Fórum Cidade, Favela e Patrimônio fará segundo encontro virtual para debater participação coletiva

2º GT

Com o sucesso do primeiro, já está tudo pronto para a realização do II Encontro de Grupos de Trabalho (GTs), nesta quinta-feira (21/05), às 18h30, mais uma etapa para discutir temas essenciais e traçar novos planos para o I Fórum Cidade, Favela e Patrimônio, previsto para setembro. O Fórum faz parte do calendário do Rio Capital Mundial da Arquitetura e tem como objetivo identificar caminhos e fortalecer iniciativas para a construção coletiva de novos entendimentos sobre a favela, seu patrimônio e o desenvolvimento urbano sustentável.

O primeiro debate foi amplamente elogiado e gerou até mesmo um interessante artigo do superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio, Manoel Vieira, sobre a ‘Memória das Favelas’. Leia o artigo no final.

Desta vez, o tema será ‘Participação coletiva’ e com o encontro dividido em duas partes: na primeira será apresentada a proposta do programa, objetivos e desafios; depois serão feitos os debates para avançar sobre a estrutura e organização do fórum.

Como o primeiro, este segundo encontro será aberto a todos os interessados em refletir sobre a relação entre a cidade e a favela pelo viés do patrimônio. As organizadoras do programa ressaltam a importância do debate neste momento de impacto da pandemia do novo coronavírus, tornando mais evidente a necessidade de mudanças nas cidades.

– O fórum é sobre cultura, memória, pertencimento, desenvolvimento. Reforça a discussão sobre o direito ao patrimônio e como parte do direito e à cultura, previsto na Constituição Federal de 1988. Cultura como um direito à dignidade humana e ao desenvolvimento -, afirma a historiadora Renata Santos, da Contemporânea (agência de pesquisa e desenvolvimento social) e uma das idealizadoras do trabalho.

Público diferenciado
Com o afastamento social recomendado mundialmente devido à pandemia da Covid-19, a agenda foi alterada e os encontros estão sendo feitos virtualmente. Isto trouxe resultados positivos, como a participação nas discussões de pessoas que estão até em outros países.

Profissionais do setor de preservação, arquitetos e estudantes participaram do primeiro evento, realizado no dia 16 de abril.

– O fato de ser virtual parecia uma solução de emergência, mas está se mostrando uma ótima solução para que as pessoas não parem de contribuir -, explica Renata.

Alini Rangel, diretora-presidente do Museu de Favelas (MUF) e organizadora do Fórum, também ressalta que a realização do encontro virtual possibilitou que pessoas de outras partes do país e mesmo de fora do Brasil, pudessem trocar ideias, formando um grupo inicial de trabalho diversificado e motivado.

A colaboração dos participantes já possibilitou que se aprofundasse a proposta, os objetivos e as metas do Fórum, avanços que serão apresentados no próximo encontro. E mostrou que mesmo entre os que se interessam pelo assunto e entendem sua importância, a relação entre cultura, patrimônio e desenvolvimento sustentável ainda tem muito o que avançar:

– Reconhecer os diferentes bens que servem como referências culturais e sociais dos mais diversos tipos de comunidades, sejam favelas ou não, localizadas em todas as partes do território é um direito fundamental de todo cidadão. Colocar isso em prática contribuindo para pactuar novos entendimentos sobre a cidade e a possibilidade de uma convivência não só mais humana e respeitosa, mas também justa e digna, é o maior desafio do Fórum -, acrescenta Alini.

Elogios ao primeiro encontro
O resultado do 1º Encontro de GTs foi tão bom que participantes das discussões fizeram elogios. Um deles, Edson Diniz, historiador ligado à Redes da Maré, considerou a iniciativa como um avanço:

– O Fórum Cidade, Favela, e Patrimônio é um avanço na discussão sobre as cidades do século XXI. Isso porque reúne uma gama variada de instituições e pessoas para pensar o patrimônio cultural do Rio de Janeiro de forma integral, superando a velha dicotomia favela X asfalto. Assim, ao afirmar, em primeiro lugar, as favelas como produtoras de cultura, o Fórum reconhece a importância do patrimônio por elas construído para o conjunto da cidade. Por sua vez, isso permite identificar um mosaico cultural rico e variado que reflete formas de se viver, pensar e de estar na cidade que são, ao mesmo tempo, diferentes e complementares -, resumiu Diniz.

