Parabéns, Maracanã. Parabéns, Rio

Jogadores, torcedores, historiadores, arquitetos e imprensa comemoram com o Rio Capital Mundial da Arquitetura os 70 anos do templo carioca do futebol, palco de muitas emoções, silenciado temporariamente pela pandemia. Foto de ALEXANDRE MACIEIRA mostra como o complexo valoriza a região.

“O Maracanã é feito de cimento, areia e pedras. Mas pulsa no peito de quem já jogou lá”. “Feliz daquele que tem história para contar no templo do futebol mundial”. “O Maraca é um palco vivo para clubes e torcida”. As declarações dos craques Roberto Dinamite e Zico e do torcedor flamenguista Carlos Alvarenga são a prova de que o Estádio Jornalista Mário Filho, que hoje completa 70 anos de existência, é pura vibração. Por isto mesmo, apesar da estrutura arrojada para a época em que foi construído (1950), a obra é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) pelo seu valor etnográfico, que se refere a um bem cultural, simbólico para o povo brasileiro. As tradições e os sentimentos associados aos bens culturais conferem a sua legitimidade como patrimônio.

Atualmente, o estádio passa por um dos momentos mais tristes de sua história. A pandemia do novo coronavírus calou torcedores e jogadores, fechando o estádio pela primeira vez mesmo estando apto aos jogos. No mês passado, um hospital de campanha do governo do estado começou a funcionar na área externa do Maracanã, recebendo pacientes infectados pela Covid-19. A unidade, que recebe pacientes do SUS infectados, tem 400 leitos, sendo 160 de UTI.

TOMBAMENTOS FEDERAL E MUNICIPAL

– O tombamento federal foi lento começou em 1983 e só terminou no ano 2000 exatamente porque foi difícil reconhecer a importância histórica. Também não se relacionava a belas artes. Viu-se, portanto, a relação cultural, o que realmente dá vida ao templo do futebol. Os dois elementos principais são o campo e a torcida, onde ocorre a vibração. É o time e a torcida, os camisas 12 do futebol  -, explica Manoel Vieira, superintendente do IPHAN no Rio. Ele acrescenta que o tombamento, neste caso, busca preservar o direito do torcedor se manifestar e não o formalismo de trocar cadeira e colocar cobertura.

Justamente porque a construção do estádio em si não é tombada, foram possíveis duas grandes reformas mudando características do projeto: em 2007, quando acabou o espaço da geral e em 2014, quando as arquibancadas ganharam cobertura, de olho na Copa e na Olimpíada de 2016.

– O tombamento federal foi lento, começou em 1983 e só terminou no ano 2000 exatamente porque foi difícil reconhecer os atributos de um bem cultural até então desconhecido dos processos de tombamento: um estádio de futebol. O bem, do ponto de vista das análises no processo de tombamento, não se relacionava ao livro histórico e nem ao das belas artes. Viu-se, portanto, a relação cultural, etnográfica, que é o que realmente dá vida ao templo do futebol. Os dois elementos principais do Maracanã são o campo e a torcida, onde ocorre a vibração. É o time e a torcida, a camisa 12 do futebol -, explica Manoel Vieira, superintendente do IPHAN no Rio. Ele acrescenta que o tombamento, neste caso, preservaria mais o direito do torcedor de se manifestar do que o formalismo de se preservar a forma da cadeira ou a tipologia da cobertura.

Das duas maiores obras que o Maracanã recebeu, para o Panamericano de 2007 e para a Copa do Mundo em 2014, a que alterou aspectos essenciais ao tombamento, na opinião do superintendente, foi a primeira.

– A transformação do estádio para a retirada da geral teve um impacto muito grande, já que era ali que se puxava o entusiasmo de toda a torcida. A segunda mudança foi exigência da Fifa. Algumas mudanças no ambiente, alteram a atividade -, comenta Vieira.

– Trata-se de um dos mais importantes bens culturais que compõem o nosso patrimônio, além de ser um dos pontos turísticos mais visitados da Cidade do Rio de Janeiro. Infelizmente, o atual momento, não nos permite celebrar seu aniversário com uma grande partida de futebol, por exemplo. Mas em breve, com certeza, seu aniversário de 70 anos será celebrado com toda a alegria que ele merece -, afirma Juliana.

