Projetos sustentáveis ganham destaque no cenário mundial de pandemia pós-Covid-19

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

Nunca, em tantos anos, o Dia Mundial do Meio Ambiente foi mais emblemático do que hoje, em plena pandemia da Covid-19. Projetos sustentáveis nas áreas de edificações, produção de energia limpa, transportes e ações individuais estão mais valorizados, implementados e acelerados. O Rio Capital Mundial da Arquitetura abre nesta sexta-feira (05/06) uma série de matérias sobre o tema, mostrando propostas e ações envolvendo a natureza.

Há 35 anos de atuação em cidades do exterior e do Brasil, o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) promove o transporte ambientalmente sustentável e equitativo. Trabalha com os governos municipais para implementar projetos de transporte e desenvolvimento urbano que reduzam as emissões de gases de efeito estufa e a poluição. Agora está com foco também na implementação de projetos sustentáveis como a criação de ciclovias temporárias para o período de retomada de atividades em cidades que enfrentam a pandemia da Covid-19.

O incentivo ao uso de bicicletas (foto acima) e caminhadas já é desenvolvido pelo ITDP há muitos anos, mas neste momento é praticamente uma emergência, devido às recomendações de distanciamento entre as pessoas para evitar o contágio do vírus.

O ITDP lembra em seu site que a bicicleta é uma alternativa eficiente para garantir a circulação minimizando a exposição e o contato social. Muitas cidades estão implementando iniciativas para estimular o uso da bicicleta. Bogotá (Colômbia) estendeu a operação dos 117 quilômetros de ciclovias de lazer realizada aos domingos para todos os dias da semana. Iniciativas para estimular o uso da bicicleta estão em implantação em Paris (França), Berlim (Alemanha), Barcelona (Espanha), Londres (Inglaterra) e Lima (Peru).

As ciclovias temporárias são faixas de carros nas vias separadas por cones ou segregadores de concreto para traçar rotas que tragam mais segurança à circulação em bicicletas. E para a gerente de Transportes Ativos da ITDP Brasil, Danielle Hoppe, este é um bom momento para as cidades implantarem o sistema, podendo se transformar em medidas permanentes logo depois.

– Como o número de veículos está reduzido nas ruas, é uma boa hora para se iniciar a ocupação de algumas faixas de carros com bicicletas -, sugere Danielle Hoppe, gerente de Transportes Ativos do ITDP Brasil.

O sistema de ampliação do uso de bicicletas foi implantado em Fortaleza (CE), nos últimos cinco anos, contribui para reduzir os níveis de poluição, embora a medição dos índices ainda seja difícil. Mas outros efeitos positivos foram constatados.

-O número de mortes no trânsito foi reduzido em 50% após consolidação de rede de ciclovias e redução de velocidade de veículos. A cidade se tornou uma das primeiras o mundo a atingir a meta da Organização das Nações Unidas (ONU) de reduzir pela metade esta taxa -, comemora a gerente do ITDP.

A ampliação da malha cicloviária em 319% não foi a única medida adotada na cidade. Entre as variáveis, um sistema de bicicletas compartilhadas foi criado de forma que os usuários pudessem levá-las para a casa e devolvê-las no retorno à atividade (trabalho, escola, etc) no dia seguinte. Além disso, o aluguel da bike pode ser pago com o cartão de transporte público, o que facilitou a adequação das pessoas à nova rotina.

FOTO DE DIVULGAÇÃO
Danielle Hoppe: ‘benefícios em várias áreas’

Segundo Danielle Hoppe, as cidades de Buenos Aires (Argentina), Milão (Itália) e Bogotá (Colômbia) estão reduzindo a emissão de gases poluentes incentivando as caminhadas e o uso de bicicletas. E os resultados também estão trazendo benefícios em outras áreas.

Com base nestas experiências, a capital mineira, Belo Horizonte, está trabalhando para implementar um corredor de 30 quilômetros exclusivo para bicicletas como medida de retomada pós-Covid e já iniciou testes com marcações em pintura nas vias.

No Rio de Janeiro, estão sendo estudadas ciclorrotas experimentais para implementação na retomada das atividades.

