O importante papel das instituições universitárias para as cidades ao longo dos séculos

A Universidade de Bolonha, na Itália, é considerada a mais antiga do mundo, de 1088: exemplo clássico de Cidade Universitária. Foto: Divulgação/Rede social da universidade

O papel fundamental que a universidade tem na formação das cidades também é destacado nesta edição do Rio Capital Mundial da Arquitetura, pela professora Andréa Borde, do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PROURB/UFRJ). O artigo faz parte de uma série sobre produção acadêmica, iniciada na última terça-feira.

O papel das instituições ao longo dos séculos

Por Andréa Borde*

Andréa Borde. Foto cedida pela autora.

A universidade desempenha um papel fundamental na formação e preservação do patrimônio cultural das cidades nas quais se localizam. As primeiras universidades europeias surgem, por exemplo, com o renascimento da vida urbana no século XI. Ao longo dos séculos as universidades atraíram um número significativo de pessoas às suas cidades que se tornaram cidades universitárias antes mesmo desta noção estar associada ao território institucional do campus.

Bolonha, Paris, Oxford e Coimbra são bons exemplo de cidades universitárias, surgidas nos séculos XII e XIII, onde as estruturas, formas e funções urbanas são imbuídas da estreita relação entre cidade e universidade. Vir para as cidades estudar torna-se, a partir de então, um fenômeno cultural com forte impacto nas transformações urbanas.

No Brasil esta relação entre cidade e universidade só se constituiu em um fenômeno expressivo a partir de 1920. Esta situação pode ser, em parte, explicada pelo pacto colonial imposto pela metrópole portuguesa no alvorecer do século XVI. A colônia produzia o que Portugal produzisse. E o que são as universidades senão produção de conhecimento? O ensino superior torna-se, assim, um ativo acessível apenas às elites que se dirigiam à Universidade de Coimbra.

Esta situação começa a se arrefecer com a criação de instituições de ensino superior, a partir de 1792. Mesmo com as mudanças introduzidas neste pacto a partir de 1808 com a transferência da Corte Portuguesa para a colônia a primeira universidade pública brasileira só foi criada em 1920, a partir da reunião de faculdades existentes em torno de uma reitoria. Há 100 anos nascia, assim, a Universidade do Rio de Janeiro, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Naquele momento ainda estavam ausentes os elementos que determinariam a urgência – não a necessidade – de salvaguarda do patrimônio cultural. 

A noção de patrimônio nasceu no século XVIII na França fortemente associada à modernidade e à percepção de que os monumentos responsáveis por uma certa estabilidade histórica como tudo que era sólido estava prestes a se desmanchar no ar. Neste sentido, patrimônio, modernidade e identidade nacional são noções inseparáveis na constituição do campo do patrimônio cultural. 

No momento em que emergiu a noção de patrimônio no contexto europeu não se pode falar ainda em processo de modernização no Brasil, nem, tampouco em uma identidade nacional. Este quadro mudou em 1890 com a emergência do Estado Republicano apoiado nas noções de nação e identidade nacional. Ainda teríamos que aguardar quatro décadas para que a salvaguarda do patrimônio nacional se constituísse como um dos modernismos dos processos de modernização em curso. No Brasil, portanto, ser moderno e preservar o passado são processos que ocorrem simultaneamente.

Em 1937, foi criado o órgão de preservação patrimonial e no ano seguinte foram efetuados os primeiros tombamentos. Entre estes, estão alguns bens patrimoniais que integram o acervo edificado da atual UFRJ. São edificações e espaços de sociabilidades que participam da história urbana da cidade desde o final do século XVIII. Mais do que bens representativos desta ou daquela linguagem arquitetônica, o patrimônio cultural edificado universitário é parte integrante de um território cultural fortemente associado à formação da memória e da identidade dos diferentes grupos sociais formadores da universidade e de nossa sociedade. O patrimônio universitário é enunciador de significações culturais específicas associadas ao uso universitário. 

Qual seria, então, o diferencial do patrimônio cultural universitário para o campo do patrimônio cultural na contemporaneidade e as dificuldades impostos à salvaguarda patrimonial? Este patrimônio é portador não apenas de características específicas, mas também de potencialidades que o singularizam, como a formulação de políticas públicas de preservação e educação patrimonial para atuação na conservação desses bens e a difusão do conhecimento acumulado para além do território acadêmico.

Embora o foco dessas análises tenha sido o patrimônio cultural edificado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, minha cidade universitária, podemos aplicá-las às universidades brasileiras formadas no século XX, detentoras de bens de valor patrimonial.

* Andréa Borde é professora do PROURB/UFRJ e coordenadora do Laboratório de Patrimônio Cultural e Cidade Contemporânea (LAPA), além de vice-coordenadora do Docomomo Brasil.

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