3º Encontro de GTs debaterá memória e identidade, desenvolvimento urbano sustentável, cultura e renda nesta quinta-feira

Os interessados em novas reflexões e entendimentos sobre os espaços das cidades e patrimônio têm um encontro virtual marcado para a próxima quinta-feira (25/06), às 18h30. É quando será realizado o 3º Encontro de Grupos de Trabalho (GTs). Os eventos fazem parte do Fórum Cidade, Favela e Patrimônio, que será realizado em setembro e faz parte do calendário do Rio Capital Mundial da Arquitetura.

O terceiro encontro será um bate-papo especial para tratar dos eixos temáticos que organizam os GTs: Memória e Identidade, Desenvolvimento Urbano Sustentável, Cultura e Renda. No primeiro evento, as organizadoras apresentaram a proposta. No segundo, a temática foi a participação coletiva e a importância do fórum enquanto espaço de representação social e política.

Inaugurando o canal do Fórum no YouTube, a conversa vai reunir três mulheres cujas atuações, apesar de diferentes, são complementares: Regina Tchelly, empreendedora, fundadora do Favela Orgânica; Leila Souza, ativista do coletivo Mulheres de Pedra, localizado na Pedra de Guaratiba, e Melissa Alves, estudante de Arquitetura e Urbanismo da FAU/UFRJ e idealizadora do projeto FAU Lá do Povo.

– O objetivo é trazer para o cotidiano das pessoas questões que envolvem o fórum, estimulando novas reflexões e entendimentos sobre o que venha a ser “patrimônio”. No debate, assim como no Fórum, parte-se do princípio que “patrimônio” tem sentidos plurais, sendo uma construção social que varia no tempo e no espaço. Não é algo natural, nem eterno, muito menos estático. A Constituição Brasileira de 1988, determina em seu artigo 216 que o patrimônio cultural brasileiro seja formado “por bens de natureza material e imaterial, tombados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” -, explica Renata Santos. Junto com Alini Rangel, ela faz a mediação do encontro.

Renata Santos uma das organizadoras do fórum
(Foto: Oscar Liberal)

A questão colocada por Renata é como todos os bens que compõem o grande mosaico do patrimônio cultural brasileiro são protegidos por lei. Apenas alguns poucos considerados representativos desse conjunto recebem o reconhecimento do poder público, estando sujeitos às ações de preservação e conservação por parte do Estado. Para as organizadoras, quem seleciona esses bens mais representativos merecedores de proteção legal é um aspecto da questão. Um outro ângulo, pouco lembrado, é que a falta de proteção por parte do Estado não quer dizer falta de patrimônio, falta memória e identidade ou de cultura.

– O debate, portanto, sobre os diversos sentidos de patrimônio e a importância do reconhecimento de suas diferentes formas de manifestação e representação é fundamental para o fortalecimento de noções como pertencimento, cidadania e desenvolvimento, essenciais não só para uma melhor organização das cidades, como também da própria sociedade, acrescenta Renata.

Dentro do processo de organização e estruturação do Fórum como uma plataforma de representação coletiva iniciado com o 1º Encontro de GTs, neste 3º Encontro o fórum conta com a reflexão de Lucienne Figueiredo, Superintendente de Museus da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa analisando a importância de se pensar a relação entre cidade, favela e patrimônio.

Leila de Souza Netto, do Mulheres de Pedra

Leila de Souza Netto falará sobre Identidade e Memória através de relatos a partir de sua experiência desenvolvendo arte e cultura na comunidade Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, através do Coletivo Mulheres de Pedra. É grupo de economia solidária.

– É dessa experiência que farei minha narrativa, entendendo que os diferentes grupos formadores da sociedade precisam ter consciência de que Patrimônio é um bem que merece e precisa ser mantido, preservado e conservado para as futuras gerações -, antecipa ela.

Regina Tchelly: referência em alimentação consciente

Regina Tchelly tornou-se referência em alimentação consciente no país, através do reaproveitamento de sobra de alimentos, do estímulo à plantação de hortas comunitárias e a compostagem. Faz oficinas e palestras sobre o tema.

FAU lá do povo’
Melissa Alves abordará o desenvolvimento urbano e sustentável, temas essenciais para construir cidades com cidadãos sensíveis e conscientes do seu meio urbano.

– A ideia é trazer todos para um debate onde se faz necessária a presença da população, afinal, a cidade é feita de pessoas e para as pessoas -, explica Melissa, que é monitora do projeto de extensão ‘Educação Patrimonial – um olhar sobre a arquitetura e o espaço urbano’.

