Paulo Knauss

Uma constante contemplação e admiração pelo Rio de Janeiro, que se estruturou para ser vivido na rua, onde o sonho de seu povo toma formas e é palco perene de suas alegrias.  A paisagem carioca sempre provoca uma interrogação e conduz à descobertas de caminhos na cidade, que revelam sua pluralidade de vidas.  A relação contemplativa e a curiosidade contagiam igualmente as relações de cada um, seja sentado no banco de uma praça, na areia da praia, ou no balcão de um botequim. O Rio é um oásis de maravilhas, que se expõem aos sentidos. Sobram boas definições da capital fluminense para Paulo Knauss, de 54 anos, nascido em Santa Teresa, professor do Departamento de História e membro do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense (UFF).

– Do alto de Santa Teresa se tem uma visão perfeita do conjunto urbano, que contrasta com a dimensão individual. A proximidade entre o natural e o edificado, o jogo de volumes e cores, entre a luz e sombra… Os pontos de vista que a topografia urbana possibilita, estabelecem uma relação contemplativa recorrente – destaca Knauss, um “especialista em andar pelas ruas e descobrir gente”.

Para ele, a contemplação não favorece apenas a percepção do olhar sobre a cidade, cuja beleza sempre embalou relações sociais e inesperadas. Por vezes, conforme suas observações, parece que o Rio é, sobretudo, um conjunto de sons peculiares e outras vezes parece ser uma gama de cheiros. O tempo da cidade também se percebe nessa mesma contemplação, reconhecendo que há o antigo e o novo e suas matizes.

– Alguns diriam que isso tudo faz o Rio ser sensorial. A curiosidade também se atiça na experiência carioca. Há a vista de quem olha de cima para baixo, como nos cartões postais do Cristo Redentor. E o olhar de baixo para cima, de quem está à beira-mar e persegue o que está no alto dos morros. Na baixada de Jacarepaguá, o carioca se pergunta o que tem do outro lado de uma das lagoas e o que tem do outro lado do morro. Em Ricardo de Albuquerque, em cima de um morro se tem uma vista entrecortada pelos vários acidentes naturais do derredor, a curiosidade só aumenta sobre os outros morros, vales e matas que aparecem de todos os lados no horizonte – comenta.

De sua meninice no bairro dos bondes, Knauss, hoje também especialista em desenvolver pesquisas sobre as relações entre arte, imagem e cultura visual, bem como história, memória e patrimônio cultural, lembra, saudoso, que cresceu fascinado por outro tipo de meio de transporte: os ônibus, que, assim como os táxis, eram raros na sua infância.

– Me recordo dos primeiros ônibus Scania, os mais modernos da época, com porta pelo meio.  Ainda garoto, comecei a andar sozinho nos ônibus. Embarcava na Rua Senador Dantas e me sentia sucumbindo na cidade – relembra, mencionando ainda outras memórias que lhe trazem satisfação, como as aventuras de explorar a mata no alto de Santa Teresa – de onde descia com jacas, exibidas como troféus aos parentes -, ou simplesmente passar horas  nas janelas, só pra ver o movimento nas ruas.

Apostando na descoberta de uma vacina para a Covid-19, que ele acha que vai mudar o modo de vida do brasileiro, assim como no planeta – restaurantes a quilo, no seu modo de vista, devem acabar, enquanto home-offices têm tendência de crescimento, com expectativa de melhorar o fluxo de veículos, com menos deslocamentos nas vias públicas -, Knauss acredita que o momento pós-pandemia será propício para que o Rio afirme sua vocação para centro de um complexo médico-industrial.

– Por reunir instituições públicas de referência, pelas universidades e igualmente pela presença da indústria química, isso é plenamente possível. Saúde e beleza podem ser um elemento propulsor de um Rio renovado, o que poderia contagiar as qualidades do urbanismo carioca, com maior valorização de calçadas, praças e parques. A saúde e seus investimentos em  saneamento e habitação,  podem promover um reencontro com os serviços públicos e uma pauta de transformação da vida urbana, de forma cidadã e coletiva – afirma.

Lugares preferidos de Paulo Knauss no Rio de Janeiro

Aterro do Flamengo / Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Aterro do Flamengo – Uma intervenção humana que trouxe ainda mais beleza a Baía de Guanabara. O Parque do Flamengo, o maior da cidade, cativa cariocas e turistas de todas as partes do mundo. Foto: Alexandre Macieira/ Riotur.

 

Calçadão da Copacabana – Um dos pontos históricos mais incríveis do mundo, não só de uso comum, mas de educação para uma vida saudável, em comunidade.

Parque Madureira. Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Parque Madureira – Terceiro maior da cidade, dá opções de lazer aos moradores da Zona Norte, com quadras de vôlei, basquete e futebol, em meio a fontes, riachos, quiosques, pista de skate, pomar e brinquedos.

Museu Histórico Nacional. Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Museu Histórico Nacional – Já tive o prazer de ser diretor deste patrimônio incrível. Tratá-se do mais importante museu de história do país, reunindo um acervo com cerca de 258 mil itens, entre objetos, documentos e livros, e sendo uma instituição de produção e difusão de conhecimento.

Cristo Redentor. Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Cristo Redentor – Marco da paisagem que fascina e atrai o olhar sobre a cidade e organiza a compreensão da paisagem em termos sensoriais. Além disso, o símbolo da redenção traduzida nos abraços abertos oferece uma leitura generosa da cidade.