Arquitetos renomados falam de seus projetos, com foco na sustentabilidade de edificações

Um dos imóveis projetados por Sérgio Caldas: conforto, economia e natureza.

MEIO AMBIENTE

Eles são referências na busca constante de soluções que conciliam fatores sociais e econômicos e se destacam pela preocupação em implementar tais práticas em seus projetos, de olho na preservação da natureza  e, ao mesmo tempo, na elevação da qualidade de vida da população. Dando sequência à série de matérias com foco na sustentabilidade nas edificações, em homenagem ao mês dedicado ao Meio Ambiente, publicamos nesta sexta-feira, 12/06, entrevistas com quatro renomados arquitetos.
Ideias sustentáveis para construções, incluindo hospitalares e habitações permanentes para idosos, produção de energia limpa, transportes e ações individuais, estão cada vez mais valorizadas e aceleradas.  Ruy Rezende, Sérgio Caldas, Sylvia Rola e Aníbal Sabrosa, foram convidados a falar sobre o assunto ao Rio Capital Mundial da Arquitetura (RCMA). As fotos foram gentilmente cedidas pelos entrevistados. Confira:

SÉRGIO CALDAS: MORAR FORA DOS GRANDES CENTROS E TRABALHO REMOTO VIRAM TENDÊNCIAS

Sérgio Caldas: “Centralidade passa a ser escolha e não necessidade”

Um dos arquitetos e urbanistas mais respeitados do Brasil, Sérgio Conde Caldas – sócio fundador do escritório SCC Arquitetura e da empresa Opy Soluções Urbanas, e diretor de planejamento da Concal Construtora – é daqueles profissionais que erguem a cabeça para enxergar oportunidades e lições perante a graves crises, como a pandemia da Covid-19. Em entrevista ao Rio Capital Mundial da Arquitetura (RCMA), ele diz que o momento atual, “de valorização das habitações, mesmo de forma forçada”, desperta, na sua visão, para a importância da percepção e reflexão da arquitetura contemporânea, muito pouco consumida, na sua opinião, e um urbanismo consciente, ainda menos presente.

– A racionalidade na arquitetura, que faz parte do meu DNA, está também intimamente ligada à sua qualidade. A construção civil é responsável pelo desenvolvimento formal das cidades, na evolução e qualificação urbana, no sentido que a sua produção gera impactos muito mais amplos que seus utilizadores diretos. Dessa forma, a qualidade dos projetos se reflete na urbe como um todo, em aspectos extremamente profundos – afirma Caldas, dizendo que o momento atual também é ímpar para que a sociedade repense a qualidade dos espaços públicos e da mobilidade urbana.

Sérgio Caldas, que lidera uma equipe de quase 100 colaboradores, lembra que ao longo de sua experiência profissional, acabou desenvolvendo a questão técnica para que atendesse a cada vez mais demandas de sustentabilidade de objetos arquitetônicos, tanto do ponto de vista do usuário, quanto do ponto de vista do empreendedor. Princípios de sustentabilidade, destaca ele, estão nas soluções arquitetônicas ancestrais, simples e de conforto, como ventilação cruzada, incidência solar controlada, entre outros fatores.

– Nós vivemos durante anos, dois paradigmas que influenciaram e  influenciam nossas cidades: A Revolução Industrial e o Modernismo. Cada um da sua forma e medida tiveram acertos e erros. Hoje conseguimos ver com muita clareza os erros e tivemos entre eles a sorte em termos normas urbanísticas e de proteção a paisagem e ao patrimônio, construído de forma definida, o que fez da cidade, Patrimônio da Humanidade como Paisagem Cultural Urbana.

Para Sérgio Caldas, os governantes têm papel de fomentar a sociedade com a abertura para diálogo sobre a legislação do setor. Novos desafios, de acordo com o arquiteto, surgem dentro desse dinamismo.

– A maturidade vem daí, para que possamos tratar de pautas mais importantes, que hoje esbarram na complexidade. Esse aculturamento gera crítica e percepções significativas, como é o caso da eficiência nas construções, do uso, por exemplo, racional da água e da energia, geradas com painéis solares, entre outros. O governo tem a missão de fomentar essa economia, baseada em estímulos para sua produção – opina.

