O histórico e importante desempenho da universidade na preservação do patrimônio cultural brasileiro

A UFBA é uma das referências em curso de formação para arquitetos da América Latina. Foto de um dos prédios da instituição/www.ufba.br

Na quarta matéria da série sobre produção acadêmica, iniciada há uma semana, o Rio Capital Mundial da Arquitetura  aborda nesta edição a primordial importância da universidade na proteção e conservação do patrimônio cultural nacional. Sobre o assunto, o RCMA ouviu os especialistas Nivaldo Vieira de Andrade Junior; Leonardo Castriota; Flávio Carsalade e Natália Miranda Vieira-de-Araújo. Conheça um pouco mais sobre cada um deles e suas importantes atividades no setor. Boa leitura.

UFBA, referência na América Latina na formação de arquitetos e identificação de bens culturais

A UFBA tem, historicamente, um papel importantíssimo na preservação do patrimônio cultural brasileiro e baiano, define Nivaldo Vieira de Andrade Junior, presidente Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e coordenador do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPGAU/UFBA). Segundo ele, desde o início dos anos 1980, a universidade sedia o principal curso de formação para arquitetos da América Latina no campo da conservação e restauração, em nível de pós-graduação: o CECRE, atualmente MP-CECRE (Mestrado Profissional em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos).

 

Nivaldo Vieira de Andrade Junior: UFBA sedia o principal curso de formação para arquitetos da América Latina em conservação e restauração.  Imagem cedida pelo entrevistado

Além disso, presta frequentemente assessoria e consultoria aos órgãos públicos na identificação de bens culturais, na normalização de sítios históricos urbanos e na elaboração de projetos arquitetônicos e urbanísticos para bens tombados.

– Nos anos 1970, o professor Paulo Ormindo de Azevedo coordenou uma equipe de docentes da Faculdade de Arquitetura da UFBA na elaboração dos planos urbanísticos para as cidades históricas de Laranjeiras e São Cristóvão. Na primeira metade dos anos 1980, uma equipe de pesquisadores do Centro de Estudos da Arquitetura na Bahia (CEAB), da FAUFBA, elaborou, junto com técnicos dos órgãos federal (IPHAN) e estadual (IPAC) do patrimônio e da Prefeitura de Salvador, todos os estudos que resultaram no reconhecimento do Centro Histórico de Salvador como Patrimônio Mundial pela Unesco e na ampliação da poligonal tombada pelo Iphan -, conta Nivaldo.

Atualmente, um grupo de docentes e discentes da mesma faculdade, inclusive o professor Nivaldo, presta assessoria ao Iphan no estabelecimento de normas e critérios de intervenção para este mesmo centro histórico. Há décadas, o Núcleo de Tecnologia da Preservação e da Restauração (NTPR) da Escola Politécnica e da FAUFBA, sob a coordenação do professor Mário Mendonça, presta consultoria no diagnóstico e para a restauração de monumentos em todo o país – atualmente, está assessorando o Iphan no Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia.

– Dissertações de mestrado e teses de doutorado defendidas no Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA têm sido fundamentais na salvaguarda de importantes bens arquitetônicos e urbanos, como ocorreu recentemente com o tombamento, no âmbito municipal, da Pedra de Xangô, em Salvador, a partir da pesquisa desenvolvida no mestrado – acrescenta Nivaldo.

 

UFMG e sua relação imprescindível na preservação do patrimônio mineiro

UFMG sempre foi uma referência na preservação do patrimônio em Minas Gerais, na visão do professor Leonardo Castriota, da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Leonardo Castriota, professor da UFMG. Foto cedida pelo entrevistado

– Desde a década de 1940, há colaboração da UFMG e do Iphan, que se corporificou, por exemplo, na atuação de Sylvio de Vasconcellos, que foi professor e diretor da Escola de Arquitetura e superintendente estadual do Iphan. Os arquitetos modernistas tinham grande compromisso com a preservação do nosso patrimônio, e foram os artífices das políticas de patrimônio no estado -, explica ele.

Castriota ressalta o grande esforço de registro e difusão do acervo patrimonial feito pela Escola de Arquitetura da UFMG. Nele se destaca o Laboratório de Fotodocumentação Sylvio de Vasconcellos, que tem um acervo de mais de 50 mil imagens do patrimônio da região.