CONCURSO DE ARQUITETOS
A primeira competição do Maracanã foi entre times de arquitetos: um concurso de projetos vencido pelo time dos profissionais Miguel Feldman, Waldir Ramos, Raphael Galvão, Oscar Valdetaro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Antônio Dias Carneiro. A equipe foi responsável pelo pontapé inicial, a construção do estádio para os jogos da Copa do Mundo de Futebol de 1950. Foi inaugurado inacabado na primeira partida, entre Brasil e México.

Inaugurado inacabado, entre andaimes e tijolos, na primeira partida, entre Brasil e México

É uma das obras tecnicamente mais importantes do Brasil, localizada nos terrenos do antigo Derby Club, em uma área de 186.638,56 metros quadrados, onde eram realizadas corridas de cavalos. Durante muito tempo, o Maracanã foi o maior estádio do mundo, chegando a receber um público recorde de 200 mil pessoas.

A cobertura do novo Maracanã, constituída por 120 membranas gigantes de fibra de vidro e teflon de alta tecnologia (PTFE) é atualmente uma obra atraente no estádio, assim como as luzes vistas de longe. Considerada uma das fases mais difíceis na época de reconstrução do equipamento, em 2013, visando a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, a estrutura foi instalada pela empresa brasileira Sepa, que reuniu seleção de craques especialistas internacionais no assunto, o então Consórcio Maracanã.

FOTO DE MARLUCI MARTINS
Grande reforma para a Copa de 2014

E entre os nomes ilustres que passaram pela arena do futebol carioca está o arquiteto Daniel Hopf Fernandes, da Fernandes Arquitetos Associados, idealizador da mais recente reform. Como não poderia deixar de ser, o Maracanã é destaque no site da empresa, que foi contemplada com um importante prêmio no segmento: o ‘Architectural Review Future Project Awards 2013’ – categoria ‘Retrofit’, pela autoria do projeto do Maracanã.

– Passou por um projeto de ‘retrofit’ para a Copa do Mundo FIFA 2014. O conceito principal do projeto foi a modernização das estruturas, preservando as características marcantes do estádio que é protegido pelo patrimônio histórico. A fachada foi mantida, o que fez com que o Maracanã permanecesse praticamente intacto por fora. No seu interior, uma nova cobertura foi construída e se destaca por não trazer impactos visuais, através do sistema de cabos e membranas que permitiu de forma leve vencer os quase 60 metros de vão -, explica no site da Fernandes Arquitetos Associados.

O projeto incluiu reutilização da água drenada do telhado e um sistema de drenagem, garantindo economia de 45% da água utilizada na manutenção do campo, novos sistemas elétricos e hidráulicos, além de painéis fotovoltaicos instalados no telhado que capta energia solar para aquecer a água de banheiros e vestiários. O projeto ganhou a Certificação LEED® -“Silver”, de sustentabilidade.

COPA DE 2014 – Bélgica x Rússia – Foto: J.P. Engelbrecht
Nova cobertura: 95% da torcida

Com engenharia alemã (da empresa Hightex), materiais franceses e suíços e instalação realizada por funcionários brasileiros e europeus, o trabalho foi coordenado pelo engenheiro responsável pela construção, Nelson Fiedler, presidente da Sepa, uma espécie de técnico do time.

Cabos de aço tensionados e anéis de compressão e tração, são responsáveis pela estrutura, de peso superior a quatro mil toneladas, que veda sol e chuva, e sustenta refletores e 80 auto-falantes. A tecnologia é usada em outros grandes palcos do futebol mundial: Estádio Olímpico de Berlim e Soccer City de Johannesburgo.

A estrutura original em concreto armado foi removida por conta do mau estado de conservação. Ao todo, a cobertura, esticada sobre uma base metálica, tem 68,40 metros de vão livre cobrindo cerca de 95% dos assentos – a antiga não passava de 40% -, ao longo de 47 mil metros quadrados de extensão.

FOTO DE JOÃO COSTA
Maracanã iluminado no dia do aniversário

SUSTENTABILIDADE E TECNOLOGIA

No ano passado, apostando mais em sustentabilidade, tecnologia e segurança, foram instaladas mais de 20 mil luminárias, que exigem baixa manutenção, e proporcionam elevada vida útil à rede elétrica. O sistema tem sinergia com as placas fotovoltaicas no anel de compressão da arena, camarotes, arquibancada e estacionamento.

Quatrocentas e oitenta projetores LED Color Kinetics, com tecnologia RGB, alto fluxo luminoso e vida útil de mais de 70 mil horas, foram instalados na cobertura. O projeto luminotécnico para áreas internas e externas do Maracanã foi concebido pela Mingrone Iluminação.

A iluminação de LED, colorida e dinâmica, propicia ao estádio milhares de possibilidades para a criação de decorações. As cores dos times que estão em campo, por exemplo, podem iluminar as partes internas e externas e até se alternarem ou piscarem, na hora de um gol.

CASA LOTADA EM EVENTOS HISTÓRICOS

Ao longo de seus 70 anos, o estádio abrigou grandes eventos, como diversos megashows, recebeu personalidades ilustres, como o Papa João Paulo II, e até outra Copa do Mundo, a de 2014, além dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

Madonna, Frank Sinatra, Tina Turner, Backstreet Boys, Kiss, The Police e Rolling Stones, são alguns dos artistas e grupos que fizeram história no Maracanã, com públicos superiores a 100 mil pessoas. Entre as apresentações de ídolos internacionais está a de Paul McCartney, em 1990. Naquele ano, ele entrou para o Guinness Book (livro dos recordes) pela maior plateia em apresentação solo, reunindo mais de 180 mil fãs no estádio.

OBRA EMOCIONA ARQUITETOS

Artigo do Presidente do  Instituto de Arquitetos do Brasil no Rio de Janeiro (IAB-RJ), Igor de Vetyemy, arquiteto e urbanista.

O Estádio do Maracanã é o exemplo perfeito de patrimônio que abriga valores tangíveis e intangíveis. Além da importância arquitetônica do gigante de concreto, erguido na virada da década de 40 para a de 50, o Maracanã é palco de parte considerável da memória coletiva carioca. Um espaço místico que é inaugurado com uma tragédia de proporções épicas, vive consagrações e momentos de glória tanto para a seleção Brasileira quanto para os quatro maiores times do Rio (e outros, como Bangu, América, tantos times do interior do Estado e de fora dele) e tem a chance de fechar o ano do seu 70º aniversário com a maior torcida da cidade (e do país) conquistando uma Libertadores em casa.

O que acontece no Maracanã transforma a cidade e ecoa no país e no mundo. E vale destacar que é um equipamento resiliente, que resistiu às mudanças demandadas pelos tempos e soube tirar de seus principais dramas algo positivo. Não só em campo, mas em sua estrutura também, como a polêmica, mas necessária derrubada da marquise original, comprometida estruturalmente, que deu lugar a uma cobertura contemporânea mais leve, em uma tenso-estrutura branca, que passou a ser mais eficiente (cobrindo toda a arquibancada) e a abrigar calorosamente qualquer um dos 4 times que mandavam seus jogos no estádio naquele momento, através de luzes que lavam a nova cobertura com as cores do time mandante em cada jogo.

Um gigante alinhado com uma sociedade dinâmica, que sabe se reinventar e neste momento precisa inclusive acompanhar as preocupações sociais e botar em prática o já anunciado retorno da geral, para recuperar parte importante do seu encanto, como lugar de encontro de todo o tecido social diverso que compõe essa cidade e a torna tão especial.

Zico no Jogo das Estrelas realizado no ano passado

Jogador de Maracanã

O maior artilheiro da história do Maracanã, com 334 gols no estádio não demora a gravar o vídeo pedido pelo Rio Capital Mundial da Arquitetura para falar do palco principal de sua carreira, o que lhe enche de orgulho. Conta desde a fase em que frequentava o estádio como torcedor até os áureos tempos em que levou a maior torcida brasileira ao delírio.

– Eu estava presente no dia de maior público da história: o Fla x Flu de 1963. Estava presente também vendo o milésimo gol de Pelé. Pisei no Maracanã com 13, 14 anos. Nunca podia imaginar que teria uma história ali dentro. Tirava o calçado e encostava o pé na grama -, lembra Zico, um ídolo dos gramados.

O Galinho de Quintino lembra que foi chamado de ‘jogador de Maracanã’, como se fosse desprestígio. E ele considera isso até hoje o máximo.

– No Jogo das Estrelas no ano passado, o goleiro francês pediu para ser convidado só porque queria jogar no Maracanã. É o maior templo do futebol mundial -, exalta Zico.