O arquiteto ressalta que empreendedores do ramo têm perfeita noção do que devem desenvolver para atender as leis em vigor, tornando uma necessidade comercial nos projetos e  que passa a ser implementada naturalmente. Imóveis corporativos e hotéis, buscam mais esses tipos de soluções eficientes, por terem uma operação mais baixa.

– Há uma percepção na ruptura do caminho contemporâneo nos centros urbanos requalificados. A mobilidade urbana é um dos assuntos. Os automóveis, por exemplo, estão perdendo o protagonismo que tinham no Modernismo. O compartilhamento está ligado a vida prática, a facilidade de serviços, a densidade e multiplicidade de usos. A reconversão de edifícios antigos e a revalorização e ativação da ruas e praças também. Por outro lado, não há mais caminho possível para a lógica do espraiamento das cidades, com baixa densidade a custos de mobilidade e infra-estrutura altíssimos, e sem todos esses valores reconhecidos

Moradias longe dos centros urbanos elevam a qualidade de vida da pessoas

Morar fora dos centros urbanos e com qualidade já fazem parte da nova realidade

Ainda conforme Sérgio, o fato novo, acelerado pela pandemia, é que as pessoas estão percebendo que é possível morar fora dos grandes centros, com muito mais qualidade, integrados a natureza, a preços muito mais baixos que os grandes centros, com a possibilidade de se trabalhar remotamente. Isso influencia positivamente, em algumas localidades, até no desafogamento do trânsito.

– Afinal, se é possível trabalhar e estudar remotamente, a centralidade passa a ser uma escolha e não uma necessidade. Acredito que isso será uma possibilidade de demanda crescente e gerando uma tendência de reconversão dos espaços corporativos como um exemplo desse efeito – acredita.

Mercado imobiliário informal ainda é um desafio

O mercado imobiliário informal, segundo Sérgio Caldas, “é uma realidade crescente, organizado e preocupante”. A escassez de políticas habitacionais e de cidade ao longo de décadas contribuíram para que milhares de pessoas fossem viver em habitações informais.

– O direito a moradia e moradia com qualidade é inegável. É um problema complexo e que não deve ser tratado com tanta simplicidade. Porém, alguns pontos me parecem determinantes para alavancar uma evolução rápida em relação ao assunto. Solucionar a questão fundiária e uma inserção gradativa da cidade formal, sem a ruptura de zoneamento e densidade existentes na nossa cidade, são dois deles. Projetos urbanos e de infraestrutura de qualidade, que tratem e se aproximem das reais necessidades de cada comunidade, é outro ponto – observa.

Ainda de acordo com Sérgio, dentro desses pontos, a saúde e educação são assuntos prioritários, assim como um programa de reocupação de imóveis devolutos do município, estado e união. 

– Via de regra, estes imóveis estão em áreas importantes e centrais da cidade e podem se tornar opções de moradia dignas e de produção, a custos mais baixos – destaca.

Novo Código de Obras traz avanços

Mesmo diante de desafios habitacionais históricos, mudanças na legislação carioca de urbanismo e edificações, têm favorecido e aumentado a sustentabilidade nos empreendimentos, na concepção de Sérgio Caldas. Para ele, o novo Código de Obras ajudou muito nesse aspecto, adequando edifícios às necessidades atuais da legislação.

– O anterior tinha uma lógica de estímulo à construção de áreas desnecessárias, não mais demandadas, e ao uso de carros com necessidades defasadas, gerando áreas destinadas a estacionamentos. Hoje se constrói menos áreas para o mesmo edifício. Existiam muitas barreiras volumétricas, como restrições em varandas, brises verticais, segunda pele. Fatores que, pelo nosso clima, deveriam ser estimulados para conforto térmico – diz.

Em 2012, recorda Sérgio Caldas, foi criado um decreto específico, que instituiu o chamado Selo Qualiverde, que acabou, no seu entender, resultando em pouco efeito positivo para o setor.

– Tinham os estímulos (para a obtenção do selo), porém não foram na direção correta. Entendo que não foi previsto no decreto a questão do produtor imobiliário, que poderia ter descontos de impostos durante a construção, como ISS e IPTU, já que o usuário teria o benefício do custo mais baixo da operação e dos concessionários, pela eficiência na construção – explica, defendendo a renovação da lei do uso do solo, assim como  a lei de reconversão e retrofit, importantes importante na manutenção do patrimônio histórico, previstas no Código de Obras, mas ainda não regulado.