Melissa criou o ‘FAU lá do Povo’


Desde 2018 o projeto traça roteiros em torno de escolas da rede pública do Rio de Janeiro, levando às crianças e adolescentes uma nova maneira de enxergar a cidade, sua história e suas dinâmicas. Uma forma de elas reconhecerem o patrimônio da região.

O trabalho foi reestruturado este ano devido à pandemia do novo coronavírus, que exigiu afastamento social. Agora são atividades remotas. E Melissa recorreu às mídias sociais para ampliar as discussões sobre o assunto. Criou o projeto de lives periódicas ‘A FAU Lá do Povo’, para dialogar com o público e com convidados que estão à frente do debate semelhantes.

– O fórum, assim como ambos os projetos, busca dialogar com as pessoas sobre uma construção coletiva da cidade, onde todas as pessoas tenham acessos justos de moradia, cultura, saúde e educação. Neste sentido, pensar o desenvolvimento urbano sustentável significa pensar no cenário das cidades, não só promovendo acesso ao patrimônio, à mobilidade urbana de qualidade e a condições favoráveis de saneamento básico, como também combatendo o racismo ambiental e a falta de acesso a habitações de qualidades a todos. E no dia 25 abordaremos um pouco sobre todos esses temas -, conclui a estudante.

Lucienne Figueiredo: ‘patrimônios estão em toda parte’

Artigo de Lucienne Figueiredo:
Favela é Cidade. Favela é Patrimônio.

Favelas falam muito sobre as histórias de formação das cidades, constituem patrimônios sobretudo imaterial, modos de vida e sobrevida… fazeres tão peculiares.

Pensar a Cidade partida, como se a Favela fosse algo fora dela, não tem sentido.

Patrimônios, e aqui coloco propositadamente no plural, estão em toda parte. A Favela é a cidade e é patrimônio. Desde 2008, com o trabalho que implantei com a criação do Sistema Estadual de Museus na Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, tomei consciência do da ação dos coletivos nas Comunidades. Pontos de Cultura, Pontos de Memória e Museus Comunitários que demonstram a diversidade da nossa Cidade e nos levam a pensar que precisamos reconhecer, valorizar, preservar e compartilhar tantas memórias e acervos que se encontram nas Favelas.

Nas Favelas conheci Museus Comunitários, tão legítimos em sua concepção e atuação; com seus registros de memória que nascem da essência de sua comunidade, do desejo de seus moradores que não se veem representados nos museus da cidade.

Aprendi e aprendo muito com o trabalho que vejo sendo feito nas favelas, a movimentação de sua gente que também é minha, e que de alguma forma me afeta e me constrói.

Os territórios da cidade têm questões que precisam ser discutidas com urgência e permanência. A integração urbana, ir e vir para todos e acessibilidade cultural garantida, são pautas a serem abordadas de forma ampla e comprometida por parte de todos.

A Cidade do Rio de Janeiro tem um núcleo edificado onde moram “pessoas com melhores condições financeiras “ uma grande moldura de casas coloridas sobre seus morros. Somos uma única paisagem! Queiram ou não é isso. A favela é parte integrante e exerce um papel intenso nas relações da cidade.

Estamos no século XXI, um Congresso Mundial de Arquitetura para acontecer no próximo ano, a oportunidade de trazer para discussão o triângulo Cidade, Favela e Patrimônio é impar! Não se pode mais dar as costas às favelas e viver com essa cisão.

É papel do Poder Público escutar, entender as demandas, participar e colaborar na integração dessas memórias e patrimônios para um crescimento e enriquecimento cultural de todos os habitantes da Cidade.

O Rio de Janeiro é uma vitrine mundial, tudo que aqui se faz repercute, precisamos aproveitar isso de forma positiva e apresentarmos no Congresso que se avizinha uma proposta de integração e visibilidade dos nossos acervos e patrimônios não importa onde eles estejam. É preciso ampliar o nosso olhar e reafirmar: A Favela é cidade, é Patrimônio!

*Lucienne Figueiredo dos Santos Museóloga-Mestre em Museologia e Patrimônio, Superintendente de Museus e Coordenadora do SIM-RJ, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa-RJ

Serviço: 
I Fórum Cidade, Favela e Patrimônio
3º Encontro de GTs
Bate-papo especial
Data: 25/06
Horário: 18h30 às 19h30 
Evento on LineCanal do Fórum no YouTube
Acesse por aqui:
https://www.youtube.com/channel/UCnQQ-udDc95CmSF5XvaR-Hg

Notícias Recentes

Paulo Knauss

Uma constante contemplação e admiração pelo Rio de Janeiro, que se estruturou para ser vivido na rua, onde o sonho de seu povo toma formas

Andrea Queiroz Rego

Carioquíssima, como ela mesmo se define, a arquiteta, urbanista e professora, Andrea Queiroz Rego, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin