Iluminação sustentável beneficia a natureza e protege a saúde das pessoas

Combinação de quantidade de luz e cor: equilíbrio visual às edificações. Foto: Arquivo Pessoal

No quinto capítulo da série de reportagens sobre sustentabilidade, arquitetura, urbanismo e paisagismo, no mês dedicado mundialmente ao meio ambiente, o Rio Capital Mundial da Arquitetura aborda nesta sexta-feira, 26/06, a importância da correta iluminação natural e artificial, em termos econômicos, sociais e ecológicos, seja no campo privado ou público. Diante do cenário atual de pandemia da Covid-19 e na expectativa de como serão as perspectivas para o futuro da arquitetura e urbanismo, as questões relacionadas à saúde do homem passaram a ter maior importância nesses novos tempos.

Elemento básico de uma residência, a iluminação, mais que prover a visibilidade em ambientes escuros, valoriza imóveis históricos, como igrejas, museus e bibliotecas, e enfatiza a beleza de prédios modernos. Nos últimos anos, devido às crises de abastecimento energético, e no cenário atual, investir em projetos sustentáveis vem ganhando amplo apoio mundial de autoridades, arquitetos, projetistas luminotécnicos, urbanistas e construtoras.

Como o tema é amplo, convidamos três especialistas para falar sobre o assunto. Dividiremos suas participações em três publicações. Hoje, Patrizia Di Trapano, mestre e doutora em arquitetura na área de Conforto Ambiental, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro PROARQ/FAU/UFRJ), professora da Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ) e consultora do escritório Loggia Arquitetura – Iluminação e Sustentabilidade expõe suas considerações.

Neste sábado, 27/06, será a vez de Mônica Luz Lobo, diretora criativa e fundadora do escritório LD Studio. Também é fundadora da Associação Brasileira dos Arquitetos de Iluminação (AsBAI), é lighting designer autodidata, e membro da International Association of Lighting Designers (IALD), com Certified Lighting Designer (CLD) desde 2017 – o primeiro na América Latina. O Comitê Internacional do Encuentro Iberoamericano de Lighting Designers (EILD) a tem como uma das representates.

No domingo, o engenheiro e servidor público Luiz Carlos dos Santos, o PC, presidente da Rioluz, vai destacar como o contrato da Parceria Público-Privada (PPP) da Iluminação Pública, assinada em 28 de maio deste ano pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, com investimentos de R$ 1,4 bilhão,  possibilitará a modernização inédita da iluminação pública no município para os próximos 20 anos. A PPP também será responsável por uma conectividade digital mais rápida, segura e  ampla na cidade.

PATRIZIA DI TRAPANO, arquiteta com mestrado e doutorado na área de Conforto Ambiental no PROARQ/FAU/UFRJ – Professora e Pesquisadora na EBA/UFRJ e Consultora na Loggia Arquitetura – Iluminação e Sustentabilidade

Novas tecnologias auxiliam na redução do consumo de energia e na otimização da luz
natural

 

Patrizia Di Trapano: “atenção à qualidade do produto é primordial”. Foto/ Arquivo Pessoal

 

A utilização acertada da iluminação natural e artificial e o significado da luz na qualidade de vida das pessoas, com o intuito de promover saúde e bem-estar, tornaram-se fatores ainda mais relevantes e imprescindíveis para qualquer projeto arquitetônico nesses novos tempos pós-Covid, pois agrega valores fundamentais a partir de agora, segundo Patrizia Di Trapano. Ela reforça que um projeto de iluminação com qualidade deverá atender as necessidades humanas de visibilidade, desempenho de tarefas, promoção de saúde, bem-estar e segurança, trazendo conforto visual.

– Além disso, deverá atender aos requisitos emocionais de quem irá vivenciar o espaço, ressaltando a forma e a composição arquitetônica, agregando também as questões econômicas e ambientais -, destaca.

Patrizia ressalta que devido ao grande aumento do custo da energia no Brasil, a utilização de novas tecnologias de iluminação artificial, com ênfase no LED, tornou-se um assunto de grande relevância. O projeto com a utilização do LED, lembra ela, deve privilegiar a qualidade do produto, o projeto luminotécnico, as normas vigentes, as características da tecnologia, o custo dos equipamentos e o payback (indicador do tempo de retorno) do investimento.

– A atenção à qualidade do produto é primordial. Atualmente, há uma enorme quantidade de produtos no mercado, com preços muitos diferenciados, e que não atendem a critérios de qualidade. São equipamentos que distorcem as cores, que não cumprem a tão desejada vida útil de 50.000 horas que se espera do produto e que não atendem aos requisitos de uma correta especificação dos componentes que constituem uma luminária integrada em LED -, adverte.

