Homenageada com o Colar de Ouro do IAB, Dora Alcântara fala de sua carreira e da vida pessoal

Com 63 anos de carreira e referência nos estudos sobre azulejaria, a arquiteta e urbanista Dora Alcântara vai receber a maior comenda do Instituto de Arquitetos do Brasil, o Colar IAB, mais conhecido como Colar de Ouro.  Ela é a segunda mulher a receber a premiação, pelo conjunto de sua obra e pelos serviços prestados à profissão. No ano passado, a arquiteta e paisagista paulista Rosa Kliass foi condecorada. Durante décadas, a premiação já foi feita a 42 homens, como Vilanova Artigas, Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx.

Dora, que já foi personagem da coluna Meu Rio, do site do Rio Capital Mundial da Arquitetura (https://capitalmundialdaarquitetura.rio/o-meu-rio/dora-alcantara-arquiteta/), é modesta ao falar sobre a alegria de ser homenageada pelo IAB e conta, satisfeita, algumas atividades que marcaram sua vida. Ela também comenta, com orgulho, sobre o trabalho atual do neto arquiteto Lucas Alcântara Rangel da Costa na montagem de hospital de campanha em São Paulo, importante no combate à pandemia da COVID-19.

RCMA – Como se sentiu ao saber sobre a homenagem?
DORA – Acho que o IAB é quem está de parabéns por escolher um profissional, não pela sua genialidade, mas que fez coisas importantes no exercício da profissão. A maioria de nós, arquitetos e professores, somos assim, trabalhamos muito no dia a dia. Muitos fazem trabalhos belos e interessantes e sem assinatura em destaque. Compartilho esta homenagem com todos os colegas.

RCMA –  O que marcou a senhora na atividade profissional?
DORA – Lembro que na Faculdade de Arquitetura de Barra do Piraí, onde trabalhei por 16 anos, orientei os alunos em pesquisa e projeto de restauro das fazendas bonitas que estavam decadentes, abandonadas. Com autorização dos proprietários, fizemos levantamento deste locais, estudamos estilos na região cafeeira, redesenhamos as plantas. Foi um trabalho maravilhoso, bem recebido e utilizado pelos donos das fazendas.

RCMA –  Mais algum que mereça ser destacado na sua história?
DORA – Muitos merecem. Por exemplo, gostei bastante de fazer, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a série de levantamentos dos sobradinhos da área da Praça XV, no Centro do Rio. Estavam desfigurados. Redesenhamos com as plantas das fachadas originais. Foram valorizados após muitas pesquisas.
Também gosto de citar o trabalho que fiz com o meu marido (falecido há 21 anos), Antônio Pedro Gomes de Alcântara, na cidade que tinha o nosso nome no Maranhão: Alcântara. Resgatamos a origem arquitetônica e econômica do lugar.

RCMA – Qual o maior prêmio que já recebeu?
DORA – São os muitos alunos amigos que mantenho até hoje. Esta foi a maior premiação da minha vida: sentir que o que fiz foi útil para alguma coisa. 

RCMA – Fale sobre a pandemia do novo coronavírus?
DORA – Só queria ver a humanidade livre deste flagelo. É importante seguir a série de instruções que os arquitetos estão passando sobre tratamento da casa e de hospitais, para conviver com isso.

RCMA – Um orgulho?
DORA – Ver o meu neto, o arquiteto Lucas Alcântara Rangel da Costa, tão ocupado na montagem de um hospital de campanha em São Paulo. Ligo e pergunto logo, “Lucas, está ocupado?” Muitas vezes, atualmente, ele responde: “Ih, vó. To mesmo”. Me enche de orgulho demais.

Unanimidade na aprovação de seu nome
A reação de Dora Alcântara ao saber que foi aprovada para receber o Colar de Ouro emocionou o presidente do IAB-RJ, Igor de Vetyemy, que a indicou este ano:

– Conhecendo a energia com que Dora segue batalhando por tudo que acredita, do alto de suas quase 9 décadas de vida, não me surpreendeu, mas não deixou de me emocionar, o fato de que a reação imediata dela não foi relacionada ao orgulho e prazer pessoal com a homenagem. A felicidade dela foi ver o IAB homenageando profissionais que dedicaram a vida inteira a ações cuja importância não se registra nas páginas de seus currículos, mas sim, no desenvolvimento da cultura do país, como o magistério e o patrimônio, duas de suas contribuições mais extensas a nossa sociedade -, explicou Igor.

A indicação para o prêmio foi aprovada por unanimidade nas duas instâncias necessárias: o grupo de Conselheiros vitalícios, formado por ex-presidentes nacionais da entidade; e o Conselho Superior, composto por presidentes de departamentos, copresidentes, vice presidentes e o grupo de membros do Conselho Superior de cada estado.

A aprovação foi feita durante a primeira reunião (entre os dias 16 e 18 de abril de 2020) do Conselho Superior, feita virtualmente, por causa da pandemia do novo coronavírus, pela primeira vez nos 99 anos de história da entidade.


Saiba mais sobre Dora:
Dora Monteiro e Silva de Alcântara nasceu no Rio de Janeiro em 1931. É arquiteta graduada em 1957 na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ/FAU.

Estudiosa da Azulejaria luso-brasileira, suas principais atividades são as ações em defesa da preservação do patrimônio cultural e do ensino da arquitetura brasileira. Aos 88 anos, ela se dedica a atividades como sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB no Rio de Janeiro, Petrópolis e Paraguai; como membro do Conselho Estadual do Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB/RJ; e como sua representante junto ao Conselho Estadual de Tombamento do Instituto Estadual de Patrimônio Cultural – Inepac.


A arquiteta já havia recebido homenagens e prêmios do IAB/RJ, nas 8ª e 9ª Premiações Anuais, há mais de 40 anos. Também foi homenageada pela UFRJ/FAU e pelo Iphan e premiada com a medalha de Mérito Profissional, no Conselho Regional de Arquitetura, Engenharia e Agronomia do Estado do Rio de Janeiro – CREA/RJ; foi indicada pelo IAB/RJ no ano de 2003 para receber a homenagem 10 mulheres pioneiras em suas profissões – ‘Arquitetas e engenheiras: mulheres à frente de seu tempo’, realizada pelo Clube de Engenharia,

IAB/RJ, pela Academia Nacional de Engenharia- ANE, ABEA e SEAERJ. Em Lisboa (Portugal), recebeu o prêmio SOS Azulejo em 2018, na categoria ‘Personalidade’, por sua obra científica da maior relevância e por ser autora de grande projeção no estudo do azulejo luso-brasileiro.


Depoimentos sobre Dora:

Copresidente de políticas de gênero do IAB-RJ, a arquiteta e urbanista Marcela Abla ressalta que a homenagem “confere visibilidade à trajetória profissional de uma mulher pioneira, em período em que a profissão da arquitetura e urbanismo era exercida predominantemente pelo sexo masculino, o que foi revertido para os dias de hoje, em que 60% dos profissionais em arquitetura e urbanismo em atividade no Brasil são mulheres. Dora representa a diversidade que este campo profissional possibilita. Sua trajetória é uma inspiração e referência para as e os atuais profissionais e a coloca na vanguarda da arquitetura e urbanismo.”

Colega de Dora na coordenação da Comissão de Patrimônio do IAB, Noêmia Barradas lembra que: “Em um momento em que o feminino tem sido pontuado com mais força e dignidade, em todos os campos do conhecimento, não poderia passar despercebida esta notável e

inestimável mulher, guerreira, sábia e de valores tão caros ao patrimônio e à sociedade.”

A arquiteta e urbanista Vera França Leite, colega de Dora durante muito tempo na Comissão de Ensino do IAB/RJ, lembra que foi ela quem primeiro a convidou para fazer parte da equipe de professores da Faculdade que coordenava: “A partir de então, os vínculos se estreitaram, dando lugar uma amizade e respeito mútuo que

perdura por mais de 45 anos”. E completa, com um sentimento comum a todos os que a cercam: “À ‘pequena notável’, como costumo chamá-la carinhosamente, querida amiga, generosa e solidária, sempre presente em todos os momentos da minha vida profissional e pessoal, a minha admiração.”

Rio Capital Mundial da Arquitetura
O Rio de Janeiro é a primeira Capital Mundial da Arquitetura, título inédito conquistado pela Prefeitura do Rio e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e pela União Internacional de Arquitetos (UIA). Ao longo de todo o ano de 2020, a cidade sediará uma série de eventos, entre eles o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, exposições e concursos públicos, adiado para 18 a 22 de julho de 2021, devido ao surto de coronavírus no mundo. Além de mostrar para o mundo a riqueza arquitetônica do Rio, esta titulação é também uma oportunidade de reflexão sobre o futuro, de planejar o que se quer para as cidades de todo o mundo.

UIA 2021 Rio
Com o tema “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21” e expectativa de público de 20 mil profissionais da área, o 27º Congresso Mundial de Arquitetos vai transformar o Rio no epicentro do debate sobre o futuro das cidades do mundo. Promovido pela União Internacional de Arquitetos (UIA) e com a organização do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o evento convida especialistas e entusiastas de cidades mais dinâmicas, justas e sustentáveis a debater soluções inicialmente entre os dias 19 e 23 de julho de 2020 (devido à pandemia de Coronavírus no mundo, a data foi adiada para 18 a 22 de julho de 2021). O Congresso conta ainda com eventos preparatórios e paralelos, como exposições, seminários e workshops, que acontecem por todo o país.


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