O professor Eber Marzulo, do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Propusr -UFRGS) avaliou a discussão como fundamental. Ele explica que a relevância do fórum é colocar o foco na experiência da favela hoje, uma experiência globalizada que ocorre em vários pontos do mundo em virtude do intenso desenvolvimento das cidades no final do século XX, paralelamente a uma diminuição das políticas públicas de atendimento às necessidades destes contingentes populacionais mais pobres.

– Essa é a importância fundamental do fórum e parabenizo o Rio Capital Mundial da Arquitetura por trazer esta temática para o âmbito da arquitetura -, elogiou Marzulo, que participou do debate virtual.


Foto: Mariana Veltri
Manoel Vieira escreveu artigo sobre evento do Rio Capital Mundial da Arquitetura

Artigo:
Por Manoel Vieira*
A Memória das Favelas

Reconhecer-se como parte da cidade é um exercício cotidiano. Nenhum citadino é capaz de se orientar num ambiente urbano sem reconhecê-lo. E conhecê-lo é uma experiência de se perder e se encontrar. É um exercício de experimentação e de memória.

A memória é o ponto de aglutinação entre o pertencimento e o empoderamento. Só se reconhece na cidade quem se lembra de onde é, para onde vai e por quê veio. E só se empodera quem pertence, quem sabe suas raízes, quem se reconhece.

Os moradores das favelas vivem a contradição de conhecer morro e asfalto sem que possam se sentir parte integral do asfalto. Por outro lado, os moradores do asfalto vivenciam a cidade sem reconhecer as favelas. Há meios de se garantir a conexão entre dois territórios – morro e asfalto – tão contrastantes, se a cada movimento de aproximação parece sobrevir uma tendência de reforço das diferenças?

Uma das possibilidades lançadas pelo I Fórum Cidade, Favela e Patrimônio é buscar conexões entre morro e asfalto a partir do reconhecimento das favelas na construção das cidades – no caso, da Cidade do Rio de Janeiro. Esse reconhecimento parte da ativação da memória das favelas. Esses territórios culturais, tão preteridos nos processos de planejamento das cidades ao longo da história, possuem vínculos muito sólidos e atávicos com a cidade. Suas populações decorrem de histórias da nossa sociedade brasileira, projetadas sobre uma cidade que ao longo de mais de 150 anos atraiu brasileiros de todas as regiões do país, atraiu estrangeiros, se fez cosmopolita e com a perda da condição de capital do país iniciou seu declínio e, desde então, observa o crescimento fantástico das ocupações irregulares ou ditas subnormais.

Em meio a tudo isso, a Cidade Maravilhosa recebe da Unesco a chancela de Patrimônio da Humanidade pela beleza paisagística da relação entre o ambiente natural e o construído. Cinco anos mais tarde, seria a vez do Cais do Valongo, sítio do sensível símbolo da diáspora africana, a receber também o título de Patrimônio Mundial. A valoração dos territórios da cidade pela Unesco reforça leituras: dois mundos, duas visões, uma mesma cidade.

Considerando que as favelas ocupam a maior parte dos territórios que margeiam as áreas naturais da cidade, qual é o papel das favelas na construção das paisagens cariocas?

Reconhecer a memória das favelas é reunir morro e asfalto. É reconhecer o abismo entre esses territórios e oportunizar seu reencontro. E em meio a tantas diferenças reconhecer a si e ao outro como pertencentes a um só Rio.

* Manoel Vieira é superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio.


Serviço:

I Fórum Cidade, Favela e Patrimônio, 2º Encontro virtual de GTs

Edição Virtual via plataforma Cisco Webex

Data: 21/05
Horário: 18h30
Acesse o link para participar:
ttps://meetingsamer19.webex.com/meetingsamer19- pt/j.php?MTID=ma8db7e67b68245a58413bc47afc10f05
Número da reunião (código de acesso): 622 260 771
Senha da reunião: 6e8FpGW3MhF.

Notícias Recentes

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin