A participação preponderante da universidade na preservação do patrimônio histórico no Rio de Janeiro

Edifício Jorge Machado Moreira, que abriga o Centro de Letras e Artes, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo: exemplo de patrimônio modernista. Foto: FAU-UFRJ

O Rio Capital Mundial da Arquitetura dá prosseguimento hoje à série sobre produção acadêmica, iniciada na última terça-feira. Nesta edição, o RCMA publica a terceira parte do assunto, com um artigo de Paulo Bellinha, arquiteto e urbanista da da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Sociologia pela Université René Descartes, Sorbonne – Paris.


Reflexão Histórica


Por Paulo Bellinha*

 

Paulo Bellinha: “A formação escolástica esteve sempre ligada ao desenvolvimento das localidades”. Imagem cedida pelo autor

Refletir sobre a importância e participação da universidade na preservação do patrimônio histórico na cidade do Rio de Janeiro é, forçosamente, uma reflexão histórica a respeito do Reino de Portugal que aqui se instalou no século XIX. Traz uma indagação sobre nosso passado colonial, não somente em termos de legado de técnicas construtivas lusas – sobretudo nas igrejas -, mas também em termos de uma sociologia de nação. Nesse sentido, apesar de então somente ser possível se ter uma formação universitária na metrópole, essa reflexão sobre a participação da universidade na preservação do patrimônio nos remete também ao filósofo Julien Freund, que destacou o papel que a universidade teve no desenvolvimento urbano das cidades desde a Idade Média. E, de fato, a formação escolástica esteve sempre ligada ao desenvolvimento das localidades onde se inseriram essas construções, não sendo fortuita, portanto, esta citação do filósofo no prefácio de uma obra do sociólogo Max Weber (Die Stadt), que se tornou referência para a sociologia urbana.

Nos tempos em que vivemos, a religiosidade tem adquirido uma preponderância inusitada, ancorada numa mercantilização da fé. A laicidade da ciência pode oferecer um refúgio de proteção para a população desamparada e bombardeada pelo excesso de informação vindo de todos os lados. Em ‘Poéticas da Cidade’, livro de Pierre Sansot, encontramos a noção de memória da pedra que pode nos auxiliar nosso caminho. O generoso olhar deste filósofo sobre os desgastes dos pisos de pedra nos degraus de uma escada nos leva a refletir sobre as histórias dos inúmeros passantes que causaram esses desgastes, e, em contrapartida, o que essas pedras nos remeteram como carga de memórias impressas por esses passos, ajudando nossa ascensão ou causando nossa queda.

Pensar no papel da universidade na preservação do patrimônio cultural arquitetônico somente é possível com este olhar, pois é a partir deste ponto que se revela a importância desta participação, sobretudo se formos um flâneur, tal como Walter Benjamin nos propõe, observando a Paris do século XIX. Propomos, portanto, uma caminhada de compreensão deste patrimônio cultural arquitetônico universitário composto por 15 imóveis tombados (dois cedidos a outras instituições), sendo poucos deles criados especificamente para fins universitários, a maior parte foram adaptações de uso. Com um espaço de séculos entre o início da construção do primeiro imóvel e o da criação da cidade universitária, pode-se compreender a carga de memória que carrega este patrimônio, sendo os mais antigos deles da época imperial, quando a “marginalidade” foi dividida em três campos de saber específicos para os abrigar.

Para melhor esclarecer este propósito, recorremos a Michel Foucault, que desenha estes 3 campos, e aqui articulamos com três tipologias distintas para acolher essa população marginal: a Casa de Correção (criminosos), o Asylo da Mendicidade (ação social) e o Hospital dos Alienados (manicômio), e não é nada irrelevante que estes dois últimos tenham sido incorporados ao patrimônio universitário: o último é conhecido hoje como Palácio Universitário, sede do Campus da Praia Vermelha, zona sul, sede de inúmeras unidades acadêmicas, e o anterior é o HESFA – Instituto de Atenção à Saúde São Francisco de Assis, na área central da cidade. Apesar de este último ter sido construído com o mesmo fundo de recursos da Casa de Correção, como esta já foi demolida, os exemplos remanescentes desta materialidade construtiva a partir do olhar foucaultiano da marginalidade são hoje um legado utilizado pela UFRJ.

Na Zona Norte da cidade, temos um notável exemplar da época colonial com a residência de D. João VI, que posteriormente foi transformado no Museu Nacional, vitimado recentemente por um incêndio que destruiu parte seu acervo e passa por um processo de catalogação do que foi possível ser resgatado e de salvaguarda dos seus remanescentes arquitetônicos para futura restauração. Por outro lado, a grandiosidade de escala da Cidade Universitária, com 5 milhões de m², abriga dois outros imóveis tombados, desta vez notáveis exemplos modernistas: o Edifício Jorge Machado Moreira, que abriga o Centro de Letras e Artes, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a Escola de Belas Artes, e, antes de um outro incêndio, a Reitoria da UFRJ.

Com isso, pretendemos aqui demonstrar, através destes breves exemplos arquitetônicos, a materialidade da relação intrínseca entre universidade e cidade, tal como apontado por Freund, por um lado, e Foucault por outro, expondo as relações entre os excluídos da cidade e os que a pensam. E apesar de todas as agruras que encontra a população no seu cotidiano e das tragédias que nos assolam, é fundamental perceber que a criação do Campus da Cidade Universitária, a partir do aterro de ilhas da Baía da Guanabara, sela a criação de um território do saber, que oscila entre a fragilidade material e a consistência imaterial.

Na medida em que, para preservar, é fundamental utilizar respeitosamente este patrimônio (convém destacar que este acervo arquitetônico se distribui pela área central e zonas Sul e Norte da cidade), ousamos afirmar que não há uso mais respeitoso para o patrimônio cultural arquitetônico no Brasil do que atenção à Saúde e Educação públicas, e este é o uso que a Universidade Federal do Rio de Janeiro tem para o seu. Ao se pensar o Dia Nacional do Patrimônio, na Capital Mundial da Arquitetura, saudamos a ciência da preservação da memória e celebramos igualmente o Rio, Capital Nacional do Patrimônio Universitário.

* Paulo Bellinha é Arquiteto e Urbanista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Sociologia pela Université René Descartes, Sorbonne – Paris

 

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