Caldas diz ainda reconhecer que a questão da sustentabilidade é transversal à sociedade e uma necessidade planetária.

– A realidade das edificações no Rio de Janeiro tem se alterado rapidamente e para melhor. O impacto real na cidade só se dá em soluções aplicáveis e aplicadas a média e grande escala. Quanto mais difundida essa cadeia produtiva, mais barata é sua implementação nos projetos. As soluções aplicadas a renda alta, apesar de importantes porque incentivam outros, são uma gota no oceano. O uso racional da água, da luz, o tratamento do esgoto e do lixo, são importantes em todas as classes, sem distinção.

RUY REZENDE: O GOSTO DE FAZER SIMPLES O COMPLEXO

Desde 1999, todos os seus projetos são alinhados com a sustentabilidade. O texto de abertura da apresentação do arquiteto Ruy Rezende, sócio-fundador da RRA, deixa claro a essência do trabalho desenvolvido pelo arquiteto e sua equipe que, segundo ele próprio, gosta de fazer simples o complexo. Boas referências nessa área não lhes faltam, afinal, grandes empreendimentos corporativos, entre eles o primeiro LEED Core & Shell na América Latina – o segundo fora dos EUA-, do Edifício Cidade Nova,  Universidade Petrobras e Parque Madureira, que ostenta o primeiro certificado de qualidade ambiental AQUA atribuído a um espaço público brasileiro, são alguns exemplos. Trabalhos que exigem sensibilidade, capacidade profissional, comprometimento, dedicação e responsabilidade, marcam seu escritório, que atua nas áreas da arquitetura, urbanismo e paisagismo.

Carioca por adoção, como se define, Ruy mora no Rio há 60 anos, desde os nove de idade, quando chegou de São Paulo, sua terra natal. Ao longo de 43 anos de prática profissional, o arquiteto calcula ter assinado mais de 2 milhões de metros quadrados em edificações, que representam investimentos da ordem de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,4 bilhões). São prédios com a arquitetura voltada para o mercado empresarial,  baseados em funcionalidade e conforto, economicidade na instalação e uso.

– Calculo ter estudado algo em torno de uns 60 a 70 prédios corporativos nos últimos 12 anos na cidade do Rio de Janeiro. Doze foram construídos e habitados – orgulha-se.
Para explicar o sucesso de suas construções,  Ruy diz que  o caminho da sustentabilidade é  “a retomada pelo homem da consciência da finitude e de irmandade com a natureza”.  Para ele, ações coletivas, a partir desta consciência, vêm mudando a maneira de encarar o meio em que o homem vive, principalmente no respeito que as relações antrópicas, sejam de qualquer ordem, interagem com o universo.

– Felizmente a sociedade como um todo,  com exceção de alguns poucos, adquiriu esta consciência. Por exemplo, no segmento corporativo, não há corporação ou investidor que não compactue com esta percepção, colocando-a como ponto prioritário e exigível em seus projetos. Nossos projetos tem no seu DNA esta cultura, ampliada dia a dia sempre por uma percepção holística de como estamos vivendo, e a partir disto, nos estudos decorrentes desta percepção – atesta.

Isolamento social serve para novas percepções da realidade

Ruy Rezende diz acreditar que a obrigatoriedade do isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19, tenha acendido alguns alertas na sociedade, entre eles, questionamentos como: quem somos, como somos e quais os valores que prezamos.

– Acostumados aos progressos  dos últimos 200 anos, a pandemia nos trouxe a uma outra realidade.  A realidade  que já sabíamos, aliás. Do caminho equivocado na forma de viver e de nos relacionarmos com o nosso ambiente. Desde o tangível fisicamente ao intangível da internet e sua nuvem, surgem novas oportunidades na maneira de viver, seja em família, socialmente ou no trabalho – avalia Ruy.

Para Ruy, o quanto e quando o ser humano irá conseguir absorver e introduzir novas condutas em comunhão com a natureza em sua vida, ainda é uma incógnita e um desafio. Mas ele se diz otimista, apostando em grandes avanços futuramente.

