acrescenta Angélica.

Para encerrar 2020/1, a FAU-Mackenzie, por meio de uma comissão de professores e alunos, organizou uma exposição virtual dos trabalhos.  Os resultados podem ser vistos no canal do YouTube da FAU Mackenzie https://youtu.be/U87LQEZWvBc

Um dos problemas apontados pela diretora da faculdade no decorrer do semestre, foi o acesso desigual à internet por parte de alguns alunos, especialmente os bolsistas. Para vencer este problema, a universidade fez acordo com uma operadora para adquirir acesso à internet para estes alunos no próximo semestre.

Ambientes mais saudáveis
Os futuros arquitetos terão a responsabilidade de entregar ambientes saudáveis para facilitar a interação das pessoas com distanciamento seguro e intensificação da relação interior-exterior. Essa é a perspectiva do professor da Faculdade Redentor de Paraíba do Sul, Marcus Rosário, especialista em edifícios sustentáveis. Ele acrescenta que novos espaços de transição serão incorporados aos projetos para intensificar a higienização.

Marcus Rosário: “a arquitetura é um reflexo da atual dinâmica social”

– O novo profissional contribuirá para o novo normal com soluções mais impactantes positivamente ao cotidiano das pessoas a partir do olhar atento às necessidades dos usuários e comportamento em uso. Afinal, a arquitetura é um reflexo da atual dinâmica social -, diz.

Nas aulas virtuais oferecidas pela faculdade, o conforto ambiental foi ofertado aos alunos do 3° período, permitindo o diálogo sobre aspectos térmico-lumínico e acústico de suas casas. Já as aulas de projeto de interiores residenciais, corporativos e comerciais para estudantes de 5° e 7° períodos revelaram novas necessidades e conceitos. Como resultado, o aluno Guilherme Laureano desenvolveu projeto que incorpora conceitos do design biofílico em sua composição.

Ambiente corporativo com conceitos de design biofílico criado por estudante

O estudante criou um ambiente corporativo de 210 metros quadrados para a disciplina de Projeto de Interiores 2, com conceitos do design biofílico. Valorizou maior contribuição da iluminação natural, vegetação, materiais naturais, e ambientes de transição.

Com as aulas online, o professor observou maior dedicação do corpo discente e do docente, além de resultados positivos na relação entre os dois lados.

– Houve estreitamento de laços e momentos de troca mais intensificados por meio de plataforma virtual, aplicativo de mensagens e e-mail. O período foi realizado integralmente -, resumiu Marcus.


Aproximação com ambientalistas
A professora Maria Elisa Baptista classifica como “tempos brutos” o período após o dia 16 de março deste ano, quando as aulas foram interrompidas na PUC Minas e foi iniciado o trabalho remoto. 

Maria Elisa: “será necessário radicalizar a opção pelo papel social da arquitetura a serviço dos que mais precisam”

– Não foi fácil discutir nossas ideias, buscar a razão da arquitetura, encontrar a poesia da arquitetura. Tínhamos entre nós a tela, essa distância que parece próxima. Nossa cultura privilegia o olhar sobre todos os outros sentidos, e a arquitetura tem se tornado refém dessa redução perceptiva -, define. 

Ela acredita que há o risco da banalização da arquitetura, da perda do contato real com o mundo tátil e habitado pelo outro. 

–  A graduação é uma época de amadurecimento, claramente de relações que nos acompanham a vida toda. Educar pressupõe vivenciar múltiplas realidades, experimentar, organizar modos de ver o mundo, construir um modo próprio, generoso e curioso, compartilhar. À distância, em arquitetura e em urbanismo, é impossível. 

A quarentena trouxe a percepção da essência da arquitetura em casa, ao procurarmos onde havia sol, sombra, vento. Além disso, se compreendeu o alcance das mãos, do olhar, como morar com mais pessoas, ou sozinho, segundo Maria Elisa. Ela acrescenta que entender o espaço com o corpo é o fundamento da arquitetura.

– O que faremos com tudo isso é uma pergunta em aberto. Precisamos recuperar o sonho de um outro mundo ser possível, andar lado a lado com os ambientalistas, com os que conhecem a pobreza, a discriminação, a tragédia -, diz a professora. 

Para ela será necessário radicalizar a opção pelo papel social da arquitetura a serviço dos que mais precisam. Ela destaca a necessidade de água, esgoto, transporte, moradias, escolas, postos de saúde, chafarizes, banheiros públicos, praças e parques. E de se ocupar e qualificar os edifícios vazios.

Veja vídeo da produção de protetores faciais da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG):
https://www.youtube.com/watch?v=4qIlSBlXJtk&feature=emb_logo

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