Ele encerra o vídeo agradecendo a Deus por ter esta história linda com o Maracanã.  Assista:

https://youtu.be/eoNGFvt6KhQ

Garoto Dinamite

Ao estrear no time profissional no Maracanã em 1971, um garoto de 17 anos estava iniciando sua história e ganhando um apelido que marcaria para sempre a sua carreira. A manchete do Jornal dos Sports se referia ao belo gol marcado por ele, com chute forte de fora da área, contra o Inter de Porto Alegre, dando a vitória ao Vasco: ‘Garoto Dinamite explode no Maracanã’.
A partir daí não se soube mais o sobrenome de Roberto, o Dinamite, que só virou titular do time três anos depois, como artilheiro do Vasco, pela primeira vez campeão do Campeonato Brasileiro. O craque, que encerrou a carreira em 1992 como artilheiro dos Brasileirões, conta com emoção de menino o que vivenciou no estádio.

Quadro de belas lembranças na casa de Roberto Dinamite

– É um símbolo muito forte. Me proporcionou vestir a camisa do Vasco e da Seleção. Eu cumpria um ritual ao chegar e ver muita gente, ir ao vestiário, trocar a roupa, fazer aquecimento, ver a torcida. Até aí, meu coração estava a 110 batimentos por minuto. Só depois que saía do túnel e tinha contato com a torcida voltava ao normal. Era realmente a minha casa -, vibra ao contar.

Foi no Maracanã que Roberto Dinamite fez amigos no campo e na torcida. Adversários que têm lugar fixo em seu coração. Torcedores como Conceição, uma moça que ele via sempre na geral quando entrava no túnel no fim do jogo.

– Um dia ela apareceu com bolo de aniversário para mim no Vasco. Sabia tudo sobre mim e é amiga da minha família até hoje -, diz com orgulho.

Tem gol de quem?

“Hoje tem gol do Gabigol!” A frase, seja escrita em faixas caprichadas ou improvisada em simples pedaços de papelões, e exaltada em ritmo funk pela maior torcida do Brasil, virou febre no Maracanã. E na maioria dos gols, o protagonista dos dizeres, o ídolo Gabriel Barbosa, de 23 anos, atacante do Flamengo, faz questão de apanhar o “recado para os adversários” das mãos de um dos rubro-negros na arquibancada, para sair ostentando, de forma  irreverente, nas comemorações no gramado. O gesto passou a ser um verdadeiro ritual para o craque, hoje consagrado como maior artilheiro do novo Maracanã, com 35 bolas na rede – 32 com a camisa vermelha e preta e três jogando pelo Santos. O segundo é Fred, com 30. Em entrevista ao Rio Capital Mundial da Arquitetura, o xodó da equipe da Gávea fala da emoção de jogar no Estádio Mário Filho.

FOTO DE ANDRÉ MOURÃO
Gabigol: ‘Hoje, fazendo parte de sua história é de arrepiar’

– Sempre tive o sonho de jogar no Maracanã. De ver o estádio lotado, torcida gritando os 90 minutos… Hoje, fazendo parte de sua história é de arrepiar – afirma o atacante.

Ele testemunha que a arquitetura do novo Maracanã contribui para aumentar a emoção de jogadores e torcedores.

–  O barulho que a Nação faz lá em nossos jogos é algo extraordinário. O som transforma aquilo em um verdadeiro caldeirão. O Maracanã tem uma estrutura muito legal, desde a contemplação da chegada, os acessos, o vestiário… me sinto em casa lá -, resume o atleta.

TORCEDORES

Carlos Alvarenga: no Maraca desde criancinha

Nas arquibancadas ele é rei. Desde de pequeno, percorre todas as áreas do Maracanã em busca de sua quase maior emoção. Na adolescência, a vibração do flamenguista pela partida que assistiria no domingo começava na sexta-feira, com preparativos de uma festa. E na segunda, chegava rouco na escola.

– O Maraca é a minha casa também. Só de avistar de longe o palácio do futebol, já me dá alegria. Já acelera o meu coração. Não tenho como descrever o que sinto ao entrar. A emoção fervilha -, diz o amante do futebol.

Gilvan Olinto: pulsa com seus torcedores

“A primeira recordação que tenho do Maracanã é de entrar ainda criança ao lado do meu pai, se encantar com sua grandiosidade. É um templo onde os sentimentos afloram em sua plenitude. Uni o Rio de Janeiro em discussões, histórias e resenhas calorosas de torcedores. O Maracanã tem vida, tem voz e pulsa com seus torcedores, é mais que um gigante de concreto, faz parte da vida dos brasileiros”.