“Todos ganham com ações sustentáveis”

Todos ganham com as ações sustentáveis, afirma Ruy, lisonjeado por seus prédios contribuírem para isso. Ele diz que se sente feliz e que seu empreendimento pode mudar seu entorno, de forma imediata, contribuindo positivamente com o meio ambiente.

–  Porém, somos uma gota no oceano. Precisamos efetivamente de políticas públicas que visem a grande maioria da população, moradias bem pensadas, saneamento, transporte público, e, em especial, o cuidado com a saúde e educação – comenta.

Ruy lembra que o uso extrativista de matérias primas na construção civil precisa ter uma discussão mais ampliada na sociedade. Além do petróleo, lembra ele, onipresente em todo o nosso entorno e processos.

– Algumas alternativas vêm sendo estudadas, mas nada implementado ainda na escala industrial da construção civil. Outras maneiras de construir  as edificações vêm sendo pesquisadas e desenvolvidas, porém ainda estão majoritariamente no campo da pesquisas – comenta.

Sobre os selos internacionais de sustentabilidade voltados para as edificações e estudos, como o da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil, que apontam quesitos para uma edificação sustentável, Ruy disse que se trata de um tema amplo, complexo e não genérico.

– Mesmo nos projetos mais comuns, pontos como o reservatório de águas para reuso, quem determina a sua viabilidade não é a demanda, mas sim a oferta. Por este exemplo, o que nos parece óbvio, pode não ser e por isto falo da amplitude da questão. O conhecimento, a pesquisa, a maturação sobre os pontos que modelam e interagem com a intenção do projeto, é o que indico como ponto de partida. O mercado, se não tiver a solução ou produto que atenda estas demandas, dependendo, pode ir buscá-las – pondera.

Parque Madureira: “O sentimento de pertencimento por parte da comunidade me emociona”

O Parque Madureira, que leva a assinatura de Ruy, é uma das construções mais elogiadas no mundo inteiro nos últimos anos. O arquiteto ressalta que o sentimento de pertencimento da população, despertado pelo projeto, é o que mais o emociona.

– A recuperação da cidade por esta área, mostra que sempre que o poder público desejar, é possível concretizar esta intenção. As ações do projeto foram muito amplas, visando sempre as pessoas, o bem estar dos moradores. E que acabam envolvendo também diversos outros aspectos como educação, saúde,  conscientização do meio ambiente, prazer no lazer contemplativo, no interativo, no social, e no esportivo, enfim, uma contribuição que melhora as condições de viver para os cidadãos – exalta.

Hoje, 20 colaboradores, segundo ele, pensam 24 horas por dia sobre como fazer arquitetura para o bem estar das comunidades.

– Sempre persegui o momento em que se vive, ou seja, pretensamente ser contemporâneo. Penso que ser contemporâneo é ser atemporal, pode ser identificado em alguma época de algum calendário, mas sem modismo ou rotulações.

Trechos degradados ganham vida nova no Rio de Janeiro

As marcas de Ruy Rezende estão por toda parte da cidade, mais especialmente entre a Cidade Nova e a Zona Portuária. Localidades antes degradadas, se transformaram com suas edificações. Só na região do Porto Maravilha, foram estudadas inúmeras intervenções. E implementadas pelo menos seis delas. Entre os maiores destaques está a nova sede da L’Oréal, na Avenida Barão de Tefé.

A região da Cidade Nova, em especial nas áreas remanescentes à chegada do Metrô, Sambódromo, entre outras, pela mudança de uso ou atividade, é citada como exemplo desse tipo de exercício de busca de soluções, pois possibilitou um terreno fértil a novos usos e incorporações.

– Tivemos o privilégio de começar esta nova era, com um modelo de projeto que perpassa aos limites dos terrenos e edificações, para olhar seu entorno imediato. Por este olhar, conseguimos uma reurbanização, feita integralmente pela iniciativa privada, para o lado Norte da Cidade Nova. Temos concluídos nesta parcela da cidade, os seguintes projetos: Petrobras, com a sua Universidade corporativa, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), BR Distribuidora, Cedae, Eco Sapucaí e Infoglobo – enumera.

Previsto para ser concluído em setembro deste ano, um projeto de requalificação urbana, com a construção de dezenas de unidades em dois prédios populares, para o reassentamento de famílias vulneráveis daquela região, vão dar nova paisagem ao lado Sul da Cidade Nova.
E a máquina de produzir projetos sustentáveis, tocada atualmente por 20 colaboradores, não para na RRA.

– Temos em cima da mesa neste momento, seis grandes projetos, entre edifícios corporativos, residenciais e urbanos, que serão erguidos entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso – adianta Ruy.

ANÍBAL SABROSA: “AGENDA VERDE SE CONSTRÓI COM FATORES ECOLÓGICOS, SOCIAIS E ECONÔMICOS

Uma agenda verde é feita entre profissionais e a sociedade, onde fatores ecológicos se entrelaçam com fatores sociais e econômicos, buscando um equilíbrio que permita desenvolver uma arquitetura e urbanismo competentes e perenes. O conceito é perseguido pelo arquiteto urbanista,  Aníbal Sabrosa, sócio e fundador, em 1989, da RAF Arquitetura,  uma das mais influentes do VP da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBea-RJ) e conselheiro da mesma entidade paulista. Ele destaca que a premissa é ampla e percorre vários caminhos, mas objetiva manter a comunidade atual e preservar o futuro.

– Tive a oportunidade, quando era presidente da Asbea-RJ, de participar da criação do GBC Brasil (Green Building Council). Nos diversos fóruns foi possível verificar que o que se pretendia era criar uma cartilha, uma forma de se aferir, e assim buscar otimizar e melhorar performances e processos das construções. Uma boa arquitetura sempre busca um conforto ambiental, o correto uso de materiais e energia, um custo adequado, bom uso da água, entre outros fatores – afirma Aníbal especialista, junto com uma equipe de mais de 100 colaboradores, em projetos de interior, corporativo, saúde, infraestrutura, urbanismo, comercial, residencial e restauro.

 Podemos então considerar que uma boa arquitetura nos trará um edifício sustentável? Aníbal ressalta que a sustentabilidade está na integração dessas construções com a cidade, com a mobilidade, com a infra-estrutura.

–  Nem em todos projetos conseguimos aplicar todos os itens, mas perseguimos aplicar todos os itens em todos projetos – resume o arquiteto, formado na Universidade Santa Úrsula em 1988.

Aníbal destaca que seu escritório busca desenvolver várias tipologias de projetos, o que permitiu a aquisição de experiência em campos específicos, e aplicação de diversas formas, passando por edifícios comerciais de alta performance, reabilitação de edifícios históricos (retrofits), edifícios residências, industriais e na área de saúde.

Os edifícios comerciais corporativos foram os primeiros a terem seus estudos relacionados a uma certificação, de acordo com o arquiteto. Por motivos óbvios, conforme ele, difere e exclui a possibilidade de um “design passivo”. 

– Nessa perspectiva, a tecnologia entra como componente fundamental. A arquitetura sempre evolui através do avanço da indústria, e é o que vem a colaborar para projetarmos um edifício mais eficiente, como é o caso do AQWA Corporate (concebido pelo escritório Foster & Partners, desenvolvido em parceria com a RAF, para a Tishman Speyer, na região portuária do Rio). Quanto mais se investe em itens ligados a eficiência de abastecimento de água, energia, climatização e manutenção, mais se economiza na sua vida útil – exalta.

Outro exemplo recente de edifício corporativo, lembrado por Aníbal, é o da sede da Rede Globo, na Rua Jardim Botânico, no Rio. Nele, buscou-se a transparência entre interior e exterior, onde as pessoas que circulam na rua pudessem “participar” do que acontece dentro do edifício. A escolha do vidro e sua caixilharia foi fundamental para garantir conforto ambiental interno, otimização de energia, e qualidade da paisagem, contribuindo com a beleza do ambiente urbano. Para ambos projetos foram priorizadas a eficiência e economia, com praticamente 100% de uso de materiais nacionais.

Em relação a retrofit, o edifício do Morro da Viúva, encomendado pela Construtora Cyrela, foi um desafio que trouxe satisfação ao grupo de Aníbal.