– A ideia é monitorarmos durante um período e caso a avaliação seja positiva, introduzir essa ciclorrota de forma permanente como um trecho da malha cicloviária existente -, afirma, Simone Silva, representante da Casa Civil no CIMU (Centro Integrado de Mobilidade Urbana, unidade operacional que opera dentro do Centro de Operações da Prefeitura do Rio de Janeiro).

Danielle define duas fases importantes este ano para se planejar as mudanças: houve uma parada total nas atividades que reduziram índices de poluição e acidentes de trânsito; e agora, na retomada, há a preocupação com a possibilidade de grande movimentação de carros e motos, se as pessoas ficarem receosas de usarem transporte público.

– A pandemia trouxe a percepção de que os veículos leves, como a bicicleta, são importantes e nos permitem andar pela cidade com segurança e resiliência -, alerta a especialista em transportes.

A micromobilidade, de acordo com Danielle, é indicada não apenas para a situação provocada pela disseminação da Covid-19, mas também para a resiliência geral de uma cidade. Seja durante uma pandemia global, ou por conta de tempestades severas, em vista da má qualidade do ar ou devido aos outros efeitos das mudanças climáticas, as cidades continuarão sendo confrontadas e terão que encarar os desafios com medidas que promovam adaptação.

– Para manter as cidades em movimento, é preciso oferecer todas as opções disponíveis: ônibus, metrô, táxis compartilhados, caminhadas e, é claro, a micromobilidade, que deve fazer parte do plano de resiliência de todas as cidades -, resume a gerente do ITDP.

Busca de soluções ambientais
Diante das dificuldades provocadas pelo novo coronavírus, cidades buscam soluções arquitetônicas, de mobilidade urbana, energética para alcançar uma melhor qualidade de vida para seus moradores. Um dos trabalhos desenvolvidos mesmo antes da pandemia, é o do C40, um grupo de 96 grandes cidades comprometidas no mundo inteiro com o combate ao aquecimento global. O diretor regional adjunto da Rede C40 para a América Latina, Ilan Cuperstein, falou de suas experiências em vários municípios (e não as posições da rede, como fez questão de destacar).

Na América Latina, 12 cidades fazem parte do compromisso de se criar um planejamento de ações em favor do clima, inclusive os brasileiras Rio de Janeiro (RJ), Curitiba (PR), Salvador (BA) e São Paulo (SP).

Algumas cidades no mundo já adotam o chamado zoneamento integrado, um instrumento de organização territorial, com planejamento eficiente do uso do solo e efetiva gestão ambiental. O instrumento age através da delimitação de zonas e uma correspondente atribuição de usos e atividades compatíveis de acordo com as características específicas de cada região, permitindo, restringindo, ou impossibilitando determinados usos e atividades. A iniciativa tem como destaque, por exemplo, Portland e Chicago (EUA); Cidade do Cabo (África do Sul); e Buenos Aires (Argentina), que começam a levar em conta este tipo de planejamento, para que espaços urbanos sejam agregadores, sustentáveis, com geração de melhor qualidade de vida.

Algumas ações, lembra Ilan, são a longo prazo, mas já começaram a tomar forma. É o caso do Plano de Ação Climática para zerar, até 2050, a emissão de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa e, por consequência, do aquecimento global. A estimativa é que em 30 anos, três quartos da população mundial estará vivendo nas cidades. Lançado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em dezembro de 2018, o plano, segundo Ilan, vem sendo “elaborado com sucesso, conforme o planejado”, apesar de ter sofrido adaptações, em virtude do enfrentamento ao novo coronavírus.

– A Prefeitura do Rio é uma das que se comprometeu com essa importante causa, liderada pela Secretaria da Casa Civil, com participação de diversas outras secretarias e autarquias. O cronograma foi adaptado devido à pandemia, mas as equipes técnicas da prefeitura continuam liderando o processo e avançando para que o plano seja finalizado assim que possível -, afirma.

Para Ilan, a única opção de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável é o que leva em conta, de forma integrada, objetivos econômicos e ambientais.- Em termos nacionais, quem mais perde com a desconstrução de estruturas de políticas ambientais e com o desmatamento da Amazônia e de outros biomas é o próprio Brasil. Precisamos resgatar o entendimento em relação a esse caminho de desenvolvimento sustentável. A dicotomia economia versus meio ambiente já foi superada há mais de 20 anos -, alerta.

