Museu Nacional: Um sonho que renasce das cinzas

Reconstrução do Novo Museu Nacional: esforço gigante. Foto: José Roberto/ Museu Nacional

No dia 2 de setembro de 2020, a destruição, por um incêndio, do Paço de São Cristóvão, edifício em estilo neoclássico que abrigava o Museu Nacional (MN) do Rio de Janeiro, uma das raridades da arquitetura brasileira, na Quinta da Boa Vista, na Zona Norte da cidade, completou dois anos. O museu, palco também de momentos decisivos na história do Brasil, é a mais antiga instituição científica do país e figurava entre os maiores museus de antropologia e história natural das Américas.

A instituição faz parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, as pessoas que trabalhavam no museu – cerca de 90 pesquisadores, 220 técnicos administrativos, 120 terceirizados e mais de 500 alunos – estão abrigadas em outras instituições ou, em alguns casos, trabalhando de casa.

Em entrevista ao Rio Capital Mundial da Arquitetura, como parte da série Olhares Sobre Ícones do Patrimônio Carioca, o paleontólogo Alexander Wilhelm Armin Kellner, de 59 anos, que assumiu a direção do museu meses antes do incêndio, fala sobre suas expectativas em torno da recuperação do edifício e peças.  Apesar da parceria da UFRJ na tomada de decisões e coordenação dos trabalhos de reconstrução do prédio com a Fundação Vale, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), por exemplo, que também envolvem ainda o MEC e representantes da sociedade civil, Alexander apela para mais união dos brasileiros.

 

As imagens do fogo consumindo o Museu Nacional chocaram o mundo. Foto: Raphael Pizzino

–  O que se perdeu para a cultura humana, para a humanidade, é imensurável. Mas podemos recuperar, sim, grande parte de tudo -, justifica Kellner,  animado também com anúncio que fez no último dia 13, sobre a descoberta, por pesquisadores do MN, UFRJ e mais três instituições, de um  novo fóssil de lagostim (um grupo de crustáceo), encontrado na Ilha James Ross, na Península Antártica, conforme publicação da revista Polar Research (confira mais detalhes em http://www.museunacional.ufrj.br/destaques/novo_fossil_antartica.html ).

Veja também nesta edição, a história do MN e informações sobre o projeto O Museu Nacional Vive, fruto de um acordo de cooperação internacional realizado pela UNESCO no Brasil, Fundação Vale e UFRJ.

ENTREVISTA

Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional/UFRJ: “Não tenho tempo para pesadelos com o incêndio. Minha meta de vida agora é ver o museu reconstruído, funcionando”

 

Alexander Kellner: à frente da batalha pelo reerguimento do museu. Foto: Acervo Museu Nacional

RCMA – A instituição já tem dinheiro suficiente para a reconstrução do Museu Nacional? Quem são os doadores?

ALEXANDER – Não, mas houve avanços importantes em 2020, apesar da pandemia. Como anunciamos em coletiva, o custo total estimado é de R$ 378,9 milhões, sendo que 65% já foram arrecadados ou prometidos. Com a liberação pela Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) de repasse de R$ 20 milhões do Fundo Especial do Parlamento Fluminense à UFRJ, para revitalização e reforma do MN, através de lei sancionada pelo governador Wilson Witzel e publicada em edição extra do Diário Oficial do Estado, temos hoje em torno de R$ 244,6 milhões. Os recursos que juntamos até agora são oriundos de emendas públicas, governo federal, BNDES, Fundação Vale, Bradesco, entre outros. Esperamos ainda ajuda do governo municipal, mais ajuda do governo federal através do MEC e, sobretudo, da iniciativa privada… Qualquer valor, de onde quer que seja, é muito bem-vindo.

RCMA – Como está o cronograma para a recuperação do acervo, remoção dos escombros e reforma do prédio? Há previsão de reabertura do museu? A pandemia da Covid-19 influenciou até que ponto na programação?

ALEXANDER – A pandemia atrapalhou o mundo inteiro, em qualquer setor. No nosso caso, entretanto, estamos tentando fazer o processo andar a qualquer custo, por meios digitais. Participo de até cinco reuniões por dia pela internet, com diferentes grupos de apoio. Nessas últimas semanas foram ainda mais.

Nossa intenção é estar parcialmente com algumas instalações do prédio abertas, algumas salas, pelo menos para visitas guiadas, em 2022, ano do Bicentenário da Independência. Será uma tristeza muito grande para o Brasil, se não conseguirmos isso, o básico até lá, correto? O museu é importante para o Brasil, para o mundo, mas, sobretudo, para o Rio de Janeiro. Sempre batalhamos por um esforço conjunto. Nosso objetivo é reabri-lo em definitivo em 2025.

RCMA – Nesse período, desde o incêndio (dia 2 de setembro, a tragédia completou dois anos), o que foi feito onde era a sede do museu?