– Podemos entender que pelo fato de se manter sua supraestrutura já é um relevante parâmetro de sustentabilidade, mas pensando sobre a contribuição do edifício para a cidade, reabilitar o edifício, na bela paisagem do Aterro do Flamengo e seu exuberante verde, contribui enormemente para a qualidade ambiental, paisagem e imagem da região. O nosso colega Marcelo Parreira (gerente-geral de incorporação da Cyrela), mais que um cliente, foi um parceiro – detalha o arquiteto, explicando que internamente, foram feitas amplas adequações no prédio, onde se buscou melhorar a qualidade dos ambientes, e de suas instalações, adaptando-as ao modo atual de morar.

Habitações sociais para idosos: mix de residência e hotel

Na questão dos projetos para longa permanência de idosos, Aníbal Sabrosa diz entendê-los como um mix de edifício residencial e hotel. Para tal concepção, de acordo com o arquiteto, é fundamental a busca por um design passivo: uma boa implementação da ideia, trabalhar com amplas áreas abertas, iluminação natural e relação com a natureza através de rico paisagismo.

– Questões sociais e ecológicas devem estar relacionadas, sempre,  auxiliando, assim,na qualidade de vida dos usuários – comenta.

Nova arquitetura hospitalar é referência no setor

Na rede hospitalar, a RAF Arquitetura também virou referência. A empresa trabalhou para a Rede D’or São Luiz  desde seu primeiro hospital e para o Barra D´or. Atuou também em projeto para a Unimed, instituindo varandas nos quartos dos pacientes.
– Tem uma revista na RAF que a capa é o Barra D´or, com o título: “A nova arquitetura hospitalar”  -, orgulha-se.
Um hospital tem que visar a saúde, justifica Aníbal.

– Trata-se de de um ambiente de saúde e não de doença. Nesse sentido, novamente a indústria vem ao encontro da arquitetura. O constante avanço de equipamentos e procedimentos, nos faz projetar espaços flexíveis, onde o uso de materiais “secos”, de fácil remoção ou montagem, se faz presente. Áreas ventiladas naturalmente são frequentes, assim como áreas com severo controle ambiental – frisa.
Ainda de acordo com Aníbal, nos projetos voltados para as áreas de saúde e tecnologia, é notória a caça por soluções sustentáveis, com o objetivo de dar vida longa a esses tipos de edifícios, para se evitar que qualquer intervenção cause transtornos no cotidiano. 

– Quanto mais se investir numa boa arquitetura, menos desperdício no futuro – finaliza o sócio da RAF, que surgiu da união dele e dos colegas de faculdade, Rodrigo São Paulo Sambaquy e Flávio Kelner, arquitetos fundadores que emprestam suas iniciais ao nome do grupo. Posteriormente, entraram na sociedade Guilherme Carvalho, Henri Medala e Cynthia Kalichsztein. A RAF tem escritórios no Rio e São Paulo.

SYLVIA ROLA: TECNOLOGIA EXPERIMENTAL QUE ENSINA COMO POUPAR ENERGIA E INCENTIVA O USO DE FONTES RENOVÁVEIS

Ela e sua equipe conquistaram recentemente o primeiro lugar, em concurso nacional, na chamada pública Procel Edifica NZEB (Nearly Zero Energy Building) Brasil. Sylvia Meimaridou Rola, professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ), instituição que, em parceria com o Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (CEPEL), coordenou o desenvolvimento do projeto arquitetônico e complementares da edificação denominada “Nova Casa NZEB ”.

O momento é especial para ela e seu grupo vencedor – que tem 17 pessoas -, já que o projeto premiado servirá de modelo de referência ecoeficiente para o setor da construção civil. A finalidade é demonstrar ações de tecnologias e disseminação de conceitos na área de fontes renováveis, eficiência energética, papéis do novo consumidor de energia elétrica, arquitetura bioclimática, conforto ambiental e sustentabilidade.

– Diante da flexibilização da legislação brasileira de geração distribuída de energia elétrica, este projeto da Nova Casa Cepel NZEB, surge como uma oportunidade de demonstrar que um aspecto intrinsecamente tecnológico, a geração de energia por placas solares fotovoltaicas, pode estar harmonicamente integrado à arquitetura e promovendo uma resposta estética à sua inserção nos centros urbanos – detalha Sylvia, adiantando que a nova casa,  será aberta a visitações e abrigará atividades de capacitação e reuniões posteriormente.

