Arquiteto carioca formado pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio é premiado na Holanda

A transformação de terrenos baldios em espaços públicos de convivência cativou o júri na Holanda. Imagem: Arquivo Pessoal/ Felipe Gonzalez

A arquitetura fluminense ganhou mais um destaque internacional, dessa vez na Holanda. O arquiteto carioca Felipe Chaves Gonzalez, de 27 anos, é um dos ganhadores do primeiro lugar da 40ª edição da Archiprix Netherlands, com seu projeto de mestrado intitulado “Bordas Permeáveis — Abordando conflitos multidimensionais entre comunidades polarizadas no Rio de Janeiro”. O trabalho foi orientado por Luiz M. de Carvalho Filho e Birgit Hausleitner, da famosa universidade de Delft (TU-Delft), nos Países Baixos.

Felipe Gonzalez: Oportunidade de ressaltar a importância de priorizar o empoderamento dos contextos vulneráveis na cidade e a relevância de integrar a população local no processo de desenvolvimento urbano.

A fundação holandesa Archiprix organiza a apresentação dos melhores projetos de pós-graduação nas áreas de arquitetura, urbanismo e arquitetura paisagística, desde 1980. A instituição tem a missão de garimpar e revelar os melhores novos designers talentosos pelo mundo, com o objetivo de promover sua entrada no mercado profissional.

– Estou muito feliz. O projeto foi um fantástico processo de aprendizado, que contou com o apoio de grandes tutores, amigos, profissionais locais e residentes. Cada etapa do processo, desde a pesquisa teórica, estudos de casos e visita de campo, influenciaram e foram muito importantes para chegar ao produto final como ele é. Agradeço também aos professores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da PUC-Rio, Vera Hazan e Pedro Évora, que tiveram uma participação nas entrevistas realizadas durante o projeto -, afirma Gonzalez.


De acordo com ele, a pesquisa começou com a ideia de coproduzir o projeto com moradores e comunidades locais do Rio. No entanto, as barreiras encontradas na visita de campo – por conta de conflitos territoriais, desastres ecológicos e limitações políticas – o obrigaram a adaptá-lo à realidade local.

Nesse momento, a ideia do projeto aberto foi implementada para superar as limitações encontradas no processo de coprodução, criando uma série de ações que permitissem a participação de comunidades locais no seu autodesenvolvimento. É uma sensação incrível ver os resultados de um extenso processo de trabalho e ter minha dissertação de mestrado entre os vencedores do primeiro prêmio de uma competição tão renomada como a Archiprix Netherlands -, comemora.

Para Felipe Gonzalez, o reconhecimento de uma instituição estrangeira tão importante, o incentiva a continuar perseguindo seus objetivos, entre eles, o de promover uma modalidade de urbanismo de inclusão social, que proporcione a integração ecológica e espacial, em bairros e comunidades que vivem em condições de vulnerabilidade, e que são constantemente negligenciados no desenvolvimento da cidade.

– Vejo esse momento como uma oportunidade de ressaltar a importância de priorizar o empoderamento dos contextos vulneráveis na cidade e a relevância de integrar a população local no processo de desenvolvimento urbano. Uma reflexão fundamental em um momento muito delicado e de instabilidade no Brasil, onde o acúmulo de crises – políticas, econômicas, ecológicas – vem aumentando as incertezas diárias das populações em situações vulneráveis -, observa Gonzalez.

O arquiteto faz questão de agradecer ainda a participação de outros profissionais no trabalho, como Marcelo Fonseca (da Secretaria Municipal de Urbanismo – Rio de Janeiro) e Zeca Brandão (professor da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), além de Eugênia e Bárbara, moradoras do Rio que o ajudaram no projeto.


Resumo de Felipe Gonzalez sobre seu trabalho premiado

O Rio de Janeiro é uma “Cidade Partida” (Ventura, 1994): processos acelerados de urbanização orientados para o mercado, concentração de riqueza, negligência governamental e segregação socioespacial têm fomentado as disparidades sociais na cidade. Esses processos têm produzindo bordas multidimensionais – ideológicas, espaciais, econômicas, ecológicas e institucionais – definindo a fragmentação do Rio de Janeiro.

Como estudo de caso do projeto, a Área de Planejamento 4 é ilustrativa da divisão construída na cidade. De um lado, na Barra da Tijuca, condomínios fechados e bairros elitistas foram construídos em áreas privilegiadas, anexadas a um corredor de serviços ao longo do litoral. Por outro lado, na região de Jacarepaguá, diversos bairros, projetos de habitação social e  comunidades auto-organizadas foram empurrados para zonas menos valorizadas e socialmente vulneráveis, carecendo de acesso à infraestrutura básica e ao litoral.

O projeto se inicia a partir do reconhecimento das bordas que fragmentam a cidade e suas consequências – que afetam principalmente os grupos sociais negligenciados ou segregados ao longo do desenvolvimento territorial. Localizadas em contextos desprivilegiados, tais comunidades normalmente estão expostas a uma infraestrutura deficiente ou ausente, altos riscos ecológicos, baixa qualidade e insegurança habitacional, entre diversas outras condições precárias.

A fragmentação do Rio de Janeiro gera um gradiente de permeabilidade na cidade, definindo as condições de vulnerabilidade territorial através de três contextos distintos: fragmentos, bordas e zonas intermediárias.
A pesquisa visa promover um modelo de desenvolvimento alternativo para a cidade – que possa aumentar a capacidade adaptativa de comunidades em condições vulneráveis, reforçando sua integração com a região – encorajando o processo de empoderamento social e ecológico que possa apoiar o autodesenvolvimento das comunidades locais.

O projeto defende um processo de desenvolvimento alternativo que possa promover a integração e o empoderamento de grupos vulneráveis. Imagem: Arquivo Pessoal/ Felipe Gonzalez

Como abordagem estratégica para orientar esse processo, a coprodução de espaços foi definida como um instrumento de definição de locais de potencialidade e estratégias que possam ativar os fragmentos, permear as bordas e integrar as zonas intermediárias. O projeto é definido por quatro macro estratégias: empoderamento social, capacitação ecológica, espaços públicos e habitação. Subdivididas em ações suplementares, o projeto visa reforçar a construção de um sistema integrado, adaptativo e autogestor no ambiente construído – definindo localizações estratégicas e ações que amparam carências locais e fortificam estruturas e instituições pré-existentes.

Concebida como um projeto aberto, a proposta não é fixa e nem pretende fornecer uma solução definitiva. Ao invés, o projeto pretende promover um processo de desenvolvimento flexível e acessível, exibindo um conjunto de ações e locais estratégicos que exploram oportunidades espaciais, funcionais e institucionais. As ações podem ser implementadas e gerenciadas por meio de várias parcerias institucionais – auto-organização e / ou colaboração entre sociedade civil e os setores público e privado.

Projeto de intervenção na comunidade Gardênia Azul, em Jacarepaguá: reintegração de comunidades à cidade e no processo de desenvolvimento. Imagem: Arquivo Pessoal/ Felipe Gonzalez

A flexibilidade do projeto aumenta a resiliência das ações, permitindo que processos de implementação e gestão se adaptem a diversas incertezas temporais: ecológicas, políticas ou socioeconômicas. O objetivo portanto, é iniciar um diálogo na cidade estabelecendo uma conversa entre abordagens ‘de cima pra baixo’ e ‘de baixo pra cima’, proporcionando um desenvolvimento urbano que possa ser moldado pelos habitantes, comunidades e organizações locais.

(Referências: Ventura, Z. (1994). Cidade Partida. Rio de Janeiro. Companhia das Letras)

Dois comentários do júri sobre o trabalho de Felipe Gonzalez

“A proposta é de um nível tão alto de qualidade que poderia ser submetida ao UN-Habitat como está”

“O resumo informativo do projeto Bordas Permeáveis é melhorar a integração dos habitantes de contextos vulneráveis no Rio de Janeiro. O designer consegue expressar, de maneira convincente, o desenvolvimento do problema, que é tão relevante quanto difícil e complexo. Começa com um estudo impressionante; uma análise impecável que é seguida por um plano de ação bem construído. Isso desenvolve uma abordagem realista e prática. Um kit de ferramentas para reabilitar cidades partidas. A proposta é excelente em termos de planejamento estratégico e metas, e é de um nível tão alto de qualidade que poderia ser submetida ao UN-Habitat como está. É igualmente forte em seus aspectos ativistas e programáticos. Ainda assim, um projeto não precisa necessariamente ser sexy e direto para ser oportuno, relevante e viável”.

“O participante consegue projetar um modelo de desenvolvimento convincente para a cidade do Rio de Janeiro”

“O design estratégico aborda a escala da cidade como um todo e, em seguida, mostra o que a estratégia pode significar para inúmeros contextos reais no Rio de Janeiro. O projeto incorpora tudo o que é relevante para a problemática. Não apenas completo, ele mostra a consciência do designer sobre o que é realista. Em vista da meta-escala e da complexidade, não é apenas incrivelmente corajoso em lidar com este difícil tema, mas excepcional por desenvolvê-lo em tão alto nível. Se isso não bastasse, o participante consegue projetar um modelo de desenvolvimento convincente para a cidade do Rio de Janeiro, que promove a integração dos contextos vulneráveis, iniciando um processo que apóia esses habitantes em seu autodesenvolvimento e consciência ecológica”.

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