A importância do patrimônio cultural para a identidade das cidades

Cristo Redentor, uma das Maravilhas do Mundo Moderno. Foto: Hudson Pontes/ Prefeitura do Rio

Primeiro município a ser reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural Urbana, em 2012, o Rio de Janeiro tem bons motivos para comemorar o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, no próximo dia 17. A cidade vem sendo exemplo para o mundo em termos de práticas sustentáveis, asseguradas por leis,  que têm como objetivo a preservação de suas belezas naturais e seus bens materiais e imateriais.

Esse cuidado é imprescindível para a manutenção e preservação de sua identidade cultural, especialmente para as futuras gerações.  Em comemoração ao mês dedicado ao patrimônio, o Rio Capital Mundial da Arquitetura (RCMA) publicará matérias voltadas para  o assunto ao longo das próximas semanas.

Tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1973, justamente pela importância na composição da paisagem carioca, tanto física quanto cultural, o Corcovado,  que ostenta a emblemática estátua do Cristo Redentor – o maior cartão postal do município – e o Complexo do Pão de Açúcar, inauguram a série.  Hoje, o Corcovado será o destaque principal e amanhã, o Pão de Açúcar e seu histórico bondinho.

Uma Cidade Maravilhosa, que se renova a cada dia, entre as montanhas e o mar

A exuberância da natureza, com características únicas no planeta, que revelam maravilhas entre as montanhas e o mar e deixa moradores e visitantes apaixonados a cada dia, faz com que o valor universal da paisagem urbana, torne o Rio cada vez mais respeitado e reconhecido no exterior. Esse encanto vem desde o Século 16, quando os europeus se deslumbram com a Baía de Guanabara e as florestas em seu entorno, fundando a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Nos últimos quatro séculos, a Capital fluminense vem ajudando a contar a história do Brasil e, ao mesmo tempo, procurando manter suas riquezas naturais. Essa luta pelo equilíbrio entre a preservação do patrimônio histórico e sua cultura é um desafio constante.

A adoção do conceito de Paisagem Cultural pela Unesco, a partir de 1992, passou a ser uma espécie de marca, buscada intensamente por todas as nações, como símbolo do reconhecimento, do zelo com os bens culturais e a preservação de suas tradições, especialmente nos grandes centros urbanos. Antigamente, tal crédito era ligado apenas às áreas rurais.

Depois do título da Unesco, o município intensificou ações integradas de preservação de seus principais patrimônios e seu entorno, entre eles o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Floresta da Tijuca, o Aterro do Flamengo, o Jardim Botânico, a praia de Copacabana, a entrada da Baía de Guanabara, o Forte e o Morro do Leme, o Forte de Copacabana, o Arpoador, o Parque do Flamengo e a Enseada de Botafogo. Paralela à preservação física dessas áreas, a preocupação com a memória e identidade histórica que elas devem reservar para o futuro.

Vetor do desenvolvimento, estabelecido pela Unesco em nível internacional e  pelo Iphan, nacionalmente, o patrimônio é uma das principais vertentes da economia fluminense, uma das maiores fontes de recursos dos cofres públicos,  representando cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB). Um dos estados mais afetados pela pandemia causada pelo novo coronavírus, o Rio tinha no turismo, segundo o governo do estado, um impacto positivo de cerca de 27 bilhões de reais em sua economia.

Aos poucos, representantes do poder público e empresários, começam a esboçar uma reação para a retomada das atividades econômicas.  Esperam, por exemplo, reabrir pontos turísticos importantes em meados deste mês, como o Corcovado e o bondinho do Pão de Açúcar. O surgimento da terminologia da Economia da Cultura contribuiu para maior valorização dos segmentos culturais no âmbito das políticas públicas em diversos países.

