Intervenções ousadas e inusitadas dão pistas do futuro do urbanismo e da arquitetura em parques internacionais

Em Milão, hastes de fibras coloridas mudam o visual e garantem distanciamento entre as pessoas nos parques. Foto: Studio Design SBGA

Lugares perfeitos para meditação, relaxamento, e, principalmente, se respirar melhor, os parques urbanos são um paraíso em meio às selvas de pedra para moradores de grandes cidades, seja em qualquer parte do mundo. Fechados há pelo menos quatro meses por conta da pandemia da Covid-19, os preciosos espaços verdes vêm sendo reabertos gradativamente. Alguns com mudanças fixas em suas estruturas, outros com acessórios que modificam temporariamente o cenário das fotos.

Ao contrário do Brasil, onde ainda não se percebem mudanças físicas mais radicas, exceto algumas iniciativas isoladas, em alguns equipamentos internacionais desse tipo, tais mudanças, consideradas por muitos especialistas como modernas e significativas, e que tentam conciliar natureza e arquitetura, já podem ser notadas. São ideias que trazem esperança ao público em geral, de voltar a frequentar, de forma supostamente segura, ambientes que trazem renovação física, mental e espiritual.

Intervenções arquitetônicas, mesmo carregadas de questionamentos, especulações e dúvidas, em alguns parques internacionais, com o objetivo de garantir o afastamento social e prevenir a contaminação ainda maior do novo coronavírus, estão servindo de exemplo e se alastrando pelo planeta. Se serão duradouras ou passageiras, só o tempo dirá, dizem especialistas e pesquisadores.

Eles lembram que a história mostra que as epidemias podem ter efeitos profundos e inesperados na arquitetura e no design das construções urbanas. Outra pandemia, por exemplo, a da gripe espanhola, em 1918, contribuiu para transformar os banheiros das residências. A partir daquela época, acessórios de alumínio e lavatórios passaram a ser instalados em um cômodo das casas, eliminando a maioria dos banheiros coletivos, que causavam aglomerações.
As mudanças nos parques internacionais – duradouras ou não, só o tempo vai dizer – são abordadas hoje pelo Rio Capital Mundial da Arquitetura.

Ontem, o mesmo tema, em nível nacional, foi publicado pelo RCMA, no nono capítulo da série de reportagens sobre sustentabilidade, arquitetura, urbanismo e paisagismo, iniciada em junho – mês dedicado mundialmente ao meio ambiente.

Confira algumas intervenções em parques públicos que vêm chamando atenção pelo mundo

Estados Unidos

Círculos brancos desenhados no chão, que delimitam o distanciamento social dos frequentadores, mudaram a paisagem de um dos principais parques de Nova Iorque: o Domino Park, no Brooklyn. Nos últimos dois meses, imagens da intervenção, batizada de `urbanismo tático estratégico´, correm o mundo. Projetado pelo escritório de paisagismo James Corner Field Operations e financiado pela incorporadora Two Trees Management, o Domino Park foi inaugurado em meados de 2018. De acordo com agências de notícias, a ideia vem dando certo, mas o cumprimento de recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), como o uso obrigatório de máscaras, é monitorado constantemente pela polícia.

Parque em Nova Iorque: mudança da paisagem com intervenções que tentam manter o distanciamento social. Foto: Divulgação Domino Park / Marcella Winograd

Canadá

Para garantir a prática de ioga ao ar livre em áreas verdes de Toronto, o Lmnts Outdoor Studio, em parceria com o estúdio Hot Yoga, espalhou 50 domos translúcidos por diversos pontos da cidade, que garantem a individualidade para o exercício seguro. A ocupação dos espaços públicos por lá, onde academias ainda estão proibidas de funcionar, por esses equipamentos de aspectos futurísticos, vai até o final deste mês.

Os domos para ioga em parque público do Canadá ficarão montados até o final deste mês. Foto: Divulgação/ Lmnts Outdoor Studio

Os domos para ioga em parque público do Canadá ficarão montados até o final deste mês. Foto: Divulgação/ Lmnts Outdoor Studio

Itália

Uma das cidades mais atingidas pelo novo coronavírus, Milão busca alternativas que levem os italianos e turistas com segurança para suas áreas verdes. A cada dia surgem novas ideias. Uma das mais recentes é a do designer Antonio Lanzillo, que equipou bancos públicos com divisórias de acrílico. Segundo ele, em entrevistas recentes, a intenção é fazer uma espécie de `escudo´, que possa impedir que a saliva de uma pessoa sentada ao lado possa atingir a outra, em caso de um espirro involuntário.

Já o estúdio de design SBGA Blengini Ghirardelli criou, no mesmo país, um conceito de distanciamento social dentro dos parques, através do C’entro. Trata-se de um quadro modular feito de hastes de fibra de vidro coloridas que se encaixavam para formar um círculo no chão para até duas pessoas sentarem-se dentro.

Banco com divisória de acrílico: tentativa de reduzir transmissão do novo coronavírus. Foto: Divulgação/ Antonio Lanzillo & Partners

Áustria

O Stúdio Precht, com sede na Áustria, causou alvoroço mundial ao divulgar imagens de seu ousado projeto: um parque semelhante a um labirinto, onde as divisões, com vegetações altas, permitem que as pessoas mantenham distância social ao ar livre. Chris Precht, fundador do estúdio de mesmo nome, projetou o Parc de la Distance após vários espaços públicos ao ar livre em todo o mundo fecharem devido ao surto do novo coronavírus. O parque é proposto para um terreno baldio em Viena, onde atualmente estão fechados os famosos parques de Schönbrunn e Belvedere.

Chris Precht, fundador do estúdio de mesmo nome, projetou o Parc de la Distance/ Foto: Stúdio Precht

China

Na China, onde o vírus surgiu no final do ano passado, a abertura de áreas públicas e turísticas só vem sendo possível com severas regras e restrições, como limitação de visitantes e obrigatoriedade de distanciamento social. O Shanghai Disney Resort, resort e parque temático construído pela Walt Disney Parks and Resorts, em Xangai, pinturas indicando espaçamentos que as autoridades em saúde julgam adequados, chamam a atenção.

Na China, entrada de parque com avisos enormes: cautela onde a pandemia teve início. Reprodução de Redes Sociais/ WDWNT

Malásia

Criado para diversas funções em 2017 (veja o vídeo institucional abaixo), Spot, um cachorro-robô idealizado pela Boston Dynamics, está tendo testes ampliados durante a pandemia da Covid-19. O objetivo é utilizar a tecnologia inusitada para ajudar a patrulhar parques. Algumas unidades de conservação em Singapura, no Sudeste asiático, quarto país mais rico do mundo, já são monitorados por cães-robôs. Além de escanear documentos, caso seja preciso, o cão emite mensagens gravadas em alto e bom som, alertando cidadãos a cumprirem as regras de isolamento social e até `dá bronca´, em determinadas circunstâncias.

O bicho de lata também dedura, através de microcâmeras, quem não está utilizando máscara ou deixando de cumprir limites permitidos dos espaços para caminhadas, por exemplo. As infrações podem resultar em altas multas e até mesmo em prisão, dependendo do tipo de delito e sua reincidência. As autoridades locais garantem que as câmeras, contudo, não fazem reconhecimentos faciais e nem coletam dados pessoais. Spot contribui ainda com a contabilidade do número de frequentadores dos espaços públicos onde atua.

O cão-robô da Boston Dynamics vem tendo testes ampliados durante a pandemia, para patrulhar parques públicos. Divulgação/ Boston Dynamics

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