 

O emprego de materiais de qualidade e iluminação assertiva, resultam em ambiente agradável. Foto: Divulgação / Loggia

 

Atualmente, no Brasil existem apenas certificação para lâmpadas em LED e luminárias públicas. Luminárias integradas e fitas de LED ainda não têm nenhum tipo de controle. Detalhes sobre normas e procedimentos de qualidade das lâmpadas de LED podem ser obtidos na Portaria nº 389/2014, disponível no site do Inmetro (https://www4.inmetro.gov.br/).

Iluminação artificial eficiente somada a Iluminação natural traz grande
economia de energia para o edifício

A iluminação artificial é responsável por cerca de 17% do consumo final de energia elétrica no Brasil. O setor industrial é o maior consumidor, seguido das residências e comércio em geral. Os custos iniciais das luminárias podem ser maiores para algumas soluções de iluminação LED, quando comparados a soluções tradicionais.

– Entretanto, devido a sua longa vida útil, os dispositivos de iluminação LED previnem manutenção e eliminam os custos de troca de materiais como acontece com lâmpadas convencionais. Além disso, os LEDs consomem muito menos energia, e os custos anuais podem ser reduzidos para até 80%. Na verdade, o retorno sobre as soluções de iluminação com LEDs geralmente pode se dar em menos de dois anos.

 

Luz adequada traz harmonia ao ambiente. Foto: Divulgação/ Loggia

 

Ganhos no bolso dos consumidores, ganhos também para a natureza, já que um dos grandes benefícios dos LEDs é o fato de não utilizarem produtos químicos pesados, como mercúrio,  chumbo  ou  outros materiais considerados potencialmente danosos ao meio ambiente e ao homem na sua fabricação e constituição.

– Isso atende a uma iniciativa internacional, chamada diretiva RoHS (Restriction of Certain Hazardous Substances, ou, em português, Restrição de Certas Substâncias Perigosas), adotada em fevereiro de 2003 pela União Europeia. Se baseia no fato de que o baixo consumo de energia é fundamental para a sustentabilidade do planeta -, explica Patrizia.

A arquiteta diz perceber que existe um esforço da sociedade na busca da sustentabilidade em iluminação. Aos poucos, segundo ela, empreendedores e outros agentes envolvidos na construção de imóveis, começam a entender que a edificação sustentável não deve ser pensada como um simples instrumento de marketing de incorporação imobiliária, mas sim como uma tentativa real de projeto e construção.

– Acredito que os profissionais, sejam da arquitetura, engenharia e incorporadores, por exemplo, devam buscar um compromisso real com os requerimentos de qualidade ambiental, para a obtenção de projetos mais adequados à situação atual. A utilização da luz natural é de grande importância, uma vez que a abóbada celeste do Brasil é muito clara, apresentando baixa nebulosidade, e por estar fartamente disponível no horário de uso dessas edificações -, ensina.

 

Fachada iluminada pela equipe de Patrizia Di Trapano: equilíbrio na quantidade e dosagem de cores. Foto: Divulgação/Loggia

 

O uso da luz natural, conforme Patrizia, garante níveis de iluminação adequados para as atividades humanas, reduzindo a necessidade do uso da luz artificial. Entretanto, a iluminação natural interfere nos ganhos térmicos da edificação, em particular no Brasil, pelo clima tropical, devendo ser utilizada de modo adequado.

– Uma discussão importante nesse sentido trata da utilização dos panos de vidro nas fachadas e a relação com o conforto térmico e lumínico. Nota-se que estas fachadas deveriam levar em consideração o clima do lugar. Existe a necessidade de proteção externa para sombreamento, caso se opte pela utilização total de vidros -, detalha.

O melhor aproveitamento da luz natural depende de decisões de projeto (orientação e definições de aberturas assim como as proteções das fachadas e materiais utilizados para fechamentos laterais e aberturas zenitais), somados a uma automação eficiente. As novas tecnologias auxiliam na redução do consumo de energia e na otimização da luz natural.

Certificado americano estabelece critérios para sete categorias

Uma certificação americana, não necessariamente uma norma, tem tomado grande proporção, principalmente por conta das discussões pós Covid. É a WELL Building Standard, lançada em 2014 pelo International Well Building Institute (IWBI) e administrada em parceria com o órgão certificador Green Building Certification Institute (GBCI).

– A certificação Well estabelece requisitos de desempenho em sete categorias: ar, água, alimentação, iluminação, fitness, conforto e mente, sendo desenvolvida para atender a demanda na busca por qualidade de vida, saúde e produtividade dos usuários, aliada à sustentabilidade ambiental, dentro dos espaços construídos. Esses requisitos poderão ajudar na criação de ambientes que influenciarão no humor, nos padrões de sono, na alimentação e no desempenho de seus ocupantes -, esclarece Patrizia.