De acordo com o professor, a UFMG produziu trabalhos importantes na linha do patrimônio desde os anos 1950. E cita a realização, em colaboração com o Iphan e a Unesco, de um Curso de Especialização em Restauro, nos anos 1970. Muitos projetos de pesquisa e extensão foram realizados nas décadas seguintes, como o de Reabilitação Integrada da Lagoinha (Belo Horizonte). O trabalho, coordenado por Castriota, recebeu o Grande Prêmio de Urbanismo do XV Congresso Brasileiro de Arquitetos do IAB, em 1997.

Também foi desenvolvido o projeto Mestres Artífices, com o inventariamento dos mestres da arquitetura e construção de Minas Gerais e Santa Catarina, sob encomenda do Iphan.

O professor Castriota coordena atualmente um grande projeto de requalificação dos espaços e edifícios históricos da Funarte, no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. É o Programa de Requalificação de Expansão de Equipamentos da Funarte, que tem um importante patrimônio arquitetônico, com galpões do início do século XX, obra do Niemeyer em Brasília, fazenda colonial em Paty do Alferes (RJ). E a ideia deste programa é preparar projetos de recuperação, restauro e requalificação de todos estes equipamentos.

 

Aldeia do Arcozelo, em Paty do Alferes. Foto cedida pelo entrevistado

– Para isso, estamos usando um método pioneiro desenvolvido pela universidade federal, em que a gente faz a escuta qualificada dos diferentes atores. Trabalhamos muito com a perspectiva intersubjetiva da projetação. A ideia é que o projeto deva responder à demanda dos diferentes atores da sociedade, não só a Funarte. É ouvir toda a cena cultural, trabalhadores da área da cultura para entender o caráter, a vocação de cada um destes espaços para aí propormos projetos de restauros -, conta Castriota.

É um projeto de intervenção no simbolismo dos lugares. Então, a equipe faz uma escuta qualificada para captar os diversos significados de cada um deles e fazer a proposta de intervenção física. A UFMG está desenvolvendo o programa utilizando seus recursos, pesquisa de extensão, professores especialistas, alunos de mestrado, doutorado e graduação.

– É um método muito interessante e que vamos usar na segunda etapa do projeto, cuja ideia é expandir a atuação da Funarte nas regiões, Norte, Nordeste e Sul, onde ela ainda não tem representação. Vamos ouvir a cena de Belém, Recife, Curitiba e vamos fazer prospecção de edifícios, principalmente os históricos desocupados. Principalmente edifícios pertencentes ao governo federal que poderiam ser recuperados em uma segunda etapa para a Funarte expandir a sua atuação. É uma colaboração através de um TED (Transferência de Execução Descentralizada), entre a Funarte e a UFMG -, diz.

O professor Flávio Carsalade, arquiteto urbanista, professor da UFMG e ex-presidente do IAB/MG, concorda que a relação entre a Escola de Arquitetura da UFMG e o patrimônio histórico-cultural do Estado de Minas Gerais é estreita. Ele afirma que a faculdade assumiu a liderança em vários momentos de consolidação do serviço de proteção patrimonial e mesmo de ações e inovações técnicas com relação a esse patrimônio.

 

Professor Flavio Carsalade. Foto: Mário Ulysses

– Desde logo após a sua fundação, o Iphan criou uma Superintendência Regional em Minas Gerais que foi sucessivamente coordenada por professores da Escola de Arquitetura que aliavam as suas pesquisas acadêmicas às tarefas da instituição. Se considerarmos, ainda, que o órgão estadual de preservação, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA-MG) só foi criado em 1971, temos que durante um período de quase 40 anos, a EAUFMG se apresentou como importante pesquisadora e inventariante do acervo do estado -, comenta.

Carsalade também ressalta que a Escola de Arquitetura da UFMG consolidou uma longa tradição na área de pesquisa e ensino do patrimônio histórico e artístico. Esse envolvimento com o tema gerou um grande número de publicações, pesquisas e eventos, bem como a participação de seus professores na titularidade dos principais órgãos de defesa do patrimônio cultural em Minas Gerais. A escola acumulou uma grande experiência.

