Repensar e refazer as metrópoles

Entrevista com o antropólogo, pesquisador e consultor em temas ambientais, Maurício Waldman



O “novo normal”, que vem sendo prenunciado, pode se transformar em apenas um “avatar” do antigo normal. Quem alerta é o antropólogo, pesquisador e consultor em temas ambientais Maurício Waldman. Em entrevista ao UIA2021RIO, reproduzida pelo Rio Capital Mundial da Arquitetura (RCMA), ele defende, no entanto, que “este é o momento para os segmentos que querem uma transformação do modo de vida que estatui a modernidade construírem uma nova pauta de prioridades, diferente daquelas que têm acarretado a ruína ambiental para o planeta”.
Autor de 17 livros sobre questões ambientais – entre eles, ‘Lixo: Cenários e Desafios, finalista do prêmio Jabuti na categoria de Melhor Livro de Ciências Naturais’ –, Maurício destaca que os sistemas econômicos “explicitaram, a seu modo e a seu tempo, sociedades consagradas ao trabalho, tributárias do econômico, voltadas para a produção, entendendo o espaço público enquanto uma órbita de interesse do governo e do Estado, assentadas com base no primado do racional, ou no que interessaria mais diretamente, na oposição ao natural”. O consumismo atual pode, em sua opinião, provocar um cataclisma ecológico. Entretanto, há formas de mitigar os danos em curto prazo e os urbanistas têm relevantes contribuições a dar. A entrevista traz hiperlinks que ampliam a abordagem.


1. O consumismo, que se firmou como um modus operandi econômico em especial nos países afluentes do Hemisfério Norte, é em si mesmo devastador, podendo no máximo ser mitigado. Mas não tem como ser eliminado da alavanca funcional do sistema. Deste modo, o consumo, em particular dos mais bem aquinhoados, perfaz, como lembra o semioticista Norval Biatello Junior, uma Era de Reprodutibilidade Técnica conectada a uma Sociedade do Descontrole, regida por uma iconofagia cuja emanação mais emblemática são os templos do consumo que conhecemos como “shoppings”. Note-se que a palavra “consumo”, vem do latim consumere (esgotar), formada por com mais suemere (devorar, gastar, destruir, agarrar). Daí que o consumo, quando consultamos os números da devastação ambiental, aufere na materialidade social um pleno sentido etimológico. Basta lembrar que, por exemplo, 10% da terra fértil do planeta já se transformou em desertos; que 60% dos principais serviços ecossistêmicos estão caminhando para o colapso; que num período de menos de 80 anos, entre a segunda metade dos anos 1920 até 2000, houve uma perda no mundo de 35% dos manguezais, de 40% das florestas e de 50% das áreas alagadas. Os impactos da modernidade também decorrem em graves dessimetrias sociais e econômicas: 8,4% da comunidade humana retém 83,3% da riqueza global, parcela que responde em paralelo por grande parte dos agravos ambientais. Credivelmente, estamos vivendo uma época em que a sociedade global está diante de limites ecológicos objetivos, que podem antecipar um cataclisma ecológico sem precedentes.

2. Desde a ECO-92, houve avanços no desenvolvimento sustentável das cidades? Poderia mencioná-los?

Não existiram avanços reais. A urbanização desenfreada cada vez mais nos aproxima de uma ampliação do que está registrado na obra Planeta Favela, do geógrafo norte-americano Mike Davis. No Terceiro Mundo, a crise urbana confirma o que predicou Milton Santos, que nos anos 1980 ponderou que não existe espaço para as massas pobres nas cidades. Logo, ao menos no sentido convencional, seria preciso reconhecer que para os excluídos não há rede urbana. O pior é que, além das problemáticas sociais, as cidades em si são gravadas pela disfuncionalidade, o que radicaliza problemas como a crise hídrica urbana. Na região metropolitana de São Paulo, o processo de metropolização acentuou, por exemplo, o efeito da ilha urbana de calor, induzindo elevação da temperatura em mais de 2°C nos últimos 50 anos, e na sequência amplificou entre duas a três vezes as chuvas torrenciais, aleatórias e imprevisíveis. O número de dias com chuvas fortes e moderadas aumentou, inclusive durante o inverno, época tradicionalmente seca. Os chuviscos diminuíram consideravelmente e, ao mesmo tempo, estiagens sem precedentes passaram a ensombrar milhões de cidadãos com o fantasma das torneiras secas. Deste modo, a convivialidade histórica mantida entre os centros urbanos e os recursos hídricos está colocada em cheque.

3. Qual é, em sua opinião, o principal desafio mundial no que diz respeito ao meio ambiente (aquecimento global, fim de recursos naturais como a água, produção de lixo etc)?

Todos estes problemas estão relacionados no tocante aos dinamismos que os comandam e não há como dissociar um problema dos demais. Todavia, parece-me claro que a questão das mudanças climáticas, pelos dramáticos efeitos e comprometimentos que já está provocando na biosfera como um todo, tem total precedência. É o que prognostica o texto seminal do jornalista britânico Mark Lynas em sua magnífica obra Seis Graus. O que se sabe a partir de diversas modelagens científicas é que as próximas décadas estão fadadas a formar um cenário sombrio, que desafia até mesmo o cinema catástrofe e distopias como Blade Runner. Anomalias climáticas desenham um quadro prenunciando um esgarçamento generalizado dos ciclos meteorológicos. Nos últimos 160 anos, a temperatura média do globo terrestre subiu 0,5 °C. Porém, antecipa-se que no intervalo entre 2025 e 2050 as temperaturas observarão aumento considerável, calculado de 2,5 a 5,5 °C. Qual seja: em poucas décadas, os espaços habitáveis se restringirão a poucas “ilhas” dispersas em alguns pontos do planeta, que por sua vez também estarão fadadas a desaparecer. São dados que colocam a emergência climática, e por extensão, a ambiental como o mais espicaçante dilema da humanidade.

4. Qual a contribuição que urbanistas podem dar para o desenvolvimento sustentável das cidades?

O fato de estarmos presenciando uma dura crise ambiental urbana não significa que inexistam soluções que possam, ao menos no curto prazo, mitigar a entropia das metrópoles e, no longo prazo, contribuir para promover o recuo da crise ambiental. As cidades precisam ser repensadas a partir do nexo ambiental e redesenhadas de modo a garantir um mínimo de qualidade de vida, dispensando, em paralelo, modelos obcecados em fazer tabula rasa de realidades específicas. Assim, por exemplo, as ciclovias devem ser incentivadas, até porque a Era do Automóvel não tem como continuar. Uso racional de água e energia tem que ser prioridade nos modelos construtivos e de organização do espaço urbano. No caso dos resíduos sólidos, os catadores, que em minha opinião são verdadeiros heróis urbanos do meio ambiente, devem receber todo apoio institucional possível, passo a passo com programas de educação ambiental voltados para problemáticas urbanas: fechar a torneira, apagar a luz dos ambientes que deixamos para trás e colocar o lixo no lugar certo. No lugar de uma educação ambiental desfocada do urbano e centrada em espaços naturais – que apenas os mais afortunados tem condição de conhecer –, precisamos difundir noções de ecologia urbana. Meio urbano equilibrado começa em casa.

5. O Senhor acredita que a pandemia provocará uma revisão na forma como as pessoas tratam (usam e cuidam) o ambiente?

Tenho observado que os jornais passaram a difundir a noção de um “novo normal”. Entendo que ainda é cedo para chegarmos a um veredicto tão incisivo. Existe, por exemplo, a possibilidade de sintetizar uma vacina contra o covid-19. Contudo, diversos outros cenários são merecedores de atenção: novas cepas do vírus, a manutenção do surto em “níveis aceitáveis” e assim por diante. Outro ponto é que a possibilidade de a epidemia se manter por vários meses, eventualmente controlada aqui e ressurgindo acolá, é real. Num quadro mais drástico, o mundo terá que conviver por muito mais tempo com o covid. Neste panorama, é evidente que o modus operandi do sistema como um todo será afetado. O que se tem como certo é que a mola propulsora do sistema, baseada no consumo e no crescimento econômico ilimitado, foi abalada nestas últimas semanas. Entretanto, há uma forte possibilidade, no meu entendimento, de que o chamado “novo normal” seja tão só um avatar do antigo normal. Ou seja: o sistema de produção e consumo adotará outras roupagens, alterado na forma, mas não no conteúdo. Note-se que esta lógica sistêmica foi profundamente interiorizada pelo imaginário social, e, portanto, pode dar mostras de resiliência. Ao mesmo tempo, entendo que este é o momento para os segmentos que querem uma transformação do modo de vida que estatui a modernidade construírem uma nova pauta de prioridades, diferente daquelas que tem acarretado a ruína ambiental para o planeta. Afinal, como destaca a sabedoria tradicional chinesa, crise também é oportunidade. Cabe a cada um de nós cumprir, portanto, um papel neste sentido.

Veja o site da UIA2021RIO:
https://www.uia2021rio.archi/index.asp

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