Entre monumentos naturais e o traçado urbano

Paula Merlino Machado
Paula Merlino Machado, arquiteta, gerente do Escritório Técnico da Paisagem Cultural (SMU/IRPH/CCPC/GCM/ETPC)

O Rio de Janeiro é reconhecido mundialmente pela sua beleza natural, como uma cidade que se construiu entre a montanha e o mar, dotada de obras de arquitetura e urbanismo de grande valor estético e simbólico. Capaz de proporcionar espaços e atividades que nos permitem, ao mesmo tempo em que contamos com os benefícios de uma grande metrópole, conviver com a exuberância da natureza, esta paisagem contribuiu para criar o modo de vida singular dos cariocas.

No ano de 2012 a paisagem do Rio de Janeiro foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco na categoria Paisagem Cultural, sendo a primeira cidade de grandes proporções a receber este título, como reconhecimento de seu valor universal excepcional. Assim, o sítio Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar é composto por elementos que estruturam a paisagem cultural da cidade do Rio de Janeiro: as montanhas e suas florestas, parques, jardins e espelhos d’água, considerando a maneira como foram agenciados pelo homem, e as trocas sociais e culturais que estes espaços proporcionam aos seus moradores e visitantes.

Oriundo do campo da Geografia, o termo paisagem cultural se refere ao produto da atuação do homem sobre o ambiente natural, o que torna possível compreender a interferência da cultura sobre a natureza, refletindo a identidade e os saberes dos diferentes grupos. No caso da cidade do Rio de Janeiro, especialmente considerando- se o recorte definido pela Unesco, compreendido entre o Maciço da Tijuca (Parque Nacional da Tijuca) e a orla, da ponta do Arpoador ao Aeroporto Santos Dumont, temos uma paisagem que, construída ao longo dos anos, manteve uma relação de harmonia entre seus monumentos naturais e construídos e seu traçado urbano.

Por ter sido durante séculos a sede da Colônia, Império e República, a cidade foi palco de inúmeras transformações urbanas e formou um acervo de edifícios de grande relevância para a arquitetura brasileira e mundial, que são parte desta paisagem. Um dos principais pontos positivos que influenciaram na escolha da cidade para a inclusão na lista do Patrimônio Cultural Mundial foi a existência de uma legislação eficiente de proteção, tanto ambiental quanto do patrimônio cultural, nas diferentes esferas de governo, além de políticas públicas de proteção da paisagem estabelecidas pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável da cidade.

A maioria dos espaços públicos e construções localizadas no Sítio Paisagens Cariocas possui algum tipo de proteção cultural, o que garante, legalmente, o compromisso assumido pela cidade diante da chancela concedida à paisagem, de promover a sua gestão sustentável. Dessa forma, seus principais monumentos permanecem como referência cultural e histórica, enquanto o restante da cidade se transforma e se adapta aos novos tempos, dada a sua natureza dinâmica.

Considerando o patrimônio cultural como um ativo econômico, entendemos que sua gestão sustentável, a partir de adoção de políticas públicas que integrem as diversas ações em torno dos aspectos culturais da paisagem, possibilitará à cidade de desfrutar economicamente de todo o potencial desta chancela concedida pela Unesco.

No entanto, é necessário intensificar a integração institucional entre os órgãos municipais de patrimônio cultural, conservação, turismo e comunicação, a fim de empreender ações que valorizem os pontos da cidade ligados ao Patrimônio Mundial, incluindo aí também o Sítio Arqueológico Cais do Valongo.

Também está prevista a criação de Centros de Interpretação dos Sítios Patrimônio Mundial: um para as Paisagens Cariocas e outro para o Cais do Valongo, locais destinados à promoção e divulgação do discurso acerca do bem a que se refere, permitindo que o visitante, local ou turista, possa interpretar os valores universais dos bens.

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