– A primeira geração de fundadores da Escola já antevia a relação da modernidade com a tradição e, enquanto se preocupava em implantar uma nova arquitetura na capital, também já reverenciava os exemplares que nos havia legado a história. Nos anos seguintes, a EAUFMG diversificou ainda mais o seu desenvolvimento acadêmico com a criação de sua Seção de Pesquisas, em 1959, que apresentava como estrutura a tríade Pesquisa-Documentação-Edição. Várias atividades foram realizadas, destacando-se que, desde 1952, teve início uma larga produção de modelos de obras do Aleijadinho, patrono da escola. Algumas dessas peças foram doadas a outras instituições, mas ainda podem ser encontradas em exemplares expostos nos espaços da escola. Atualmente é objeto de observação e estudo por parte dos alunos para a realização de trabalhos da grade curricular -, lembra o professor.

Nos anos seguintes, especialmente na década de 1980, estudantes se manifestaram contra questões sociais e urbanas ligadas ao Patrimônio Cultural Urbano como a preservação da Praça da Estação ou contra a demolição do Cine Metrópole que, apesar do apoio estudantil e outros apoios importantes, foi demolido, lembra Carsalade.

– Esse último movimento é reconhecido como marco simbólico do início da proteção municipal do patrimônio. De lá até os dias de hoje, a escola tem registrado momentos caracterizados por mudanças de currículo, criação de novos grupos e centros de pesquisa, parcerias com outros centros de ensino superior através de intercâmbios nacionais e internacionais, além da participação dos estudantes em concursos, seminários, colóquios e outros. Esses alunos, não raras vezes, têm recebido premiações, menções honrosas e outros tipos de reconhecimento que marcaram a qualidade das produções da escola, na área patrimonial -, afirma.

Flávio relaciona alguns trabalhos realizados no campo patrimonial:

Na Pós-Graduação, ofertas dos programas: Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo e Mestrado em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável (PACPS), e do Núcleo de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (NPGAU), além da oferta do Curso de Revitalização Urbana e Arquitetônica (360 horas-aula, desde 1996) e de vários cursos de extensão.

Coordenação de grupos nacionais e internacionais de pesquisa, dentre eles a Rede PHI (Patrimônio Histórico Iberoamericano), cuja coordenação está na UFMG.

Publicação de vários livros e capítulos de livros no campo patrimonial, aqui exemplificados por A Pedra e o Tempo (Flavio Carsalade, Editora UFMG, 2014) e Patrimônio Cultural: conceitos, políticas, instrumentos (Leonardo Castriota, Editorial Blume, 2009).

Trabalhos de extensão no campo patrimonial, exemplificados por Diretrizes Urbanísticas para os Conjuntos Urbanos Tombados de Belo Horizonte MG – Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte (1996), Relatório Técnico de Avaliação do Programa de Especialização em Patrimônio IPHAN/ UNESCO (2004-2008), Programa de Arquitetura Pública apresentando, dentre outros: reabilitação de bairros populares degradados (2008), Dossiê de tombamento do Conjunto IAPI (2007), Plano Diretor para Cataguases (a partir de 2004), Restauro e Ampliação do prédio da Câmara Municipal de Mariana (2011), Centro Comunitário para a Comunidade Quilombola de Candeias/ Conceição de Mato Dentro (2013), Arranjo Produtivo Local (A.P.L.) tradicional e revitalização urbana: o Projeto Lagoinha Centro de Memória dos Xakriabás em São João das Missões (2014), Restauração da Igreja Nossa Senhora da Piedade do Paraopeba (Brumadinho, 2014), Elaboração do “Dossiê de candidatura do Conjunto Moderno da Pampulha para inclusão na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO” (2014), Mestres Artífices na Lagoinha: Preservação do saber-fazer e revitalização urbana (2015), dentre muitos outros.