No site do Santuário do Cristo Redentor, há mais informações detalhadas sobre o monumento. Também há belas imagens do Cristo e das paisagens, pontos turísticos e outros locais “abençoados” pelo monumento diariamente. Clique na foto 360 graus para ter uma visão panorâmica do Rio. A visualização, também com ângulos privilegiados da estátua, é a mesma de quem visita o mirante do Cristo, localizado a mais de 700 metros de altura, através do endereço https://santuariocristoredentor.com.br/cristo-360

A importância do tombamento de monumentos para o resguardo da  identidade da cidade, o turismo e a economia

Quando um elemento cultural é considerado patrimônio histórico cultural por algum órgão ou entidade especializado no assunto, diz-se que ele é “tombado” como patrimônio. O que determina se um bem cultural é ou não patrimônio histórico cultural são a sua relevância histórica para a formação identitária da cultura de um povo e a importância da preservação desse bem para a consequente manutenção cultural daquele povo.

O Iphan destaca em seu site que a Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 216, ampliou o conceito de patrimônio estabelecido pelo Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, substituindo a nominação Patrimônio Histórico e Artístico, por Patrimônio Cultural Brasileiro. Tal alteração incorporou o conceito de referência cultural e a definição dos bens passíveis de reconhecimento, sobretudo os de caráter imaterial.

A Constituição, ressalta o instituto, estabelece ainda a parceria entre o poder público e as comunidades para a promoção e proteção do Patrimônio Cultural Brasileiro, no entanto mantém a gestão do patrimônio e da documentação relativa aos bens sob responsabilidade da administração pública.

Enquanto o Decreto de 1937 estabelece como patrimônio “o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”, o Artigo 216 da Constituição conceitua patrimônio cultural como sendo os bens “de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.

Nessa redefinição promovida pela Constituição, constam as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Cabe ao Iphan zelar pelo cumprimento dos marcos legais, efetivando a gestão do Patrimônio Cultural Brasileiro e dos bens reconhecidos pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Pioneiro na preservação do patrimônio na América Latina, o Iphan possui um vasto conhecimento acumulado ao longo de décadas e tornou-se referência para instituições assemelhadas de países de passado colonial, mantendo ativa cooperação internacional.

O instituto destaca ainda que, nesse contexto, o Iphan constrói, em parceria com os governos estaduais, o Sistema Nacional do Patrimônio Cultural. O objetivo é trabalhar conceitos que facilitem cada vez mais o acesso ao conhecimento dos bens nacionais. A gestão do patrimônio é efetivada segundo as características de cada grupo: Patrimônio Material, Patrimônio Imaterial, Patrimônio Arqueológico e Patrimônio Mundial.

Parque Nacional da Tijuca: o `santo guardião´ do Cristo

O Parque  Nacional da Tijuca, que abriga o Corcovado, é o principal “guardião” do monumento do Cristo Redentor. E ainda tem papel de destaque no ecossistema, já que abriga a primeira floresta replantada do mundo.  De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ambiental vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e responsável pela preservação do maior tesouro verde, em plena região central do município, sua infinidade de trilhas e cachoeiras, além de ruínas históricas do tempo das fazendas do café, é um dos pontos-chave para que o Rio ostente o título de de  Cidade Maravilhosa.

 

Incrustada em área de preservação da Floresta da Tijuca, a estátua do Cristo é símbolo também de preservação do ecossistema. Foto: Hudson Pontes

 

A direção do ICMBio destaca que além de estar presente em quase todas as imagens e ângulos do Rio de Janeiro e ser uma das melhores alternativas de lazer para cariocas e turistas, o Parque Nacional da Tijuca detém muitas curiosidades. Suas florestas, por exemplo, são resultado do primeiro grande projeto de reflorestamento no planeta, iniciado em 1861.

Após a destruição quase total da floresta para produção de carvão e plantio de café, as fontes de água que abasteciam a cidade começaram a secar. As autoridades, então iniciaram um processo intenso de desapropriação das fazendas e replantio de mais de 100 mil árvores. Visitar as exuberantes florestas do Parque Nacional da Tijuca mais de um século e meio depois desse processo é uma lição de como a natureza tem capacidade de se recuperar com a ajuda e empenho do homem.

Cristo Redentor, sempre de braços abertos para o futuro e proteção da cidade

Eleita em  2007 como uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno, a estátua do Cristo Redentor é um dos monumentos que mais encantam o mundo. Localizada no Morro do Corcovado, no Bairro de Santa Teresa, dentro  de Parque Nacional da Tijuca, foi inaugurada em 1931. Suas dimensões fazem desse grande símbolo do Cristianismo, incrustado a 709 metros acima do nível do mar,  um ícone mundial.

