Adeus, Ítalo Campofiorito, nosso tri-conselheiro

Conselho Municipal de Patrimônio Cultural
Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2020

Ítalo adorava ser “tri-conselheiro”. Nada mais justo. Como membro do Conselho Consultivo do IPHAN, do Conselho Municipal de Tombamento de Niterói e do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural da Cidade do Rio de Janeiro ele fazia a conexão entre as três instâncias de tutela do patrimônio e as enriquecia.  Patrimônio e Ítalo se tornaram sinônimos. 

A participação deste arquiteto sensível e inquieto foi decisiva para a formulação de políticas de preservação brasileira, fluminense e carioca, sobretudo a partir dos anos 1980. Ítalo trazia o olhar agudo de arquiteto, urbanista, crítico de arte, entre tantos ofícios que abraçava, para as questões do patrimônio carioca. Ele era um preservacionista, ou seja, em suas próprias palavras, ele queria uma cidade equilibrada, agradável de se viver. Uma cidade na qual se pudesse vivenciar os diversos períodos da história cultural da cidade, reconhecendo o valor do que não é óbvio, que não é valorizado. Ítalo enfatizava a importância de amar os lugares, pois só assim preservaríamos o que era importante para as pessoas. Uma concepção de patrimônio cultural que rompia com o praticado até então.  

Ítalo trouxe esta concepção para a Cidade do Rio de Janeiro ao exercer, junto com Rachel Jardim, Augusto Ivan e Sonia Caúla, um papel fundamental como artífice do Corredor Cultural. Um projeto que estreitaria as relações entre patrimônio, cultura e urbanismo,  marcaria as políticas de preservação carioca e seria a base das Áreas de Proteção do Ambiente Cultural, as APACs. Políticas que nos orientam nas ações do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro. 

Perdemos um querido colega, amigo, contador de histórias imperdíveis sobre tudo que cercava a arquitetura, o urbanismo e o patrimônio cultural nos séculos XX/XXI. Por vezes, até nos séculos anteriores (ele adorava e estudava com afinco os Setecentos). Perde o patrimônio, perde a cidade, perdemos todos. Por outro lado, seu olhar instigante sobre o patrimônio seguirá conosco. Esperamos, assim, fazer da tristeza um legado.


Instituições e profissionais que atuaram com Campofiorito emitiram notas sobre seu falecimento. Veja algumas:

Maria Regina Pontin de Mattos – arquiteta, ex-presidente do Conselho Estadual de Tombamento e ex-diretora do INEPAC:

“Hoje senti meu coração entristecido, perdi meu grande amigo e mestre – o arquiteto Ítalo Campofiorito. Conheci o Ítalo no Inepac, onde ele foi um dos primeiros Diretores e onde construiu, ao longo de sua vida, parte da história do nosso Patrimônio Cultural. Profundo conhecedor não só da arquitetura, mas das artes plásticas, da música, da literatura e em especial do nosso patrimônio, Ítalo ganhou muitos seguidores que, como eu, sentirão muito a sua falta. Tive o prazer de participar de várias discussões acaloradas que aconteceram no Conselho Estadual de Tombamento, do qual ele fez parte, deixando registrada sua visão teórica sobre os mais diversos  assuntos relacionados à  proteção do Patrimônio Histórico. Nesse momento em que nossas esperanças estão tão  enfraquecidas,  perdemos mais um importante personagem da vida cultural de nosso país. Mas sua missão foi brilhantemente cumprida, caro Ítalo, sentiremos sua partida, mas seus ensinamentos permanecerão para sempre em nossos corações”.

Arquiteto Glauco Campello:
Ítalo era o amigo culto que todos querem ter. Nos conhecemos na faculdade e nos aproximamos em Brasília, na equipe de Oscar Niemeyer. Ele era um líder entre nós e organizava nossos programas de estudo. Depois na UnB se transformou no mestre de muitos jovens que despertaram para os temas importantes que ele apontava. No Rio, mais tarde, teve papel destacado na Secretaria de Cultura de Darcy Ribeiro, passando a estudar as questões do urbanismo, que via com sofisticação e realismo. Teve papel importante no patrimônio nacional. No Iphan, que dirigiu, e no Conselho de Tombamento onde apresentou pareceres renovadores e atualizados sobre bens culturais. Demonstrou grande capacidade cultural e de liderança ao se encarregar do relatório para a Unesco na questão do tombamento de Brasília. Ele era o único que poderia fazer isso, já que era muito próximo de Lúcio Costa E Oscar Niemeyer. Influenciou a minha atividade como arquiteto. Estou muito triste com o falecimento do meu amigo.

Arquiteta Dina Lerner:
“Ítalo Campofiorito nos deixou ontem, um dia após completar 87 anos. Arquiteto urbanista e filósofo da cultura e das artes, com sua inteligência, paixão e irreverência,  entrou no Mundo do Patrimônio Cultural para revolucioná-lo.E assim o fez, à frente do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, INEPAC, nos anos de 1980, como parceiro de Darcy Ribeiro, então Secretário de Cultura. Instigando à reflexão todos que o cercavam, construiu novos caminhos de olhar, cuidar e fazer o patrimônio, surpreendendo-nos com sua poesia. Foi responsável pela formação de uma geração de jovens arquitetos e profissionais de outras áreas da cultura, tornando-nos pensadores inquietos e apaixonados. Um grande mestre e amigo querido, Ítalo deixa um imenso vazio e muitas saudades”.

Arquiteto Cyro Corrêa Lyra; e engenheira e arqueóloga Silvia Puccioni:
Não foram poucas as contribuições do arquiteto Ítalo Campofiorito à cultura brasileira no campo da história da arquitetura e do urbanismo. Dentre as grandes heranças deixadas por ele situam-se seus escritos, principalmente aqueles relacionados à crítica da arquitetura. Sem dúvida, foi o grande crítico da moderna arquitetura brasileira. A qualidade de seus textos reflete não só sua cultura geral, mas, também, sua trajetória de vida pautada pela convivência com as personalidades centrais da renovação da arquitetura brasileira, como Oscar Niemeyer e Lucio Costa. Em 1958, dois anos após concluir o curso de arquitetura no Rio de Janeiro mudava-se para Brasília, onde permaneceu por doze anos, período no qual trabalhou no escritório de Oscar Niemeyer e na Prefeitura, além de ensinar na Universidade.   Em sua trajetória de vida, nos anos seguintes, na área de preservação cultural conduziu a proteção em terras fluminenses de um significativo número de bens que incluíram lugares até então esquecidos e condenados à descaracterização e, mesmo, ao desaparecimento. Nesse mesmo período consagrou-se como nosso grande crítico da arquitetura moderna brasileira através da produção de artigos e palestras que legaram às gerações atuais e futuras uma leitura perspicaz da história da arquitetura e urbanismo brasileiro.  

Roberto Anderson Magalhães, arquiteto e urbanista, ex-diretor-geral do Inepac e professor da PUC-RIO:
“Ítalo Campofiorito foi um mestre de toda uma geração que se encantou com a proteção e gestão do Patrimônio Cultural brasileiro. É difícil dimensionar o impacto que um texto seu, como “Muda o Mundo do Patrimônio, notas para um balanço crítico” teve na formação de todos nós que buscávamos um caminho para além dos pioneiros que construíram o antigo Sphan. Mas para além disso, foi um homem cordial, amante da conversa, que soube escutar e valorizar os jovens que o procuravam. Deixa saudades”.

Cláudio Valério Teixeira, Professor de Restauração na UFRJ, artista plástico e crítico de arte:
Ítalo Campofiorito faleceu hoje em sua casa no Leblon. Italo era muito meu amigo e chegamos a trabalhar juntos em Niterói, quando ele ocupava a Secretaria de Cultura  e eu era Presidente da Fundação  de Arte de Niterói  (FAN). Ítalo, que sempre teve seu nome ligado à preservação de bens culturais, prestou grande contribuição a esta área em Niterói. Hoje temos menos um em nossas trincheiras em defesa de nosso patrimônio. Antes de ficar mais severamente doente adorava almoçar em minha casa, quando na mesa os debates sobre arte brasileira  corriam soltos e animados. Eram ocasiões descontraídas que, tenho certeza, auxiliaram Ítalo a ter momentos de prazer. E a conversa não era só sobre arquitetura e artes plásticas. Em geral, versávamos também  sobre cinema, literatura e música. Agora, quando o Brasil se mostra gerido pela estupidez e ignorância, com certeza a cultura e o conhecimento de Italo farão  falta. Descanse em paz meu amigo.

Manoel Vieira, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio:
Ítalo conheceu os principais gênios da arquitetura moderna. Foi pupilo de Lúcio Costa, trabalhou com Oscar Niemeyer. Se tornou amigo de ambos. Foi diretor do departamento de cultura do Darcy Ribeiro. Como Secretário de Cultura de Jorge Roberto Silveira, esteve a frente da criação do MAC, obra prima do Oscar Niemeyer em Niterói. Gênio criativo, dono de uma memória inabalável, hoje o país perde um de seus mais discretos oráculos. A força do seu pensamento se perpetuará além do seu tempo.

Professora Graciete Guerra Da Costa, da Universidade Federal de Roraima – UFRR:
“Lamento muito. Ítalo era meu amigo. Colega arquiteto e crítico de arte, esteve no International Council on Monuments and Sites (Icomos). Trabalhou como crítico de Arte em diversas associações, como a Associação Internacional de Crítica de Arte e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), participou ativamente do tombamento de Brasília. Foi professor titular da Universidade de Brasília e uma referência pra todos nós. Foi diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói. Foi membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do IPHAN/Ministério da Cultura, e também do Conselho Municipal de Tombamento de Niterói”.

IPHAN:
Ítalo Campofiorito, ex-presidente do Iphan, falece no Rio de Janeiro
Um grande colaborador na preservação e valorização do Patrimônio Cultural Brasileiro faleceu nesta quarta-feira, dia 27 de maio. Ítalo Campofiorito, arquiteto e crítico de arte, lutava contra um câncer e morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, aos 87 anos.
Nascido em Paris, França, no ano de 1933, sua vida profissional no Brasil foi pautada pela dedicação ao Patrimônio Cultural.
Formado em 1956 pela Faculdade Nacional de Arquitetura do Brasil, no Rio de Janeiro, trabalhou no escritório do arquiteto Oscar Niemeyer entre 1958 e 1961, época da construção de Brasília. Também colaborou, por muitos anos, com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Entre 1989 e 1990, foi o último gestor a acumular os cargos de Secretário da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e de Presidente da Fundação Nacional pró-Memória, posteriormente unificados para formar o Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), atual Iphan.
Ainda em 1990, foi o responsável pelo o inovador parecer sobre o tombamento do Conjunto Urbanístico de Brasília.
Foi membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural entre 1996 e 2017, participando de importantes tombamentos e registros de bens hoje protegidos como Patrimônio Cultural Brasileiro.
Professor titular aposentado da Universidade de Brasília, entre suas diversas atuações na defesa do Patrimônio Cultural, foi ainda chefe do Serviço Metropolitano Urbanístico de Brasília, entre 1961 e 1963; diretor do Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (INEPAC), do Rio de Janeiro, entre 1979 e 1980; e secretário de Cultura de Niterói (RJ) entre 1996 e 2004, período da criação do Museu de Arte Contemporânea (MAC).

IAB Brasil:
“O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) lamenta o falecimento do arquiteto e urbanista Ítalo Campofiorito. Nascido em 1933, Ítalo graduou-se arquiteto em 1956 pela Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ), Ítalo realizou estudos de especialização em Estética, História da Arte e Sociologia da Arte na Sorbonne, em Paris, em 1957 e 1958, e em Planejamento Urbano e Rural na Universidade de Londres, em 1961. Ítalo teve ampla atuação profissional em diversas frentes. Trabalhou com Oscar Niemeyer na Novacap entre 1958 e 1961; foi chefe do Serviço Metropolitano de Brasília entre 1961 e 1963; professor e Secretário Executivo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU/UnB) entre 1962 e 1965; e, entre 1964 e 1965, foi o terceiro presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Distrito Federal (IAB-DF). Foi Presidente do Fundação Nacional Pró-Memória (FNPM) e Secretário do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) entre 1989 e 1990. Posteriormente, foi membro do Conselho Consultivo do IPHAN. No Rio de Janeiro, teve papel fundamental na implantação do Corredor Cultural e dirigiu o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) entre 1983 e 1985. Ítalo também atuou na elaboração de projetos arquitetônicos e planos urbanísticos, sendo autor de diversas obras construídas em Brasília e no Rio de Janeiro entre 1965 e 1979, além de ter desenvolvido o Plano de Reestruturação Urbana de Cochabamba, na Bolívia. Ítalo Campofiorito contribuiu imensamente para a arquitetura brasileira e para a preservação do patrimônio cultural nacional ao longo de 64 anos de atuação profissional. Sua perda é sentida por todos aqueles que valorizam a cultura brasileira”.

Museu de Arte Contemporânea de Niterói:
“O MAC Niterói recebeu com pesar a notícia do falecimento de Ítalo Campofiorito, ocorrido na manhã desta quarta-feira, 27 de maio. Integrante da equipe de Oscar Niemeyer durante a construção de Brasília, membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do IPHAN, membro do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural de Niterói, secretário municipal de Cultura de Niterói… Arquiteto, professor e crítico de arte, Ítalo Campofiorito teve uma vida dedicada à arte e ao patrimônio arquitetônico e cultural brasileiro. Prof. Ítalo foi um dos grandes idealizadores do Museu de Arte Contemporânea Niterói, desde a concepção do museu ao convite a Niemeyer para realizar o projeto arquitetônico. Foi o primeiro diretor executivo do MAC e membro do Conselho Deliberativo do Museu. O MAC Niterói e toda sua equipe se solidarizam com a família, amigos e admiradores do Prof. Ítalo. Obrigado Prof. Ítalo Campofiorito por toda a gigante contribuição à preservação e difusão da arte no Brasil e em Niterói!”

Secretaria de Cultura de Niterói:
“Faleceu hoje, 27 de maio, o Prof. Ítalo Campofiorito. Arquiteto, professor, crítico de arte e ex-secretário de cultura, Ítalo Campofiorito atuou na Associação Internacional de Crítica de Arte (AICA), bem como junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), onde assinou o tombamento de Brasília. Foi peça fundamental para a criação do MAC, atuando como diretor executivo entre 1996 e 2004, depois se tornando membro do Conselho Deliberativo. Desde 1996, era membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do IPHAN, e também era membro do Conselho Municipal de Tombamento de Niterói. Ítalo se vai deixando uma perda para a Cultura, mas as sementes de seus esforços e trabalho, e sua memória, ficam para sempre registradas na história da nossa cidade”.


FOTO: Oscar Liberal.

Notícias Recentes

Paulo Knauss

Uma constante contemplação e admiração pelo Rio de Janeiro, que se estruturou para ser vivido na rua, onde o sonho de seu povo toma formas

Andrea Queiroz Rego

Carioquíssima, como ela mesmo se define, a arquiteta, urbanista e professora, Andrea Queiroz Rego, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin