Arquitetos, profissionais fundamentais no novo normal do mundo pós-pandemia

Projeto do arquiteto Indio da Costa valoriza varanda, ventilação e iluminação naturais

A crise do novo coronavírus evidenciou a importância de vários setores. Um deles, sem dúvida nenhuma, é a arquitetura. Seja para residências, escritórios, fábricas, parques e outros espaços urbanos, shoppings, hospitais, hotéis o mundo nunca precisou tanto de arquitetos. Profissionais já repensam os ambientes. Ainda não é possível fechar números de crescimento de demandas, mas já é possível perceber uma grande movimentação no mercado que põe este profissional em destaque. O Rio Capital Mundial da Arquitetura ouviu profissionais de arquitetura, mercado imobiliário e construção civil sobre o assunto.

O arquiteto e urbanista Luiz Eduardo Indio da Costa, presidente de honra da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA) que sempre teve como foco a arquitetura saudável, por exemplo, acredita que por um período longo as pessoas conviverão com o vírus e prevê que os profissionais, e não só os arquitetos, terão que rever seus projetos.

Para Indio, o desafio maior está nas áreas mais pobres e informais das cidades, onde famílias numerosas dividem espaços pequenos, nada saudáveis, o que deve ser revisto por arquitetos e governos.

– Não é possível ficar em casa o tempo todo quando seis pessoas ocupam um quarto pequeno. A pandemia, no seu lado positivo,  trouxe a reflexão para a necessidade de procura emergencial e internacional, por uma sociedade mais justa. O homem desenvolveu tecnologias nunca antes pensadas como ir à lua e a outro planeta, mas não conseguiu ainda acabar com os nossos problemas mais primários, como a fome e com problemas de habitação. Arquitetos não têm como resolver esta questão sozinhos, precisam do apoio da legislação, da sociedade em geral e dos líderes políticos do mundo inteiro. A partir de agora será preciso ter mais atenção com a saúde também. É hora de unir esforços -, resume.

Ele pondera, no entanto, que é difícil improvisar soluções com tantas variáveis surpreendentes e que é necessário mais tempo para repensar a cidade e o mundo em geral:

– Quem não está confuso agora não está bem informado -, diz.

Ele já percebeu que ocorrem pelo menos dois movimentos importantes, embora ainda embrionários, no comportamento da população, que também deverão se refletir no trabalho de arquitetura: uma migração para moradia longe dos grandes centros urbanos e a manutenção de home working em função da pandemia.

– As grandes cidades viraram bombas relógios que terão que ser repensadas. A procura por terrenos na serra, no campo e na praia está maior. Algumas famílias optaram por isso neste período de quarentena e outros trabalham em casa no período de isolamento social. Ambos adotaram as mudanças. Alguns podem permanecer nestes lugares afastados, visitando esporadicamente o bairro onde moravam. O inverso do que era feito antes da realidade da Covid-19 -, explica Indio.

Indio avalia que durante muito tempo a tecnologia incorporada à arquitetura fez esquecer preocupações importantes da arquitetura tradicional, como a orientação solar e a ventilação cruzada que permitem controle natural de temperatura e higienização através de raios de sol e correntes de ar. Prédios empresariais seguiram modelos internacionais nada saudáveis, com amplo uso de ambientes fechados e com ar condicionado obrigatório.

Luiz Eduardo Indio da Costa: “Desafio”

– A tecnologia nos propiciou certa liberdade, mas se esqueceu de alguns princípios básicos de saúde na arquitetura. Ficamos com umaarquitetura  de volumes limpos e definidos, quando deveria ser

mais orgânica. Precisamos valorizar ambientes, sobretudo residenciais, com varandas, porões e beirais, tão importantes para uma arquitetura saudável nos trópicos-, resume.

Atualmente ele tem se dedicado mais à busca de soluções para o ar condicionado, que é um foco de contaminação principalmente em espaços corporativos. E ressalta que ainda está no início, mas os estudos se direcionam para o uso de lâmpadas AVC nos aparelhos para eliminação dos vírus (leia sobre o assunto em https://capitalmundialdaarquitetura.rio/rio-capital-mundial-da-arquitetura/profissionais-orientam-sobre-seguranca-na-reabertura-dos-escritorios-no-mundo-pos-covid-19/).



Valorização da profissão
Unir esforços também é uma das palavras-chave para a regional Rio de Janeiro da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA-RJ) neste momento mundialmente tão complexo. Tanto que a diretora de Marketing da entidade, Gisele Taranto, iniciou uma campanha destacando a importância do trabalho do arquiteto no período pós-pandemia.

– Quando o comportamento do indivíduo muda, é necessário mudar também os espaços onde a vida acontece. Nos momentos de crise muitas vezes esquecemos que a união em prol de um bem comum e maior é possível. A campanha é de valorização do arquiteto”, frisa Gisele.

A campanha ‘Arquitetura em foco’ envolve postagens diárias de depoimentos de profissionais sobre o assunto no Instagram da entidade. Até sábado (27/06) foram publicados textos de Celso Rayol, Ivo Mairenes, Indio da Costa, Jorge Astorga, Fábio Bouillet, Mariangela de Moura e da Baggio e Carvalho Engenharia. Acompanhe pelo endereço https://www.instagram.com/p/CBtGBdVF3n1/?igshid=av797ykkjimi e veja no final desta reportagem alguns depoimentos.

Gisele Taranto: campanha de valorização do arquiteto

Gisele criou a campanha ao ler o artigo ‘Por que os arquitetos são importantes em um mundo pós-pandemia’, escrito por William Richards e publicado no American Institute of Architects (AIA). Em seu texto, William Richard fala o mercado e relaciona às condições atuais, quando os arquitetos precisam associar preocupações com a Covid-19, não apenas sobre a reabertura econômica, mas também a reabertura de todos os espaços daqui para a frente.

Desafio da arquitetura: rever espaços urbanos e outros ambientes para adequá-los Foto: Marco Antônio Resende/ Prefeitura do Rio

A partir de agora, existe uma necessidade real de arquitetos aplicarem suas habilidades de solução ao problema único e difundido de repensar ambientes inteiros. Precisarão propor soluções padronizadas para riscos patogênicos e, simultaneamente, projetar para atender às necessidades exclusivas de clientes, proprietários, ocupantes e, de fato, futuras gerações de ocupantes, segundo William Richard.

Gisele Taranto acompanha as movimentações do mercado através de seu trabalho na AsBEA e em seu escritório Gisele Taranto Arquitetura. E percebe que o home office é inevitável no pós-pandemia. Ela está certa de que muita coisa está sendo reformulada porque a casa passou a ser escola, academia, playground, escritório e os espaços públicos merecem atenção diferenciada.

– Para que o trabalho remoto funcione adequadamente em nossas residências, serão necessários espaços com privacidade, cadeiras confortáveis, mesa apropriada na altura correta, excelente internet cabeada, iluminação e acústica adequadas -, explica Gisele.

A volta ao escritório também revela problemas sérios, como ambientes com janelas que não abrem, aparelhos de ar condicionado que representam perigo na disseminação do vírus, alerta.

– Espaços têm que ser analisados caso a caso, daí arquitetos serem fundamentais para retomada das atividades em todo o mundo. É hora de reinventar. E nós, profissionais da área, temos um grande desafio pela frente porque todos os ambientes, áreas abertas e fechadas têm que ser repensadas -, esclarece a diretora da AsBEA.

Construção civil é um termômetro
O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio (Sinduscon-Rio), João Fernandes, reforça a visão de Gisele Taranto de que os arquitetos têm muito trabalho pela frente e a de Indio da Costa de tendência de investimentos fora dos grandes centros urbanos. Ele defende a transformação de escritórios em moradias pequenas, onde as pessoas que mantiverem trabalho presencial na empresa passem os dias úteis e voltem para suas casas amplas, mais afastadas, nos fins de semana. O mesmo poderia ser feito em alguns hotéis, segundo ele.

– Para que isso ocorra, precisamos de apoio da legislação e tudo passa primeiro pelos arquitetos. Além das moradias pequenas para dias úteis, as famílias vão querer as casas preparadas para passar a maior parte do tempo com todos os membros -, acrescenta.

Ele cita também que arquitetos terão que se empenhar para projetar obras em favelas, que precisam ser reformuladas, e fazer grandes estruturas de saneamento básico. 

João Fernandes: “Tudo passa primeiro pelos arquitetos”

– No Brasil, 100 milhões de pessoas vivem em áreas sem saneamento básico e agora terão a oportunidade de, nos próximos anos, ser inseridas nas redes. Saúde para todos. Estudos do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB) apontam que cada real investido em saneamento básico gera uma economia de R$ 4 em gastos em saúde. Dados do Instituto Trata Brasil também demonstram que cada R$ 1.000 investidos na ampliação da infraestrutura de saneamento do país resultaria em economia de R$ 1.700 em ações sociais de longo prazo. O caminho é este -, lembra.