 

Foto do início da década de 1931, retrata o esforço na época para a construção da estátua, que se tornou paixão mundial. Foto: Acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

 

Atualmente, seu acesso está impedido por conta da pandemia da Covid-19, mas a previsão é que o Santuário do Cristo Redentor volte a receber novamente visitas nas próximas semanas. Monumento recordista de visitantes no Rio, segundo a Riotur, só no ano passado o Cristo Redentor recebeu mais de 1,8 milhão de visitantes. Cerca de 100 mil a mais que o ano anterior.

A estrutura, que tem  de 38 metros de altura (contando com o pedestal), equivalente a um prédio de 13 andares, e 28 metros de largura, foi pensada pelo padre francês Pierre-Marie, em 1859. Mas somente em 1921 o projeto da construção começou a se tornar realidade dentro da cúpula Católica. Naquele ano, o projeto de Heitor da Silva Costa venceu outros dois concorrentes, que cogitaram erguer o monumento no Morro de Santo Antônio ou no Pão de Açúcar.

Depois de uma campanha que arrecadou fundos junto aos fiéis, a construção foi iniciada em 1922. A inauguração da obra ocorreu em 12 de outubro de 1931, a mesmo dia dedicado à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.
Em estilo Art Déco, o Cristo tem um total de 1.145 toneladas de peso. Ele é o segundo maior monumento de Cristo do mundo, ficando somente atrás da Estátua de Cristo Rei na Polônia. Sua estrutura é composta de pedra-sabão , resistente à erosão e que na época era encontrada em abundância no Brasil. A cabeça e as mãos do Cristo foram feitas na França, pelo escultor Paul Landowski Maximilien.

Mauricio Prochnik, arquiteto e urbanista: “A coisa mais importante do projeto era resguardar e manter toda a ambiência no entorno do monumento”

 

Mauricio Prochnik: “É muito gratificante, como arquiteto e carioca, ter contribuído para o acesso facilitado ao monumento do Cristo Redentor,  símbolo do Rio e do Brasil”. Foto: Arquivo Pessoal

 

Em 20 de março de 2003, a acessibilidade ao cartão postal  mais visitado do Rio, ficou mais fácil. Naquela dada, dia do aniversário da cidade – foi inaugurado o sistema de acesso mecanizado ao Corcovado, orçado em R$ 6 milhões. Até então, durante 70 anos, 226 degraus tinham que ser vencidos para que visitantes chegassem à base da estátua.  Três elevadores e quatro escadas rolantes, desenvolvidos pela empresa OTIS, passaram a funcionar, facilitando principalmente o acesso de idosos e pessoas com algum tipo de deficiência física.

– É muito gratificante, como arquiteto e carioca, ter contribuído para o acesso facilitado ao monumento do Cristo Redentor,  símbolo do Rio e do Brasil, maior monumento Art Déco do mundo. Um projeto que teve 100 % de aceitação. Houve muita preocupação com os impactos que poderia ter. A coisa mais importante do projeto era é de resguardar e manter toda a ambiência no entorno do monumento, causando o mínimo de interferência visual, respeitando a maravilhosa obra do Heitor da Silva Costa e do escultor Paul Landowski -, lembra  o arquiteto e urbanista, Maurício Prochnik, responsável pelo projeto.

Maurício lembra que muitos desafios tiveram que ser vencidos.  A topografia muito acidentada do lugar, a dificuldade de acesso e questões ambientais, foram alguns deles.

–  Além disso, o monumento é tombado e todo o penedo do morro do Corcovado também.

Fizemos vários estudos e opções para chegar à melhor composição e equilíbrio entre elevadores, escadas rolantes e o entorno, inclusive o perfil paisagístico no qual o projeto se insere. Outros equipamentos menos robustos , não iriam atender com a velocidade necessária ao fluxo de pessoas. Graças à tecnologia dos equipamentos, o histórico de visitação no monumento teve um grande aumento. Em 2003 a média era de 475 mil visitantes. Dez depois, foram registrados 2,3 milhões. Ja de 2013 a 2019, a média anual se manteve acima do 2 milhões de visitantes ao ano, segundo números oficiais do sistema -, comemora Maurício.