De acordo com a arquiteta, o projeto congrega as seguintes características de sustentabilidade: aquecimento solar térmico de água, aproveitamento de água de chuva, aplicação do sistema de naturação em cobertura e fachada (telhado e parede verde), racionalização construtiva, instalações prediais aparentes, economizadores de vazão, iluminação eficiente em LED, iluminação e paisagística em LED, brises de atenuação térmica, painéis termo-acústicos, painéis solares fotovoltaicos, entre outros.

– Portanto, a principal vantagem é que todas estas características de sustentabilidade resultam na economia da energia operativa da edificação. Pensar que o custo de uma edificação está nos materiais que compõe a sua construção é um erro. Ou seja, não são os materiais de construção de baixo custo que vão garantir a economia da edificação, mas sim a quantidade de energia consumida ao longo de sua vida útil. Neste sentido, a inserção de técnicas e tecnologias de economia e de geração de energia, corroboram para o uso e operação eficiente da edificação – diz.

Professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Arquitetura (PROARQ/FAU/UFRJ), e coordenadora da linha de pesquisa “Energia, Espaço e Sociedade”, Sylvia diz que, de maneira simplificada,  a sustentabilidade é a melhor alocação dos recursos, como água e energia. E o caminho para a sustentabilidade se dá através da incorporação dos conceitos de conforto ambiental e eficiência energética.

– O primeiro passo é trazer para a discussão a importância da arquitetura bioclimática na elaboração de espaços que visem o abrigo das mais variadas atividades do humano, de forma adequada, confortável e eficiente – comenta.

Sylvia diz que há uma nova consciência em torno do assunto entre os profissionais do mundo da arquitetura, empresários do setor da construção e população em geral. De acordo com ela, é possível observar a sensibilização crescente entre os profissionais de arquitetura e que, cada vez mais, os cursos de Arquitetura e Urbanismo do país vêm formando esta consciência entre seus alunos, frente às questões de sustentabilidade.

– Por sua vez, atenta às mudanças, a indústria responde às demandas através da inovação. Já no caso da população, ainda observa-se um certo desconhecimento a estas questões, no entanto reconhece-se também uma abertura para novos conhecimentos. Na verdade, o papel do Arquiteto é também ser um disseminador de todo este conhecimento técnico de forma a traduzir os anseios dos clientes em arte e técnica – opina.

Isolamento social remete ao primeiro abrigo: a moradia

Sylvia destaca que  o isolamento social atual, em consequência da pandemia da Covid-19, remete diretamente ao primeiro abrigo: a moradia. Neste sentido, os alertas vêm dos tipos de moradias existentes na atualidade, onde de um lado as construções da cidade formal ainda seguem o código de obras, o qual delimita os espaços mínimos para ambientes e aberturas de janelas e, de outro, a informalidade crescente das favelas, derivada da inassertividade histórica do poder público, resulta em construções inviáveis e insalubres ao humano.

– A pandemia não só exacerba uma realidade já conhecida e muito difícil para uma grande massa da população que vive em ambientes exíguos, inadequados e insalubres, mas que, somada ao isolamento social, também condena a população de baixa renda a uma realidade de confinamento com baixíssimas chances de sobrevivência – adverte.

Mas, segundo a arquiteta, é importante destacar que os profissionais de arquitetura e urbanismo, os empresários da construção civil e o poder público devem atuar com empatia social, pois só assim, será possível evitar as distorções evidenciadas em construções, principalmente as voltadas para a habitação de interesse social. Ela deixa claro que a população, sobretudo das metrópoles, como o Rio de Janeiro, tem tudo a ganhar com a sustentabilidade.

– Habitar em uma construção sustentável, é como vestir uma roupa de algodão, pois esta será confortável e durável. Segundo o arquiteto austríaco Hundertwasser, temos cinco peles: a nossa epiderme natural, o nosso vestuário, a nossa casa, o meio ambiente onde vivemos e, a última, a pele planetária ou crosta terrestre onde todos vivemos. Desta forma, entender que esta sustentabilidade tem que ser abrangente e integrada é defender que todos tenhamos acesso aos recursos mais importantes à nossa existência: água e energia – exalta.  