Mercado imobiliário percebe mudança de interesse
Para o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ), Claudio Hermolim, ainda é cedo para garantir os caminhos que serão trilhados. Mas independente das movimentações dos consumidores, os arquitetos realmente estão em alta. Segundo ele, durante a  pandemia, as pessoas estão preocupadas em melhorar seus espaços, criando áreas de trabalho e estudo para toda a família e valorizando áreas externas como varanda, terraço ou garden nas moradias. Além disso, querendo bons visuais de suas janelas.

– O arquiteto é o profissional capaz de dar soluções para estas questões, transformando espaços para melhor oferta de vista, aproveitamento de terrenos, proporcionar silêncio no ambiente. E são mudanças menos onerosas e urgentes -, analisa Hermolim.

Claudio Hermolim: “O arquiteto é o profissional capaz solucionar estas questões”

Pesquisas da Ademi como a ‘Mercado Imobiliário em tempos de Covid-19’, feita em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, indicam alteração na percepção do que é importante para as pessoas durante a pandemia. Houve maior procura por aluguel de imóveis fora dos grandes centros, interesse em compra de moradias mais amplas, mas a decisão por mudança de endereço pode demorar um pouco.

– Houve mudança de perfil na comercialização. Mas não sabemos se permanecerá. Do interesse até a compra do imóvel há um tempo relativamente longo, por ser um bem de alto investimento. As pessoas querem olhar, pensar, repensar, discutir, negociar. O que vivenciamos nos 100 dias de isolamento social não significa a lógica que vai valer depois -, pensa o presidente da Ademi, na mesma linha colocada por Indio da Costa, de que ainda é preciso analisar o cenário diante da crise da Covid-19.

Claudio Hermolim acredita que bairros da Zona Oeste no Rio como Vargem Grande, Recreio do Bandeirantes e Jacarepaguá têm atrativos mais valorizados durante a pandemia, como condomínios de casas.

Pesquisa ‘A influência do Coronavírus no mercado imobiliário brasileiro’, feita pelo Zap Imóveis durante a crise da Covid-19, atesta que a proximidade ao trabalho é mais mencionada pelos que desejam alugar um imóvel. Dentre as características citadas espontaneamente pelos entrevistados que participaram da pesquisa, questões relacionadas à estrutura do imóvel (com quintal, varanda com churrasqueira, etc), vaga de garagem e proximidade com transporte público foram realmente as mais citadas como importantes no novo imóvel que se deseja após o novo coronavírus.

Ainda de acordo com a pesquisa, sete em cada dez entrevistados declaram que morar perto de comércios e serviços passou a ser importante ou muito importante depois do isolamento social. Além disso, varanda, vista livre e ambientes mais bem divididos são características do novo imóvel consideradas importantes ou muito importantes por mais de 50% do público no pós-pandemia.

Por uma motivo ou por outro, arquitetos terão que arregaçar mais as mangas a partir de agora. É incontestável. Mãos à obra.

Veja alguns depoimentos da campanha da AsBEA:

Ernani Freire:
“Subitamente o mundo mudou. E foi o mundo todo!
De um dia para o outro fomos invadidos pelo medo, pelo imprevisível e descobrimos, perplexos, o quanto o mundo é frágil!

Nada que eu me lembre foi parecido. Nem mesmo as guerras, o onze de setembro, o HIV.

Agora foi o mundo inteiro, praticamente de uma só vez.

Por outro lado, temos diante de nós uma oportunidade única de mudar o mundo. Crise = oportunidade.

Seria imperdoável voltar para o mesmo lugar de onde partimos…

Nós Arquitetos, na prática do nosso ofício, temos um papel importante no redesenho desse mundo novo!

Lembrei e queria registrar aqui, de algumas notas, de maior ou menor importância, que me ocorreram para nossa reflexão e que acho que deveriam ser incluídos nas agendas de nossas pesquisas, discussões e no exercício projetual: 

. O redesenho da cidade, em todas as escalas, desde as unidades de habitação, dos espaços de trabalho, da calçada, da rua, repensar a escala de proximidade entre as diversas funções da cidade, propor um novo arranjo no zoneamento, criando núcleos com 

   essas funções agrupadas, evitando longos deslocamentos,

. Em vez de expandir as cidades, descobrir e ocupar os vazios urbanos existentes – que são muitos – facilitando a implementação de saneamento básico e infraestrutura urbana,

. Repensar os equipamentos de deslocamento vertical,

. Utilizar “soluções naturais” de climatização, incorporando a geografia nos projetos, levando em conta componentes como orientação solar, ventos dominantes, ventilação cruzada, elementos de sombreamento, por exemplo – como fez tão bem a boa arquitetura moderna brasileira dos anos 30/70. Já fomos muito mais verdes!