 

Cores assertivas e intensidade equilibrada contribuem até para o bom humor dos usuários. Foto: Divulgação/Loggia

 

Quando se pensa em projetar iluminação para determinado ambiente, ressalta a arquiteta, é necessário se ter como base os detalhes biológicos da iluminação, centradas no ser humano e suas necessidades de conforto visual, os aspectos emocionais da luz, e as questões econômicas e ambientais, através de instalações e equipamentos adequados e eficientes. Com relação aos aspectos biológicos, a luz deverá respeitar o ciclo biológico do ser humano, chamado ciclo circadiano.

– Quando se trata de ciclo circadiano deve-se pensar no padrão do ambiente natural e a ciclicidade do relógio mestre endógeno, ou seja, sem este mecanismo sincronizador, o relógio interno fica fora de sincronia, causando diversos distúrbios biológicos ao homem. Isto significa entender como diferentes intensidades e cores de fontes luminosas influenciam no círculo circadiano, nas diferentes horas do dia, interferindo na produção hormonal e causando distúrbios de sono e de atenção -, observa.

 

Detalhes biológicos da iluminação, centradas no ser humano e suas necessidades de conforto visual: premissa. Foto: Divulgação/ Loggia

 

Mas como alcançar tal sincronização positiva? Patrizia explica que para isso se faz necessária a presença de luz mais branco azulada – com maior temperatura de cor – facilitando a produção dos hormônios responsáveis pela atividade e pelo estado de alerta necessários para o desenvolvimento das tarefas. A temperatura de cor menor, com aparência mais amarelada e de menor intensidade ao final do dia se faz necessária para que o organismo entenda que precisa iniciar o repouso e a produção de melatonina, indispensável para auxiliar o sono e o repouso. A luz é capaz de responder por diferentes níveis de ativação mental, importantes para o ser humano. É necessário compreender como isso pode ser aplicado, e qual a relação com as necessidades do homem e a tarefa visual desenvolvida.

– Com relação ao conforto visual, deve-se pensar essa luz de tal forma que não cause ofuscamento, atentar para que sua quantidade seja adequada às tarefas propostas e à escolha correta de equipamentos. O sucesso do projeto também passa por uma análise assertiva dos espaços a serem iluminados, sua uniformidade e os contrastes relacionados às tarefas visuais, temperatura de cor e índice de reprodução de cores adequados, dentre outros -, diz.

Com relação aos aspectos emocionais, pode-se pensar a luz – seja natural ou artificial – como uma forma de intervir no espaço, estabelecendo relações com os elementos arquitetônicos e influenciando na percepção visual. A luz define diferenças entre interior e exterior; enfatiza conexão ou separação; propicia a interação entre luz e forma; conecta ou diferencia o espaço interno; indica orientação e ainda cria ritmo ou sugere movimento.

– Um projeto residencial deve aliar a expectativa do cliente com a linguagem arquitetônica do lugar, levando-se em conta aspectos emocionais a serem despertados com a linguagem da luz que será utilizada aliando as necessidades técnicas para sua aplicação e as tecnologias existentes no mercado. O projeto residencial não pode ser encarado como um projeto linear e padronizado, já que a iluminação não tem a função só de iluminar, mas também o papel de provocar reações emocionais nas pessoas -, comenta Patrizia.

A luz deve ser encarada ainda como um elemento de design. É ela que molda, que define, e que tem o domínio na resposta estética dos ambientes, pois invoca sensações ao ser humano de aconchego, conforto, prazer, calma e tranqüilidade. Recursos tecnológicos são bem-vindos no sentido de se criar diferentes ambiências com a luz.

– A dimerização, os controles e a evolução das técnicas trouxeram a possibilidade de criarmos ambientes, com luz natural e artificial, que influenciarão no ciclo circadiano das pessoas, contribuindo para o bem-estar e a qualidade de vida -, afirma.

 

Apartamento com projeto luminotécnico de Patrizia Di Trapano: cores e intensidade da luz influenciam para um ambiente saudável. Foto: Divulgação/ Loggia

“O isolamento social faz as pessoas perceberem muitas coisas inadequadas em casa”

A residência nessa época de pandemia foi “redescoberta” por muitas pessoas, ainda conforme Patrizia, tornando-se lugar de trabalho, de lazer, de dormir e de meditar, por exemplo. A arquiteta acredita que a percepção de que muitas coisas não estão adequadas dentro de suas residências, ficará incorporado nas pessoas no mundo pós-Covid.

– O isolamento social faz as pessoas perceberem muitas coisas inadequadas em casa, como a iluminação, por exemplo, que se tornou um elemento fundamental para a criação desse tipo de ambiência. O tempo que se passa atualmente dentro das residências está relacionado também ao tempo de acendimento das fontes luminosas. Nesse sentido, o consumo poderá ser alterado significativamente se pudermos trocá-las por fontes eficientes. Num segundo momento, caberia uma adequação do projeto luminotécnico para as necessidades atuais-, aconselha

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