Jane Costa: templo iluminado

“Não sei se Deus criou a luz do entardecer para dar graça ao Maracanã ou se o arquiteto criou o Maracanã para valorizar a iluminação divina. Mas um dos cenários mais belos que já vi foi a luz reluzente do fim da tarde de um domingo na estrela solitária no peito de cada jogador em campo. Não curto muito futebol. Mas ninguém deve deixar de sentir a energia deste estádio”.

JORNALISTAS ESPORTIVOS FALAM SOBRE O ESTÁDIO

Alaíde Pires levou um pedacinho do Maracanã para a casa
“Domingo, eu vou ao Maracanã. Vou torcer pro time que eu sou fã”… Se fosse escolher algumas músicas como trilha sonora da minha vida, essa com certeza estaria no top 3. Domingo era dia de Maracanã ainda na minha adolescência, quando deixava todos os amigos na praia do Leme e encarava o 472 lotado, de volta pra casa, onde chegava, tomava banho, engolia a macarronada da mãe e partia pro estádio, com ou sem companhia. Ia ver o Vascão, paixão de infância. O Maraca era nosso, apesar do que dizia a torcida rival, com quem travamos grandes batalhas. Me lembro de todas elas, guardadas com capricho adolescente no meu baú de memórias.

Mas a lembrança mais valiosa aconteceu contra quem a torcida vascaína mantém amizade histórica: o Palmeiras. O ano era 1997 e a partida valia título brasileiro. O empate daria o tri ao time do Rio. O técnico era Antônio Lopes, que comandava o esquadrão vascaíno com mão de ferro. Nossa dupla de ataque era Edmundo-Evair. Nossa defesa, Mauro Galvão- Odvan. No gol, Carlos Germano, nossa muralha. Dois empates em 0 a 0, lá e cá, nos garantiram o título. Estava escalada para cobrir o vestiário, mas todos os repórteres acabaram invadindo o gramado, começando lá mesmo a entrevistar os campeões. Enquanto cercávamos Edmundo, me abaixei discretamente e peguei um punhado do gramado do Maracanã, que plantei, mais tarde, na minha casa de praia, em Maricá. Até hoje olho para aquele cantinho e lembro daquele título inesquecível e do pedacinho de Maracanã que durante anos fez parte da minha casa”.

Marluci Martins: Papai Noel, prova e futebol
O Maracanã é como uma máquina do tempo que me faz visitar a ansiedade da menina que, sem piscar, acompanhava a aterrissagem do helicóptero com o mais querido tripulante, Papai Noel. Foi escola onde fiz prova para algum concurso no passado. Foi cenário da minha adoração pelo futebol, onde vi alguns dos maiores, sofri e sorri. Para ser precisa, sofri demais com o gol do Pet que Helton não evitou. E sorri com o show de Romário, drible de corpo no goleiro Siboldi, golaço, e, assim, fomos a mais uma Copa. O Maraca é um álbum de retratos na minha vida, um marco, um pedaço de mim.

Fernando Farias, amor eterno
Jamais esquecerei o túnel de acesso à arquibancada. Lembro como se fosse hoje a subida pela primeira vez daquela rampa estreita que desembocava no anel gigante, quase sempre lotado. O barulho da torcida, a expectativa, as bandeiras, a entrada dos times em campo, tudo era muito especial e emocionante. Relação de amor eterno!

EXPOSIÇÃO VIRTUAL EM 3D MARCA ANIVERSÁRIO

Sem jogos por conta da pandemia da Covid-19, o Maracanã ganhou nesta terça-feira, para marcar a data de aniversário, uma exposição virtual, através de uma plataforma 3 D. O objetivo, claro, é amenizar a saudade do torcedor em quarentena. A iniciativa, do eMuseu do Esporte, faz os internautas viajarem no tempo sem sair de suas residências. O patrocínio do projeto é da Enel Distribuição Rio, em conjunto com a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do Rio, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, do Governo Estadual.

De acordo com a administração do eMuseu do Esporte, os interessados em conhecer ou lembrar o vasto legado do Estádio Jornalista Mário Filho em um formato inovador e colaborativo, devem acessar o link emuseudoesporte.com.br. Aí é só vibrar e se emocionar com as histórias fantásticas do Maraca.