Neste cenário, conforme o diretor adjunto do C40, é ainda mais relevante o papel dos governos subnacionais, que têm constantemente reafirmado seus compromissos com a agenda climática. Ele destaca que as cidades em geral são responsáveis por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa do mundo e entre as que integram o C40, 98% já reportam sofrer com os impactos das mudanças do clima.

FOTO MICHEL FILHO (PREFEITURA DO RIO)
Ilan Cuperstein: iniciativas para que as cidades já se adaptem, de maneira apropriada, para os grandes impactos climáticos previstos

– Isso quer dizer que as cidades são atores-chave em qualquer solução para a crise climática. E de fato, as cidades têm liderado a agenda climática, embora não possam fazer tudo sozinhas. Os prefeitos e prefeitas de todas as cidades C40 na América Latina, assinaram um compromisso de criar o plano de ação climática, com ações que devem começar desde já. Isso inclui a transição para o uso de tecnologias mais limpas de transporte; mais opções de mobilidade limpa; gestão sustentável de resíduos; utilização de energia de fontes renováveis e soluções por meio de eficiência energética – exemplifica.

Ações contra impactos climáticos
Ilan Cuperstein chama a atenção para a importância de iniciativas para que as cidades já se adaptem, de maneira apropriada, para os grandes impactos climáticos previstos pelas comunidades científica e ambiental. O aumento da ocorrência de ondas e ilhas de calor, elevação do nível do mar e a maior frequência e intensidade de chuvas e secas, são alguns dos fenômenos que o planeta vai passar a enfrentar cada vez mais. Nesse sentido, o Rio de Janeiro, de acordo com ele, vendo sendo exemplo.

– As cidades estão tomando iniciativas e a C40 tem apoiado, visando ações mais ambiciosas e mais aceleradas nos próximos anos. No Rio, há vários casos de sucesso, como a expansão da rede de transporte público; o decreto assinado com metas para ônibus com zero emissão de poluição e um território neutro em carbono; a planta de biometanização de resíduos orgânicos no bairro Caju; a frota de caminhões elétricos da empresa de limpeza urbana Comlurb para coleta de resíduos, e o importante Sistema Alerta Rio – enumerou.

Inclusão social e econômica
Assim como outros especialistas no assunto, Ilan não tem dúvidas de que a única forma de garantir um futuro próspero e justo para as cidades é enfrentar a crise climática de forma integrada e garantindo maior inclusão social e econômica de suas populações. Ele lembra que a meta da Rede C40 é que todas as cidades membros tenham planos de ações climáticas compatíveis com o Acordo de Paris, até o final deste ano, para evitar riscos futuros à segurança das pessoas e até mesmo a interrupções de serviços básicos.

O acordo foi aprovado por 195 países, com a meta de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima e de reforçar a capacidade dos países para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças. O compromisso é para manter o aumento da temperatura média global em bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de não medir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

– Estamos otimistas quanto ao cumprimento desta meta. Com estes planos, a ideia é apoiar a implementação das ações climáticas inclusivas, embasadas na ciência, na equidade social e em frequente consulta junto aos cidadãos comuns e especialistas. O capital natural da Cidade do Rio de Janeiro é um dos maiores diferenciais que o município tem. Não à toa a cidade teve e tem um papel crucial nas negociações globais ambientais, sobretudo por ter sido a cidade sede da Conferência Eco-92.

Programa Cidade pelo Clima é Destaque
Através do Decreto 46.079, a Prefeitura do Rio criou o Programa Cidade pelo Clima, com monitoramento das ações climáticas na cidade.

– O decreto de Declaração de Ruas Verdes e Saudáveis da C40 estabelece que qualquer contrato de concessão de ônibus a partir de 2025, incluirá somente ônibus com zero emissão, além de estipular a criação de uma área da cidade neutra em emissões até 2030. Este compromisso demonstra a liderança e comprometimento da gestão com o clima -, elogia.

Ainda que em termos de ações, o Rio também tem avançado em outras frentes. A cidade hoje tem, por exemplo, a primeira planta de biometanização a partir de resíduos orgânicos da América Latina e a maior frota de caminhões elétricos de coleta de resíduos fora da China.