 Assim, ainda conforme Sylvia, a metrópole do Rio de Janeiro precisa ser sustentável, não só para os seus moradores mas para os seus visitantes, pois torna-se commoditie de grande importância nacional e mundial para os mais variados negócios.

Sobre a estrutura de edificações, qualquer material de construção voltado para a sustentabilidade deve ser, antes de mais nada, não energo-intensivo. Ou seja, considerando que toda transformação de matéria demanda energia e que muitos destes processos também necessitam de água, quanto menor for o consumo de água e energia na produção dos materiais de construção, melhor.

– Dentre estes materiais, temos os não-convencionais, oriundos de matérias vegetais ou de resíduos da construção civil. No entanto, a dificuldade de sua produção em larga escala, resulta na sua exclusão da vasta lista de materiais de construção fartamente comercializados. O bambu, o adobe (barro não cozido), o BTC (bloco de terra comprimido), as folhas de palmeiras, são materiais típicos de construções vernaculares que, pela escala de construção dos grandes centros urbanos, perdeu protagonismo diante da industrialização – detalha.

No entanto, é cada vez mais abrangente a vertente ecológica no mundo e o setor da construção civil não tem ficado imune, tratando de reutilizar os resíduos de sua indústria.  Como exemplo tem-se: concreto com adição de pet, pneus descartáveis ou resíduo da indústria cerâmica, tijolos de entulhos, aço, o próprio concreto triturado como brita, gesso, EPS, entre outros.

A professora pondera, entretanto, que a reintrodução de materiais descartados no próprio ciclo de produção, reduz o consumo de matéria-prima e diminui o volume de resíduos e , consequentemente, mitiga a emissão de gases que intensificam o efeito estufa.  Dentre estes materiais estão principalmente duas classes:  onde a primeira refere-se à maior parte dos entulhos, como concretos, cerâmicas, pedras e argamassas, e a segunda, que trata de madeiras, metais, vidros, plásticos, gesso, etc.

Modelo econômico inadequado e limitação de recursos naturais precisam ser mais discutidos

 O grande empecilho para a sustentabilidade, no entendimento de Sylvia, é o modelo econômico vigente, o qual, frisa ela, visa o lucro em detrimento das pessoas.  A limitação dos recursos naturais, por sua vez, remete a uma reavaliação da relação da humanidade com o meio ambiente. Essa reavaliação conduz, no setor da construção civil, à busca de um conjunto de soluções e ações concretas que venham minimizar, reduzir o impacto ambiental.

–  A prova são as certificações ambientais que se mostram como instrumentos norteadores da sustentabilidade ambiental na construção civil, pois classificam o nível de desempenho ambiental de edificações construídas ou ainda em processo de construção – exemplifica.

Sylvia cita ainda como exemplo o Selo Procel, que foi o que norteou as decisões de projeto de sua equipe, resultando no prêmio de primeiro lugar e com o Selo A. 

– A oportunidade de construir esta obra e de torná-la um centro de visitação, resultará em uma tremenda ferramenta de difusão de conhecimento e principalmente de desmistificação de que, sim, uma edificação pode incorporar em sua estética a geração de sua própria energia e todos as demais características de sustentabilidade – finaliza.

Um pouco mais sobre o projeto vencedor

A Casa também será mais um espaço do Cepel, como braço técnico da Eletrobras, no apoio às atividades do Procel. Instituído pelo governo federal em 1985, o programa é executado pela Eletrobras e visa promover o uso eficiente da energia elétrica, combater o seu desperdício e reduzir custos setoriais. Atualmente, o Cepel já apoia as inúmeras iniciativas do Procel em seus laboratórios de iluminação, refrigeração e motores.

A previsão é de que a Nova Casa Cepel NZEB seja construída até o primeiro semestre de 2022 na Unidade Fundão do Centro. O orçamento estimado para o projeto é de R$ 2,2 milhões, sendo R$1 milhão de recursos do Procel. O Cepel vem se empenhando para obter o restante, R$ 1,2 milhão, junto a parceiros. Mais detalhes podem ser obtidos através do site www.cepel.br

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