Juntas, explica o arquiteto, as estruturas de aço usadas nas escadas e elevadores pesam em torno de 100 toneladas de aço. Por conta da altitude em que foram instalado, o projeto considerou cargas de vento muito fortes, como rajadas de 100 km por hora.

Antes

 

O projeto de Mauricio Prochnik: cuidado para que equipamento se integrasse à natureza, sem causar impacto visual agressivo. Imagem: Arquivo Pessoal de Mauricio Prochnik

Depois

Escadas rolantes facilitam a vida dos visitantes: número de turistas quadruplicou desde sua instalação. Foto: Arquivo Pessoal/ Mauricio Prochnik

 

– Só para se ter uma ideia, cada escada rolante pesa 20 toneladas. As escadas foram trazidas do exterior. São a prova de intempéries, apropriadas e preparadas para ficarem ao tempo. A altura da entrada dos elevadores embaixo e a base do monumento é de 40 metros, vencidos pelos três elevadores e conjunto de quatro escadas rolantes. As escadas rolantes têm capacidade de tráfego de 9 mil pessoas por hora. A combinação do conjunto de escadas mais elevadores possibilita o fluxo de 1.5 mil visitantes por hora -, comenta.

O sistema mecanizado de acesso ao Cristo só foi possível por conta da iniciativa do Banco Real/ABN AMRO Bank, Gerdau, Arquidiocese do Rio de Janeiro, Prefeitura do Rio, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Ministério da Cultura e Fundação Roberto Marinho.

Em seu canal no Youtube, o jornalista Élcio Braga produziu um vídeo inusitado, que mostra como é o interior da estátua do Cristo Redentor. É um dos vídeos mais acessados, com mais de 2 milhões de visualizações. Confira abaixo:

 

 

Artigo
Olav Antônio Schrader, superintendente do Iphan-RJ

Tanto o Corcovado quanto o Pão de Açúcar são importantes monumentos naturais que passaram por intervenções humanas que não só se integram à paisagem, como também oferecem um valor simbólico muito forte. O Cristo Redentor representa uma visão de transcendência espiritual da cidade, mas sempre com janela para a paisagem, a floresta, a habitação e o mar.

O turismo é um aspecto importante que se encaixa no quesito de sustentabilidade do patrimônio histórico e artístico. O sucesso turístico é alavancado pelo patrimônio histórico, cultural e natural do Brasil e vice-versa. Não existiria turismo sem patrimônio e não haveria patrimônio conservado se não alavancasse o turismo. O turismo gera renda e mobiliza a sociedade para a sua conservação, além de criar uma inserção social virtuosa pelo viés do trabalho.

 

Olav Antônio Schrader: “O nosso conceito ancestral pode nos inspirar para o futuro”. Foto: Divulgação/ Iphan-RJ

 

Infelizmente, no Brasil o conceito de sustentabilidade é basicamente restrito à agenda do meio ambiente. Este quesito ainda não permeia a grande maioria dos projetos de patrimônio histórico e cultural. Um dos grandes desafios do Iphan é trazer a agenda de sustentabilidade da parte ambiental para a parte patrimonial, frisando que não são excludentes. Precisamos de patrimônio histórico com projeto sustentável no que tange à manutenção, ao restauro e ao uso: é necessário que envolva a sociedade, as forças produtivas e o terceiro setor. O patrimônio precisa ter uma função social.

O patrimônio histórico tem uma vertente ambientalmente favorável: na arquitetura e na urbe ancestrais, o deslocamento é pedestre ou não poluente, existe uso misto do espaço e a volumetria é mais próxima da escala humana. Assim, cria-se um tecido social mais saudável não só do ponto de vista das relações humanas, mas também do meio ambiente. As matrizes ancestrais brasileiras têm um viés ambiental extremamente moderno.

O futuro da sustentabilidade precisa ser resgatado justamente dessas matrizes, com uso misto do espaço; humanização do entorno; deslocamento sustentável e trocas de ideias de forma democrática em praças e esquinas. Esse modelo não é segregacionista, mas integracionista. O nosso conceito ancestral pode nos inspirar para o futuro.

 

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