ALEXANDER – O importante e minucioso trabalho de recuperação de peças, escoramentos, limpeza, enfim…Há alguma morosidade em alguns setores. Algumas ações, obedecendo o curso normal são lentas mesmo, mas, outras poderiam ser mais aceleradas. A pandemia complicou o cronograma. Tudo tiro como aprendizado e lições dessa dor enorme que enfrentamos. Agora, por exemplo, em primeira mão, é que a Cedae vai finalmente consertar os hidrantes, para mim os grandes vilões da tragédia do incêndio. Isso é uma das coisas mais fundamentais para o museu. Não precisa nem de explicação, né?

RCMA – As informações que circularam sobre o incêndio dão conta que a biblioteca e coleções como a de vertebrados e botânica já haviam sido transferidas para outros lugares e, por isso, sobreviveram às chamas. Porém, aproximadamente 80% dos cerca de 20 milhões de objetos do museu ainda estavam no prédio. Quase metade de todo o acervo do museu foi destruído pelas chamas. Esses dados conferem?

ALEXANDER – Podemos dizer que entre 75% e 80% de todos os objetos foram afetados de alguma forma. A boa notícia é que em torno de 50% das coleções não se perderam totalmente. E recuperamos grande parte do material egípcio, de mineralogia, entre outros. Ainda passam pelo trabalho de identificação e conservação. Pesquisadores estão recriando parte do acervo do MN através de impressão 3D em tamanho real. Tinha material etnográfico, contudo, que se perdeu completamente. Mas povos indígenas já se movimentam para ajudar a recompor parte das perdas…

RCMA – Para o senhor, teve milagre nesse incêndio?

ALEXANDER – Sim. O crânio de Luzia, o fóssil mais antigo das Américas, estimado em 11 mil anos, é, sem dúvida, a maior surpresa positiva do resgate.  Calcula-se que 80% do exemplar tenha sofrido algum tipo de alteração pelo calor do fogo, mas mesmo assim, resistiu. E com o passar do tempo descobrimos várias “Luzias”, entre os abnegados funcionários e voluntários que trabalham até hoje, incansáveis, para a reconstrução daquele espaço, e simbolicamente em peças importantes que foram resgatadas, como cerâmicas (incluindo da coleção de Dom Pedro II), minérios, animais taxidermizados, bonecas Karajá e fósseis como partes do de dinossauros – itens muito populares entre os jovens que visitavam o museu, além do Bendegó, o maior meteorito já encontrado em solo nacional, que resistiu às altas temperaturas.

RCMA – O senhor tem pesadelos com o incêndio? A tragédia ainda o assombra no dia a dia?

ALEXANDER – Não tenho tempo para pesadelos com o incêndio. Minha meta de vida agora é ver o museu reconstruído, funcionando. Me revisto de otimismo e esperança diariamente. Meus sentimentos estão canalizados para o futuro, para o otimismo, para o que podemos recuperar, para a reabertura total daquele monumento, que é um dos maiores do mundo. O que já passou não tem mais jeito…

RCMA -…As cenas chocaram o mundo…

ALEXANDER: … Se eu ficar remoendo isso, adoeço e não terei forças para continuar. Graças aos esforços de uma grande parcela da sociedade, as doações estão começando a chegar. Como esse repasse de R$ 20 milhões do Fundo Especial do Parlamento Fluminense à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para revitalização e reforma do museu, a ser autorizado pela Alerj, por exemplo, vamos poder iniciar as obras, no primeiro trimestre do ano que entra com a restauração da fachada e do telhado.

Também para essa obra teremos auxílio do Bradesco, do Instituto Cultura da Vale e do BNDES. Estamos tentando uma nova emenda parlamentar impositiva dos deputados federais do Rio de Janeiro que estão no Congresso Nacional. Enfim, o sucesso de 2020, a despeito da pandemia, me dá ânimo – a todos nós. Ver esforços da minha equipe recompensados. Está acontecendo.

RCMA – O que vai mudar em relação à estrutura do prédio que existia?

ALEXANDER- Vamos manter a fachada e o telhado exatamente como eram antes do incêndio. Por dentro, porém, teremos um novo museu, mais moderno e mais seguro. Mas tudo dependerá da união de todos. Lembrando que o museu não é meu, não é da UFRJ, mas do povo em geral, do Rio, do Brasil.  Em breve será apresentado o resultado da seleção do escritório de arquitetura que vai atuar no palácio. Será divulgado pela UNESCO. (Ver mais detalhes em https://pt.unesco.org/fieldoffice/brasilia/projects/museu-nacional-vive).

Sobre o palácio destruído

Tombado desde 1938 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o edifício contava com mais de 13 mil metros quadrados. Em estilo neoclássico foi projetado pelo arquiteto brasileiro Manuel de Araújo Porto Alegre. Enquanto isso, o paisagismo seguiu linhas italianas, sendo de autoria do arquiteto e paisagista Luiz Reys.