A UFPE tem atuação destacada na preservação de bens patrimoniais desde a década de 1970

Pernambuco é um dos estados brasileiros onde se identifica um grande acúmulo de reflexão no campo da preservação patrimonial. Assim como a Bahia, é o estado onde se tem notícia da existência de uma organização institucional na área antes mesmo da formação do Iphan, ainda na década de 1920, segundo Natália Miranda Vieira-de-Araújo, professora associada Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE e pós-graduação em Desenvolvimento Urbano- MDU, da Universidade Federal de Pernambuco (UDPE), pesquisadora do LUP- Laboratório de Urbanismo e Patrimônio Cultural – MDU/UFPE.

 

Professora Natália Miranda Vieira-de-Araújo. Foto cedida pela entrevistada

– Não há dúvidas da importante contribuição da universidade, particularmente a partir do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano, o MDU, criado em 1975 no âmbito do Departamento de Arquitetura e Urbanismo como curso de especialização. Foi credenciado em 1979 como curso de mestrado e, desde 1999, também como curso de doutorado. Na década de 70 foram iniciados os cursos de especialização na área de patrimônio cultural realizados no Brasil, estando, portanto, a UFPE inserida nessa reflexão desde o seu nascimento dentro do contexto nacional. Essa contribuição acontece especialmente por meio da produção da linha de pesquisa denominada Conservação Integrada. A constituição dessa linha de pesquisa dentro do Programa se identifica fortemente com a formação do Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada (CECI), iniciado em 1997 com forte relação com instituições como a UNESCO, ICCROM e IPHAN) -, conta Natália.

O CECI foi criado por professores da linha da Conservação Integrada e também por novos mestres e doutores que passaram a integrar os quadros da instituição. A ideia do CECI era fomentar a aproximação entre a academia e a gestão do patrimônio cultural concluídas pelos poderes municipais do estado, com destaque para as cidades de Recife e Olinda. Além dos cursos de formação oferecidos pelo centro, vários projetos foram desenvolvidos em parceria com órgãos públicos e ordens religiosas, como o Plano Diretor do Conjunto Franciscano de Olinda, o Projeto de Restauro da Igreja São João em Olinda, o projeto de Restauro da Basílica da Penha em Recife, a Divulgação Turística do Pátio de São Pedro em Recife, a elaboração de um manual para auxiliar moradores de Olinda no processo de intervenção em seus imóveis – “Conservar – Olinda Boas Práticas no Casario”, entre vários outros).

A professora Renata Cabral acrescenta que a Revista ‘City and Time’, do CECI, era mais uma ferramenta de interface com a universidade e instituições de conservação nacionais e internacionais, abrigando artigos científicos do campo. Alguns dos números do periódico originaram-se de seminários internacionais organizados pela instituição.

– Para além das ações articuladas via CECI, é importante destacar ainda a representação do MDU em conselhos que integram o sistema de gestão de Olinda e Recife como o Conselho de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda e o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano do Recife. Também procuramos contribuir com organizações de entidades em defesa do Patrimônio Cultural brasileiro através, por exemplo, da participação em Comitês Científicos Nacionais e na coordenação estadual do ICOMOS Brasil, na Comissão de Patrimônio Cultural do IAB-PE e o recém criado Fórum Estadual de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro. O MDU também é demandado pelo Ministério Público de Pernambuco para opinar em pareceres sobre questões envolvendo a preservação dos bens culturais.

A significativa presença de egressos do MDU-UFPE em cargos e instituições de preservação patrimonial do estado é também outra importante forma de participação da universidade na preservação do patrimônio, moldando olhares e formas de atuação. Tanto na Diretoria de Preservação Patrimonial (nível municipal), quanto na FUNDARPE (estadual), quanto no IPHAN (federal) são vários os técnicos mestres e doutores formados ou em formação no programa.

As professoras Natália e Renata destacam a contribuição de três dos Laboratórios de Pesquisa do MDU-UFPE: o Laboratório da Paisagem; o Grupo de Estudos em Mercado Fundiário e Mobiliário (GEMFI); e o Laboratório de Urbanismo e Patrimônio Cultural (LUP), sendo este último o que concentra as pesquisas por elas desenvolvidas. A amplitude de ações passa pela questão da paisagem, com destaque para o processo de tombamento do conjunto de Praças de Burle Marx em Recife e a recente constituição de um conselho gestor municipal para preservação de seis jardins históricos. Estas ações tiveram forte participação do Laboratório da Paisagem.

 

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