O sistema Alerta Rio, liderado pela Defesa Civil e apoiado pelo Centro de Operações Rio (COR), é também referência em adaptação a respostas imediatas em catástrofes naturais, como inundações urbanas. O Rio de Janeiro também está em fase de elaboração do Projeto Solário Carioca, para produção de energia solar em terrenos e edifícios municipais espalhados pela cidade.

Além disso, o Instituto Pereira Passos é referência na coleta e reporte de dados climáticos, importantes para o acompanhamento e entendimento do impacto das ações municipais sobre emissões. O Rio foi a primeira cidade da região a ter uma série histórica de inventários de emissões de gases de efeito estufa feita exclusivamente por gestores municipais.

– Isto significa que a prefeitura tem uma equipe técnica extremamente qualificada, em diversas secretarias e instituições, para avançar o planejamento e implementação das ações climáticas necessárias para manter o aquecimento global até 1.5 grau -, diz.

Projeto da Prefeitura do Rio é premiado
O programa Solário Carioca, que prevê a construção de uma ‘fazenda solar’ para geração de energia limpa no Aterro Sanitário de Gericinó, na Zona Oeste, é uma principais ações de sustentabilidade e economia desenvolvido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. A iniciativa da Prefeitura, através do Escritório de Planejamento da Secretaria da Casa Civil, já conquistou até um prêmio internacional. O Programa Cities Finance Facilities (CFF), uma cooperação do grupo C40 de Grandes Cidades para a Liderança Climática com a Agência Alemã de Cooperação Internacional, vai patrocinar a primeira etapa do plano. O apoio do CFF consiste na contratação de uma consultoria especializada, para fazer o detalhamento técnico e o estudo econômico-financeiro, além de determinar um modelo de negócios e captação de recursos para implantação do projeto.

A Fazenda Solar de Gericinó vai ocupar uma área de 80 mil metros quadrados da parte alta do aterro sanitário e terá capacidade para geração de 5 MWp. O fornecimento de energia elétrica está estimado em 17.700.000 KWh/ano (o que seria suficiente para abastecer cerca de nove mil residências).

Após a implantação do projeto-piloto em Gericinó, a Prefeitura planeja aumentar o número de fazendas solares no município, para utilizar a energia gerada para o abastecimento de prédios públicos municipais e a frota de veículos elétricos da Comlurb, por exemplo. O programa traz benefícios ambientais e econômicos para o município.

FOTO DE DIVULGAÇÃO
Aline Xavier: estudos incluem aspectos legais e institucionais, com roadmaps para o futuro planejamento de novas fazendas solares

– Atualmente, estão em processo de contratação as consultorias especializadas que irão realizar os estudos contendo os detalhamentos técnicos e econômicos. Os estudos incluem aspectos legais e institucionais, com roadmaps para o futuro planejamento de novas fazendas solares na cidade, além de modelos econômicos que viabilizem sua implantação. Estes estudos para a implantação não terão custos para a prefeitura -, afirma Aline Xavier, coordenadora de estratégias de planejamento do Escritório de Planejamento.

– A medida é um bom passo para nos tornarmos carbono neutros (neutralizar emissões de gases de efeito estufa). E a Prefeitura economizará no consumo de energia nos prédios municipais -, acrescenta Pedro Rodrigo Rolim, gerente de sustentabilidade e resiliência do Escritório de Planejamento da Casa Civil.

O aproveitamento de uma área com solo deteriorado pela atividade de ‘lixão’ e a redução da emissão de gases de efeito estufa, a partir da mudança da matriz energética das frotas municipais, são as estratégias de desenvolvimento sustentável. As vantagens econômicas também são consideráveis, uma vez que a geração de energia em usinas solares é mais barata do que a geração em hidrelétricas e térmicas.

O Solário Carioca é um dos projetos que integra o Plano de Desenvolvimento Sustentável (PDS) da cidade. O PDS consiste em estabelecer uma visão da cidade para 2050. Entretanto, como planejamento de médio e longo prazo, o Rio também deverá cumprir objetivos e metas a serem alcançadas até 2030. Com previsão de entrega para dezembro de 2020, o Plano de Desenvolvimento Sustentável possui ações e metas alinhadas com a agenda de desenvolvimento sustentável da ONU, conhecida como Agenda 2030.

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