O prédio foi inaugurado no dia 6 de junho de 1818. Naquele período, com a instalação da Família Real portuguesa no Brasil, o Rio de Janeiro se tornou a capital do reino. Dom João VI promoveu uma série de melhorias na cidade, inclusive, a construção de um palácio real.

Prédio foi residência oficial da Família Imperial

Durante todo o Império, o palácio foi utilizado como residência oficial da Família Imperial Brasileira. No edifício nasceram diversas personalidades históricas, dentre elas o Imperador Dom Pedro II (2 de dezembro de 1825), assim como sua filha a Princesa Isabel em 29 de julho de 1846. Por sinal, no reinado de Pedro II, diversas obras de embelezamento foram feitas no Palácio. Algumas, inclusive, que permaneciam até os dias atuais. Como exemplo, estão os jardins datados de 1869 e com projeto do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou.

Com a Proclamação da República em 1889, o palácio passou a abrigar a Assembleia Nacional, responsável pela Constituição de 1891. A partir de 1892, passa a ser sede oficial do Museu Nacional, até então localizado no Campo de Santana e em 1946, foi incorporado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O Paço de São Cristóvão abriga o Museu Nacional até setembro de 2018.

 

Sala do Egito, uma das mais frequentadas do Museu, terá muitos itens que não se perderam no incêndio. Foto: Eneraldo Carneiro/ Museu Nacional

O Museu Nacional

Vinculado ao Ministério da Educação, sendo uma instituição autônoma da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Museu Nacional tinha dois séculos de atividades, quando sofreu o incêndio. Por ano, para manter seu funcionamento de forma adequada, os repasses ao museu teriam que ser muito maiores do que os R$ 350 mil, aproximadamente, que são repassados.

Fonte: Portal 44 Arquitetura (http://44arquitetura.com.br/)

Projeto Museu Nacional Vive

Entre outras ações, o projeto implementa sua estrutura de governança, com o objetivo de estabelecer diretrizes estratégicas, monitorar e planejar ações de articulação e otimização de diferentes iniciativas e projetos, além de garantir a execução e a continuidade regulares dessas ações para a reconstrução e restauração do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Concentra-se particularmente na reconstrução e restauração do Paço de São Cristóvão e seu anexo; a preparação do palácio para receber a nova museografia; a reforma da Biblioteca e do Jardim Botânico; e a implantação do Campus de Pesquisa e Ensino do Museu Nacional, que se encontra em desenvolvimento.

A estrutura de governança também visa a expandir a participação da sociedade no projeto. Ela está centrada no funcionamento de três fóruns:

Comitê Executivo – principal órgão deliberativo ao qual o Grupo de Gerenciamento Técnico do projeto estará subordinado;

Comitê Institucional – consultivo e com a participação de parceiros públicos, privados e governamentais;

Grupo de Trabalho de Segurança e Sustentabilidade Pós-inauguração – coordenado pelo BNDES e engajado pela Associação de Amigos do Museu Nacional e outras instituições do terceiro setor.

A primeira etapa é a realização de projetos de arquitetura, conteúdo e museografia, além da certificação de sustentabilidade ambiental, entre outras ações, como restauração de ativos integrados, atividades educacionais e mobilização social. Terminada essa etapa, a intenção é implementar projetos nos mecanismos de incentivo fiscal à cultura e captar recursos do setor privado para promover essa reconstrução.

 

Museu Nacional depois do incêndio. Reconstrução manterá apenas fachadas. Por dentro, equipamento vai primar pela modernidade. Foto: Site Museu Nacional Museu Nacional depois do incêndio.

A UNESCO disponibiliza sua experiência e conhecimento técnico na área de museus e salvaguarda do patrimônio cultural para superar os desafios operacionais deste projeto.

– O objetivo é restaurar essa importante instituição cultural, acadêmica e científica, disponível para as sociedades brasileiras e internacionais. O Museu Nacional tem valor histórico e relevância incomparável para a humanidade -, afirma Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e  representante da UNESCO no Brasil.

Depois do incêndio, por meio do Fundo de Emergência do Patrimônio da UNESCO, foi organizada uma missão de especialistas para apoiar os parceiros locais nas primeiras ações. Em um esforço conjunto com o então Ministério da Cultura (MinC), com o MEC, a UFRJ, o Museu Nacional, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN), o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e o Comitê Internacional de Museus (ICOM) ), a missão, liderada por um especialista da UNESCO e assistida por um especialista do Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauração de Bens Culturais (ICCROM), além de técnicos alemães, contribuiu para as autoridades brasileiras no diagnóstico da situação do Museu Nacional e avaliar os danos causados ao edifício e à sua coleção.

Fonte: https://pt.unesco.org/

 

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