Artigo: Ambientes para a saúde das pessoas em tempos de coronavírus


Por Fábio Bitencourt,

Professor doutor em conforto ambiental, mestre em arquitetura em ambientes de saúde, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar



A Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (ABDEH) é uma entidade civil, sem fins lucrativos, de duração ilimitada e representante do Brasil nos fóruns da International Federation of Healthcare Engineering (IFHE) onde tem efetiva participação desde 1998. A diversidade de campos de sua atuação está diretamente vinculada ao amplo entendimento sobre as edificações e ambientes onde são realizados serviços de saúde.

Neste aspecto, todo edifício público ou privado, está submetido às recomendações da legislação para saúde do Brasil. Nesta oportunidade em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil (MS) manifestam-se profundamente preocupados com a possibilidade da infeção humana da doença chamada de coronavírus (COVID-19) que é uma família de vírus que causam infecções respiratórias, surgem preocupações com o ambiente onde a arquitetura pode contribuir com importantes recomendações. Embora os primeiros coronavírus humanos tenham sido isolados pela primeira vez em 1937 segundo a OMS, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil visível na microscopia, assemelhando-se à forma de uma coroa.

As recomendações utilizadas nas edificações para saúde, que podem ter utilidade em quaisquer outra onde haja atividades humanas, devem ser priorizadas na sua avaliação e aplicação, a partir dos seguintes aspectos físicos e funcionais: Fluxos dos usuários, ventilação, climatização e revestimentos.

1 – Fluxos dos usuários – A definição do fluxo é um instrumento de grande significado no controle de acidentes e transmissibilidade de doenças. Tanto pode ter importância para as edificações para assistência à saúde, quanto nos espaços domésticos e profissionais. Simplificar o ordenamento da circulação das pessoas de maneira a não expor os diversos usuários a riscos identificados ou não (podem ser inclusive as pessoas que estejam em fase de avaliação clinica). No espaço residencial, caso não seja possível trafegar por caminhos distintos, pode-se optar pela criação de um modelo de circulação tipo ‘pare e siga’, como nos sinais de trânsito das cidades. A alternativa de controle de fluxo pode ser realizada por meio da utilização de mobiliário que defina trajetórias separadas para cada usuário. Cada móvel: o armário, a mesa de centro, o sofá e as cadeiras podem ser orientadores do fluxo no ambiente, caso sejam necessários caminhos para a separação de espaços dos ocupantes em uma mesma unidade, seja residencial ou com qualquer outra função.

2 – Ventilação – As recomendações de ventilação natural, onde não sejam utilizados nenhum equipamento para insuflar o ar, é a mais clássica das condições de saúde para os usuários das edificações seja para qual uso for. As recomendações descritas em “Ares, Águas e Lugares” texto elaborado por Hipócrates (ou Galeno) no século III a C. continuam contemporâneas e devem servir como forma natural de se obter conforto térmico e saúde humana. A importância da ventilação natural para as edificações representam também uma forma de ‘limpar’ o ambiente do ar confinado e ’lavar’ as superfícies e revestimentos dos patógenos superficiais. Para os usuários com doenças respiratórias crônicas, a ventilação natural pode representar uma eficaz ação terapêutica. A boa ventilação natural também é um dos principais privilégios da edificação e de cada ambiente desta. Claro que a utilização das portas e janelas adequadamente pode ser facilitador da boa qualidade do ar no ambiente, sobretudo quando esta ventilação possibilita que o ar percorra o ambiente cruzando-o em sua extensão.

3- Climatização – Embora estejamos em um país tropical e os sistemas de climatização artificial tenham sido incorporados como necessidade essencial ao conforto humano, este é um momento em que tais valores devem ser reavaliados e revistos. A incorporação dos equipamentos que não dispõem de trocas de ar interno com o ambiente exterior representa o mais perigoso e facilitador vetor para doenças respiratórias. A troca do ar – quando uma parcela do ar interno é enviada para o ambiente exterior e uma mesma quantidade do ar exterior é encaminhada para o ambiente interior, após passar por algum sistema de filtragem – representa uma das mais importantes funções de saúde das edificações. E, por consequência, da saúde das pessoas que ocupam os respectivos ambientes. Neste contexto os equipamentos denominados Split são compostos por duas unidades, uma condensadora (geralmente instalada em varandas, paredes exteriores etc.) e outra evaporadora (dentro do ambiente). Estas unidades funcionam conectadas por duas tubulações de cobre por onde circula o gás que possibilita a refrigeração do ar. Apenas a circulação do gás quente transformado em gás resfriado, e não permite nenhuma troca de ar. Este é o grande problema, pois se respira o mesmo ar que, facilmente torna-se viciado por todos os patógenos que são lançados pela respiração dos usuários do ambiente. Caso algum usuário esteja com alguma doença respiratória, a transmissibilidade é realizada muita facilmente. E aqui está o grande problema dos dias atuais onde a preocupação com os vírus é muito relevante para a saúde das pessoas.

4 – Revestimentos – A principal recomendação em ambientes de saúde e que podem ser aplicáveis aos demais espaços onde ocorrem atividades humanas refere-se à lavabilidade dos revestimentos de piso e parede, em alguns casos inclui-se também o teto. A possibilidade de que os materiais de acabamento utilizados em pisos e paredes possam ser higienizados adequadamente é uma função relevante no processo de controle de transmissibilidade de doenças. A possibilidade de limpeza de paredes, pisos, bancadas de cozinha e banheiro, vidros de portas e janelas é uma providência simples e possível de ser realizada com os materiais domissanitários regularmente utilizados nas limpezas residenciais. No entanto, e caso necessite-se de procedimentos mais sofisticados, o documento do Ministério da Saúde sobre “Processamento de Artigos e Superfícies em Estabelecimentos de Saúde” ainda é uma boa referência (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/superficie.pdf). Inclua-se nestes procedimentos de limpeza das superfícies também as louças e metais: torneiras, registros de pressão, cubas de lavatórios e pias de cozinhas. Tais recomendações podem ser ampliadas para os móveis considerando as características dos materiais que cada um deles possua: madeira, metal, plásticos, vidro ou até mesmo papel.

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