Toda a navegação em 3D alia a tradição de um museu físico às inovações da tecnologia. Nesta exposição, o visitante se encanta com imagens da construção do Maracanã; revive a derrota do Brasil na final da Copa de 50; festeja as classificações para os Mundiais de 70 e 94; se emociona com o milésimo gol de Pelé; revê a genialidade de Garrincha; e relembra o brilho das Olimpíadas de 2016.

Ainda na exposição, as trajetórias marcantes dos clubes brasileiros, sobretudo dos cariocas Flamengo, Botafogo, Fluminense e Vasco, no Maracanã. A exposição transporta também os internautas para os grandes shows musicais de astros nacionais e estrangeiros, como Frank Sinatra, Roberto Carlos, Tina Turner, Paul McCartney, entre outros.

A curadoria da exposição é da Suderj, com os professores Lamartine da Costa (Uerj), Silvio Telles (Uerj e UFRJ), Rodrigo Vilela e Caio Serpa, os dois últimos, alunos do Programa de Pós Graduação em Ciências do Exercício e do Esporte da Uerj.

NÚMEROS

1950 – Ano de inauguração, para sediar a Copa do Mundo.
1º gol – Marcado por Didi, no dia 17 de junho de 1950, em um jogo entre as seleções de São Paulo e Rio.
334 – Número de gols de Zico no Maracanã, maior artilheiro do Maracanã, em 434 jogos lá.
35 – Número de gols de Gabigol, o maior artilheiro do novo Maracanã.
2 – Finais de Copa do Mundo (1950: Brasil 1 x 2 Uruguai) e (2014: Alemanha 1 x 0 Argentina).
1969 – Em 19 de novembro Pelé fez seu milésimo gol, de pênalti, contra o Vasco.
28 – Número de gols marcado por Pelé, maior artilheiro com a camisa da Seleção no estádio.
1980 – Em 26 de janeiro, Frank Sinatra reuniu 175 mil pessoas.
2 – Número de vezes que o Papa João Paulo II celebrou missa no estádio (Em 1980 e 1997).
1990 – Paul McCarteney entrou para o Guinness Book com o maior público da história, estimado em 184 mil fãs.
2013 – inauguração do novo Maracanã (27 de abril).
200 mil – Número de torcedores na época da inauguração.
78.838 – Número de torcedores que cabem no novo Maracanã.
R$ 1,05 bilhão – Valor aproximado da reforma.

SAIBA MAIS
– As obras do Maracanã tiveram início em 1948.
– Duraram dois anos e custaram Cr$ 250 milhões (cruzeiros).
– Construído basicamente em concreto armado, a execução as obras foi um desafio para a época. Por conta da dificuldade de concretagem, um grande número de acidentes de trabalho foi registrado.
– A arquitetura do estádio apresentava estrutura oval com capacidade para receber cerca de 200 mil pessoas, o maior público em estádios no mundo.
– O estádio tinha 32 metros de altura e seus eixos eram de 317 metros e 279 metros.
– O estádio foi inaugurado inacabado. O primeiro jogo da Seleção no estádio foi contra o México. Durante as partidas da Copa do Mundo de 1950, ainda havia andaimes e pilhas de tijolos.
– Somente em 1965 as obras foram totalmente concluídas.
– Ainda bem que a maior parte da história do Maracanã é de alegria, que bota para escanteio tristezas que, no fundo, porém, nunca vão se apagar de vez da memória dos brasileiros. Como o gol de Ghiggia, o segundo do Uruguai na vitória por 2 a 1 na decisão da Copa de 50.

Há quase 28 anos, uma tragédia real e obviamente maior, tirou a vida de três pessoas, ferindo outras 82. Flamengo e Botafogo se preparavam para entrar em campo para a final do Brasileirão de 1992, no dia 19 de julho, quando uma das grades de proteção da arquibancada destinada a rubro-negros desabou, em consequência de um tumulto que teria começado com uma briga entre os torcedores. Faltavam menos de 30 minutos para o início da segunda e última partida do campeonato, quando as grades das arquibancadas, com sinais de desgaste e má conservação, não suportaram a pressão e cederam. As vítimas despencaram de uma altura de cinco metros sobre outras pessoas do anel inferior, junto com pedaços de concretos e grades. Foi o acidente mais grave da história do estádio, que naquele dia tinha pelo menos 150 mil torcedores. O Flamengo acabou sendo campeão (3 a 0), mas de forma amarga naquele ano.

Fontes: IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Ministério do Turismo), Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e site engenharia360.com.

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