. Incluir o uso de novos equipamentos públicos com facilidades de higiene pessoal, como lavatórios comandados por pedal nos espaços públicos,

. Rever os programas de arquitetura, redefinir a espacialidade e o dimensionamento dos ambientes, particularmente no mercado imobiliário

. Investir no desenho de pequenos parques e áreas de lazer, lugares de encontro, lembrando que o uso dos espaços públicos é uma característica importante dos habitantes do Rio,

. Entender que o desenvolvimento de novas tecnologias digitais (de comunicação à distância) é importante, mas não deve contribuir e incentivar o afastamento entre as pessoas,

. Lembrar sempre que moramos e trabalhamos no Rio de Janeiro, cidade com grande diversidade e paisagem (natural e construída) notável, que lhe deu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Temos um acervo arquitetônico variado e inigualável com 

  muitos e muitos prédios de qualidade arquitetônica e construtiva com possibilidades de serem objeto de projetos de requalificação: esses prédios além de referências urbanas importantes são a memória e identidade da cidade.

Temos que pensar que mesmo com a provável descoberta da tão desejada vacina, precisamos preparar nossas cidades, casas e espaços de trabalho para que outras eventuais ocorrências como esta sejam enfrentadas com menos perdas e menos sofrimento!

Na minha opinião é esse, colegas Arquitetos, o nosso trabalho e a nossa contribuição para construir um mundo novo, melhor, mais forte e socialmente mais justo”.

Ivo Mairenes:
“A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui.”  
Yves Saint LaurentComo esses abraços ficaram distantes durante esse período da Covid-19, nós, costureiros de espaços estamos também aqui. E que podemos fazer por essa mulher ou homem, momentaneamente privados do calor da presença física?  Muito se vê e desenha do que vai se dando o nome de “novo normal”: divisórias de policarbonato, cones de acrílico, túneis de descontaminação começam a povoar a imaginação dos incautos. Nada, absolutamente nada, substitui o calor humano. É dele que vamos precisar, aliás, sempre precisamos. Não são túneis, cones e divisórias  o projeto do novo momento e sim locais de encontro, de ventilação natural e pleno contato com a natureza. O que percebemos nesse momento é que dividir é ruim. O que nos falta são os braços das pessoas amadas; e é justamente após esse momento de falta, que nós arquitetos poderemos mostrar a nossa contribuição, projetando espaços propícios para uma vida mais saudável e não barreiras de qualquer espécie”.

Leia o artigo de William Richard, publicado no AIA: https://www.aia.org/articles/6295249-why-architects-matter-in-a-post-pandemic-w

Rio Capital Mundial da Arquitetura
O Rio de Janeiro é a primeira Capital Mundial da Arquitetura, título inédito conquistado pela Prefeitura do Rio e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e pela União Internacional de Arquitetos (UIA). Ao longo de todo o ano de 2020, a cidade sediará uma série de eventos, entre eles o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, exposições e concursos públicos, adiado para 18 a 22 de julho de 2021, devido ao surto de coronavírus no mundo. Além de mostrar para o mundo a riqueza arquitetônica do Rio, esta titulação é também uma oportunidade de reflexão sobre o futuro, de planejar o que se quer para as cidades de todo o mundo.UIA 2021 Rio
Com o tema “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21” e expectativa de público de 20 mil profissionais da área, o 27º Congresso Mundial de Arquitetos vai transformar o Rio no epicentro do debate sobre o futuro das cidades do mundo. Promovido pela União Internacional de Arquitetos (UIA) e com a organização do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o evento convida especialistas e entusiastas de cidades mais dinâmicas, justas e sustentáveis a debater soluções inicialmente entre os dias 19 e 23 de julho de 2020 (devido à pandemia de Coronavírus no mundo, a data foi adiada para 18 a 22 de julho de 2021). O Congresso conta ainda com eventos preparatórios e paralelos, como exposições, seminários e workshops, que acontecem por todo o país.

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