Arquitetura da felicidade, tendência para o bem-estar nos espaços e ambientes projetados

Vicente Loureiro chama a atenção para a valorização de projetos voltados para o fim da "sofrência". Foto cedida pelo autor.

Valores voltados para a promoção da felicidade e o bem-estar dos moradores e usuários dos espaços e ambientes por eles projetados é o tema desse artigo escrito por Vicente Loureiro. O arquiteto e urbanista chama a atenção para o conceito, que está vinculado a uma crescente aplicação de concepções  da chamada ciência da felicidade. O objetivo é melhorar a vida das pessoas. Confira o texto na íntegra:

 

Congresso americano, exemplo da chamada `arquitetura da felicidade´. Foto cedida pelo autor.

Participei recentemente do II° Congresso Brasileiro de Arquitetura da Felicidade. Inicialmente cheguei a estranhar o título. Em muitos anos de profissão já tinha visto muita adjetivação para arquitetura, porém nunca uma destinada a vinculá-la à felicidade. Entre surpreso e cabreiro fui levado a conhecer um saudável e denso movimento de arquitetos, incluindo profissionais de outras áreas, cujo trabalho é orientado por princípios e valores voltados a promover a felicidade e o bem-estar dos moradores e usuários dos espaços e ambientes por eles projetados.

A primeira constatação importante foi perceber que esta tendência não é uma iniciativa isolada. Está vinculada a uma crescente aplicação de conceitos da chamada ciência da felicidade visando melhorar a vida das pessoas. Já presente em importantes universidades do mundo, inclusive na prestimosa Harvard. No Brasil já existe, na academia, disciplinas e cursos regulares a estudar a felicidade em seus aspectos científicos, filosóficos, artísticos e até espirituais.

Um Congresso Internacional da Felicidade vem sendo realizado, regularmente, por aqui faz algum tempo. Debatendo temas da psicologia positiva, da ciência das emoções, da neurociência entre outros. Já a pegada central do pessoal da arquitetura, parece ser a de como lugares e edifícios podem ajudar as pessoas a se sentirem bem, em paz e com mais qualidade de vida. Inclusive publicações foram divulgadas tratando da Neuroarquitetura, da Arquitetura do bem-estar entre outras novidades, nem sempre muito claras.

Washington e a livraria do Congresso americano

Talvez os exemplos mais palpáveis desta chamada arquitetura da felicidade estejam presentes na evolução do bem-estar e conforto verificada nos edifícios destinados à saúde, como os chamados “hospitéis” (hospitais hotéis). Infelizmente possíveis, até o presente, só na rede privada e voltada para pessoas de altíssima renda. Mas com inegáveis e importantes inovações, obtidas graças ao desenvolvimento de projetos baseados em evidências e pesquisas científicas para se obter sempre o melhor resultado na ambiência de tais edifícios.

Nos conceitos da biofilia usados para aumentar a conexão das pessoas com bem-estar, através de mais contato com elementos da natureza. E atestados pela Certificação Well, desenhada exclusivamente para garantir padrões seguros e sustentáveis de saúde e bem estar nos edifícios, avaliando qualidade do ar, da água, da iluminação, do conforto, dos movimentos e comportamento dos futuros usuários e colaboradores.

Ficou gravado na minha cabeça, como resultado marcantes dessa estratégia, o centro cirúrgico e o CTI com vista panorâmica para a cidade, num hospitel recém construído em São Paulo. Sem dúvida uma quebra de paradigma animadora.

Algumas afirmações ouvidas durante o congresso também chamaram minha atenção. Como aquela que diz: “as pessoas estão buscando mais experiências vitais do que produtos”. Procurando por conta disso cada vez mais espaços para celebrar a vida e gerar felicidade. Fugindo de locais inóspitos ou então da SED (síndrome dos edifícios doentes).

Como passamos 90% do nosso tempo em espaços fechados, faz todo sentido a preocupação com a saúde e o bem-estar dos edifícios, e das sensações que seus ambientes podem provocar. Impactando para o bem ou para o mal os sistemas cardiovasculares, endócrino, nervoso, respiratório, imunológico das pessoas. Como também, estimulando ou não os chamados hormônios da felicidade, a endorfina, dopamina, serotonina e oxitocina. Estudos técnicos e científicos estão a afiançar as correlações diretas do ambiente construído com as reações do corpo humano.

E o mundo parece interessado em medir e conferir os benefícios gerados pelo tal estado de felicidade. O relatório Global da Felicidade editado pela ONU, o Conselho Global da Felicidade formado por agentes de governo e empresários, o ministério da Felicidade de Dubai, o orçamento e a economia do bem-estar da Nova Zelândia e a troca do PIB (produto interno bruto) pelo FIB (felicidade interna bruta) promovida pelo Butão, são demonstrações claras de que conhecer, incentivar, medir e avaliar padrões de felicidade praticados nos edifícios, bairros, cidades, regiões ou países, vem se multiplicando e ganhando relevância. Afinal como nos ensinou o poeta “é melhor ser alegre do que ser triste”. E cá pra nós, chega de sofrência.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana

  • Texto originalmente publicado no site https://novaiguassuonline.com.br
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