Entrevista: O patrimônio e os desafios com o clima e o desenvolvimento sustentável

Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais do Rio: paisagem urbana reconhecida pela Unesco. Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Nesta edição, publicamos a segunda parte da entrevista com o arquiteto espanhol José Antônio Hoyuela Jayo. Ele falou com o Rio Capital Mundial da Arquitetura (RCMA) por telefone, de Palência, no Norte da Espanha, onde trabalha num projeto de revitalização de um parque, que ostenta uma escultura de 20 metros de altura do Cristo do Otero, que lembra o Cristo Redentor do Rio de Janeiro, do escultor Victorio Macho (de 1931).

Com experiência de aproximadamente duas décadas e meia na profissão e ex-consultor do Iphan e da Unesco, Antônio fala hoje sobre as mudanças climáticas e os desafios que o tema envolve para patrimônios em geral, a importância do desenvolvimento sustentável e sobre o título recebido pelo Rio de Janeiro da Unesco, na categoria Paisagem Cultural Urbana, entre outros assuntos.

Antônio Hoyuela, arquiteto: “As escolas de arquitetura e urbanismo estão aplicando métodos que nos desperta maior compromisso com a natureza e a propor soluções mais integradas, ecológicas e eficientes para as cidades

 

Antônio Hoyuela: alerta constante para o enfrentamento às mudanças climáticas. Foto: Arquivo Pessoal

 

RCMA – Mudanças climáticas profundas têm desafiado arquitetos e urbanistas no mundo inteiro, na construção de equipamentos, de imóveis, que garantam melhor qualidade de vida das pessoas…

ANTÔNIO – … Certo, estamos trabalhando desde o urbanismo, desde a arquitetura, e agora desde o paisagismo, com a preocupação de sempre orientar aos governos para enfrentar as mudanças climáticas. Mas gostaria de fazer algumas declarações prévias:

1 – Mudanças climáticas não só provocam deslizamentos, enchentes, inundações, ou grandes chuvas ou queda de rochas, mas também danos irreversíveis na saúde das pessoas e dos ecossistemas. E esse é o verdadeiro perigo. Instituições de renome internacional como a Fiocruz estão nos avisando isso faz muitos anos. A pior das catástrofes poderá ser um vírus que incremente as doenças como febre amarela, chikungunya, dengue ou o novo coronavírus. Nos eventos climáticos no Rio, em fevereiro de 2019, morreram 17 pessoas e 750 árvores.

2 – Enfrentar as mudanças climáticas exige trabalhar a origem dessas mudanças, que está no consumo insustentável (alto consumo de carne, ou produção deslocada do consumo, por exemplo), nos modelos de transporte impactante (baseados no uso dos hidrocarbonetos) e nos modelos de vida (preferimos viajar para longe do que conhecer patrimônios próximos). Portanto, a solução começa sempre na porta da nossa casa, no nosso cotidiano e no nosso dia a dia. Só assim conseguiremos reduzir o aquecimento global, as mudanças nos ritmos dos ecossistemas e os impactos a eles associados.

3 – As cidades são importantes atores das mudanças climáticas, mas o desflorestamento, a produção agrícola descontrolada, a criação intensiva de gado, ou a exploração de recursos não renováveis, também impactam enormemente nas mudanças climáticas. O que nos antecipa que a solução só poderá acontecer se for aplicada a escala planetária, e começa pelo controle da povoação do planeta. Já faz tempo que ultrapassamos os limites da sustentabilidade.

RCMA – A chamada `arquitetura ecológica´ tem sido tratada com seriedade na prática ou está mais no campo das ideias?

ANTÔNIO – Diferenciaria, nesse caso. A arquitetura ecológica já está começando a expandir, mas o verdadeiro problema começa no urbanismo ecológico. De nada serve fazer casas ecologicamente respeitosas em cidades que não integram a natureza, a lógica ecossistêmica, ou modelos de vida muito mais comprometidos com a gestão das águas, do lixo, dos materiais recicláveis, e com a proteção de seus recursos, incluído a paisagem.  Primeiro deveríamos preparar as nossas cidades.

 

Aterro do Flamengo, intervenção do homem na paisagem do Rio. Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

 

RCMA – De que forma? Pode dar alguns exemplos?

ANTÔNIO – Recentemente fiz uma listagem de algumas das ideias que poderiam contribuir para um urbanismo mais ecológico e mais sustentável:

– Consumo familiar próximo, ecológico; a maior utilização da horticultura e agricultura de proximidade (aumento das migrações para a área rural). Uma espécie de ruralização e autonomia.

– Verdear as cidades, integrar o meio ambiente e o patrimônio cultural nas suas diferentes escalas (local, urbana e territorial). O que chamo de renderização.

– Pensar e trabalhar soluções locais em rede, desde o reconhecimento da paisagem, a pensamentos globais (viagens seletivas e home office), reforço sistémico e de pertencimento. Pensamento em rede desde o reforço local e familiar.

– Drenagem sustentável, saneamento extensivo (macrófitas) e reciclagem das águas “in situ”, aproximando a gestão integrada ao usuário. Reciclagem das águas.

– Coberturas, fachadas, calçadas e estacionamentos verdes (permear e verdear) e garantir a continuidade dos habitats e ecossistemas. Reconectando ecossistemas.

– Reduzir os fluxos de materiais, de lixo e de produção aproximando-os da demanda, mediante usos e atividades misturados, e densidades progressivas: Proximidade e recentralização.

– Transporte público e sustentável, nas suas diversas escalas, local, urbana, territorial, regional e internacional, diminuição das viagens desnecessárias e “Cidades de 15 minutos”, como Madrid, Paris….

– Olhar granulado, diversidade multi-escalar e multi-finalitária (gerir a complexidade da paisagem por morfotipos ou unidades de caráter), a solução está no detalhe “minimalista”.

– Planejamento integrado, monitoramento e ações preventivas (antecipar) combatendo, minimizando e reduzindo os riscos naturais (geológicos e ambientais) e culturais (sociais, econômicos, políticos), educando e aumentando a resiliência: aumentando a resiliência.

– Energias sustentáveis e renováveis biomassa, fotovoltaica, eólica e micro hidráulica (pequena escala) e vetores de armazenamento e distribuição eficientes.

– Colaborativo, digital e participativo (apoiado nas plataformas digitais e na geografia do dado), melhorando a qualidade de vida e da ambiência, a eficácia e a eficiência da paisagem, e garantido os serviços públicos, principalmente a saúde e a assistência mínima emergencial: ambiente saudável.

RCMA – Arquitetos, urbanistas e ambientalistas têm falado a mesma língua em prol de um desenvolvimento sustentável hoje no Brasil e no mundo?

ANTÔNIO – Estamos colaborando, sim, tanto na escala local, quando na escala planetária. O encontro da UIA vai focar muito nesses assuntos em julho de 2021 e com contribuições de todo o planeta. Por exemplo, a equipe espanhola, liderada pelo CSAE, com a qual estou colaborando, vai focar na habitação e na saúde (e isso antes da pandemia). E para os dois desafios propõe soluções ecológicas e sustentáveis, mais comprometidas com as mudanças climáticas e os desafios que desperta para nós arquitetos.

Já nos anos 70, Ian Mc Harg, um grande urbanista (na verdade paisagista, ou landscaper) vai inventar o método do “overlay mapping”, sobreposição de mapas, para gerir a complexidade de nossos territórios e de nossas paisagens. Com isso ele inaugura a tecnologia dos SIGs (Sistemas de Informações Geográficas), mas também, e sobretudo, a procura de soluções para modelos de expansão urbana absolutamente insustentáveis. Mc Harg, no seu livro `Desenhando com a Natureza´ já fala da necessidade de se trabalhar a escala territorial antes de abordar a escala urbana, e reconhecer a geologia, os solos, os rios, as águas, os recursos ambientais e econômicos, e propor, depois, dois mapas de síntese, um de capacidade do território (donde devemos aplicar um determinado uso ou atividade) e outro de fragilidade (que nos indica onde não devemos nunca aplicar esse uso ou atividade).

Desde então, numerosas escolas de arquitetura e urbanismo estão aplicando esse método que nos leva a uma maior compromisso com a natureza, antes de mais nada e a propor soluções mais integradas, ecológicas e eficientes para nossas cidades e nossos assentamentos, sejam eles residenciais, produtivos, comerciais ou de lazer.

RCMA – Os governantes, de um modo geral, no Brasil, têm entendido a importância de se pensar conjuntamente em globalização e recuperação dos valores dos espaços locais onde vivemos?

ANTÔNIO – Eu sempre me surpreendo no Brasil pelo alto nível de pesquisa das suas universidades e pela qualidade das suas leis ou do seu corpo técnico, ou diplomático, mas depois as soluções não chegam. Corpos técnicos de escala municipal, estadual ou até federal tem uma grande qualificação, mas falta engatilhar isso com a política efetiva, aquela que resolve e aplica essas ideias. Acho que estamos numa crise democrática planetária. Falta juntar as ideias que vêm de baixo, com os governos que as impõem de cima.

RCMA – Isso requer o quê?

ANTÔNIO – Isso tem a ver com a necessidade de uma maior participação pública da sociedade civil nos processos de tomada de decisões, com uma maior integração das políticas públicas (por setores e áreas de trabalho) e uma maior integração dos diferentes níveis ou escalas de governo, a federal, a estadual e a municipal. Só nessa integração e nessa transversalidade, no sentido horizontal (de âmbitos de conhecimento) e no vertical (de escalas espaciais e escalas de governo) poderemos encontrar as soluções aos desafios globais e locais que a sociedade contemporânea nos coloca em relação ao combate às mudanças climáticas e a compreensão da importância de cuidar, conhecer e gerir adequadamente nossas paisagens e nossos territórios.

RCMA – O Rio de janeiro foi o primeiro município a ser reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural Urbana, em 2012. O que significou esse título para o Brasil e o mundo?

ANTÔNIO – Como comentei anteriormente, o Brasil lidera o grupo de países que devem incorporar a paisagem na leitura do seu patrimônio cultural, como base para sua análise, e como instrumento para uma gestão eficiente desses territórios. A declaração de 2012 contribuiu para reforçar essa ideia e iniciar uma revisão da chancela, e dos outros lugares patrimônio da humanidade desde uma perspectiva mais ampla, mais integradora, mais paisagística. Existem hoje pouco mais de 1.200 lugares no mundo reconhecidos como patrimônios da humanidade. O Brasil tem 15 na categoria de patrimônio cultural, 7 na categoria natural e 1 na categoria mista (algo parecido a paisagístico, que é Paraty, no Sul Fluminense). O reconhecimento anuncia o valor universal e excepcional de todos esses bens chancelados pela Unesco, os coloca na lista dela, e, portanto, no mapa dos bens que todo amante da cultura ou da natureza quer visitar.

RCMA – Ao mesmo tempo o título exige a preservação desses valores através da garantia da sua autenticidade e da sua integridade, não?

ANTÔNIO – Eles devem ser uma manifestação excepcional de tradições, mitos, técnicas, estilos próprios daquele local, bem característicos, mas, ao mesmo tempo, devem ser preservados, conservados e requalificados, e, como diz a última recomendação da Unesco, entendidos, não só como paisagens urbanas de interesse histórico, mas também artístico, simbólico, etnográfico e, sobretudo, ecológico. Porque a preservação exige reforçar os processos ecológicos que os sustentam.

RCMA – Que tipo de questões o título dado pela Unesco ao Rio alavancou?

ANTÔNIO – A declaração inclui as paisagens transformadas pelo homem na sua dimensão de integração com a natureza. Ajudou a definir estratégias de sustentabilidade da paisagem entendida como síntese entre natureza e cultural. A declaração promove a importância da conservação do patrimônio como memória da cultura e símbolo da identidade carioca, e o aperfeiçoamento dos instrumentos de planejamento e gestão dos elementos do Sítio. Daí surge o projeto Prodoc do qual eu participei, por exemplo, mas também todo o trabalho do comitê gestor dirigido pelo Iphan. Esse comitê gestor contribui para a aplicação desses instrumentos na gestão integrada do Sítio, com um envolvimento direto das três esferas governamentais, da sociedade civil e da academia. As reuniões que assisti estavam focando em debates muito ricos e interessantes sobre a proteção do sítio e sobre as ações dos diferentes atores envolvidos.

RCMA – Dá para traduzir esse avanços em números?

ANTÔNIO – Sim. Hoje, a perspectiva integrada do patrimônio permite gerir 180 bens federais, 350 estaduais, 2.000 municipais e mais de 10 mil bens preservados, com as suas diferentes dimensões, valores, naturais e culturais, materiais e imateriais, promovendo uma gestão global do patrimônio, uma gestão integrada, e um reforço efetivo da paisagem cultural como um todo único. O que eu chamo de Sistemas Territoriais.

RCMA – Como se estruturam essas medidas?

ANTÔNIO – As medidas dessa gestão compartilhada são estruturadas em quatro dimensões. Uma primeira dimensão institucional e normativa que integra os diversos atores a partir da leitura e compreensão de suas diversas responsabilidades, responsabilidade da Comissão Gestora. A dimensão técnico-operacional e econômico-financeira nos coloca no campo da ação direta, da realidade, nos aproximando a aplicabilidade da candidatura, com ações coordenadas pelo Conselho Consultivo. Um exemplo pode ser a integração das antenas do Alto do Sumaré, iniciada pelo ICMBio, mas coordenada pelo Comitê Gestor das Paisagens Cariocas, por envolver questões urbanísticas, de segurança, ambientais, etc… Essa é a grande virtualidade da visão paisagística: criar um foro onde pode-se trabalhar a paisagem como um todo.

 

Paisagem urbana e natureza preservada: equilíbrio buscado incansavelmente por Antônio Hoyuela. Foto: Alexandre Macieira/Riotur

 

RCMA – O Rio e o Brasil preservam bem seus patrimônios culturais e paisagísticos?

ANTÔNIO – O Brasil tem uma das instituições mais antigas e valorosas para a gestão do patrimônio cultural no mundo: o Iphan. Mesma coisa com o patrimônio natural, com ICMBio e com o Ibama. Além disso, o Brasil conta com um dos comitês nacionais do Icomos reconhecido pela Unesco (para assessorar sobre os lugares chancelados como patrimônio mundial), como um dos mais ativos do mundo, e que, com seus debates ricos e profundos, está influenciando as políticas internacionais. Foi assim, por exemplo, no processo de reconhecimento da capoeira como patrimônio imaterial, que acabou induzindo a convenção de 2003 da Unesco sobre esse patrimônio. Hoje, Iphan, ICMBio, Ibama, estão trabalhando por incorporar a paisagem como instrumento de suas políticas. O Icomos ambém está desenvolvendo importantes debates sobre o próprio conceito de patrimônio cultural, sobre mudanças climáticas, sobre patrimônio imaterial, sobre  riscos, sobre fortificações, paisagens culturais, etc…E, portanto, o debate está sendo muito rico e interessante. Está faltando só bater o martelo e integrar isso dentro das diferentes políticas públicas.

RCMA – O Brasil se preocupa em preservar seu passado?

ANTÔNIO – Sim, se preocupa. Mas deveria juntar isso com a preocupação de se preservar sua paisagem. Não existem povos sem território, e não existe patrimônio, memória ou cultura, sem a paisagem. Estamos trabalhando justamente nesse salto: entender o que é a paisagem, e como ela envolvem aspectos ambientais, sociais, econômicos e, sobretudo, perceptivos.

RCMA – A burocracia ainda emperra muito as leis de proteção ao patrimônio histórico e paisagístico no Brasil?

ANTÔNIO – Sim, eu acho que devemos pensar menos em branco ou preto e muito mais o cinza, os termos intermédios, os diálogos, os necessários equilíbrios, entre desenvolvimento e conservação, entre o material e o imaterial, entre natureza e cultura. Trabalhamos muito para aplicar e fazer cumprir as leis e menos em pensar se elas se adequam a nossos verdadeiros e mais autênticos anseios, a nossos desafios e valores, às nossas memórias e às nossas identidades.

RCMA – Finalizando, o Rio de Janeiro está no caminho certo, então, na questão do zelo com seu rico patrimônio paisagístico?

ANTÔNIO – Posso dizer que o Rio de Janeiro está no olho da Unesco e, com ela, no olho do mundo, por suas paisagens. Mas também por seus esforços em liderar esse novo olhar, novos instrumentos de ordenamento e de gestão sustentável, participativos, inovadores, ecologicamente corretos e respeitosos. Adequados, enfim, à sua escala de continente e de reserva da natureza e da cultura.

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